Pandemia de coronavírus

Europa subestimou o perigo do coronavírus

Três dias antes da eclosão da crise na Itália, conselho de prevenção de doenças considerou “baixo” o risco de propagação da covid-19 no continente, revela ata de reunião

Unidade de terapia intensiva de hospital de Catânia (Itália), em 23 de abril.
Unidade de terapia intensiva de hospital de Catânia (Itália), em 23 de abril.Fabrizio Villa / Getty

A Europa está em 18 de fevereiro, uma terça-feira, às portas da pior epidemia em um século. Faltam apenas três dias para que a Itália descubra que o coronavírus SARS-CoV-2 se propagou em silêncio pelo norte do país, uma conclusão à qual, com o passar dos dias, outros governos do continente também chegariam. O vírus, conforme se saberá depois, entrou em asilos para idosos e habita os pulmões de pacientes internados nas UTIs.

Mas os 30 participantes que dão início a um encontro de dois dias na sede do Centro Europeu para o Controle e a Prevenção de Doenças (ECDC) em Solna (Suécia) ignoram tudo isso. São os membros do conselho técnico assessor do organismo, os guardiães da saúde pública europeia. A reunião versa quase completamente sobre um problema que ainda se considera controlado.

A ata da reunião, à qual o EL PAÍS teve acesso, gera um sentimento desconcertante. Lidas três meses e 166.000 mortos depois, fica evidente que ninguém dos presentes antevê o que está a ponto de acontecer. Consideram “baixo” o risco para a população europeia, e há apenas alguns avisos sobre a periculosidade do vírus, a necessidade de tentar averiguar se ele já está na Europa, de encontrar os meios para enfrentá-lo, desenhar medidas… Mas ocupam apenas 20 dos 130 pontos com os quais o documento resume duas jornadas de deliberações.

Tudo parece ficar para depois, e inclusive algumas propostas são adiadas para duas ou três semanas mais tarde. A Áustria e a Eslováquia também observam o inconveniente de gerar medo entre a população, e o representante espanhol, o epidemiologista Fernando Simón, alerta para o risco “de estigmatizar” quem faz exames de diagnóstico. Perguntado nesta segunda-feira, 18 de maio, por este jornal sobre o sentido daquela afirmação, o diretor de emergências do Ministério da Saúde, rosto mais visível da gestão da pandemia para os espanhóis, esclareceu que se referia à necessidade de “também controlar a transmissão” do vírus e não focar o problema em algumas poucas pessoas.

A maior parte do tempo da reunião é dedicada a discussões técnicas e preparatórias, como definir que critérios os pacientes devem cumprir para serem submetidos a exames, algo que em menos de 72 horas começará a voar pelos ares.

O ECDC é um organismo com poucas competências. Seu objetivo é oferecer conhecimento e propostas de coordenação para que os países protejam de forma mais eficiente a saúde de sua população, uma missão em que, nesta ocasião, todos se veem atropelados pela realidade. A ata, entretanto, já mostra algumas de chaves do desastre que se avizinha e propostas que ficam no ar. Também posições de países que antecipam a gestão da crise que se fará depois.

Falsa calma

Até aquela terça-feira, a Europa havia diagnosticado 45 casos de coronavírus, todos eles importados ou contágios entre seus contatos. Um turista chinês procedente de Wuhan, de 80 anos, morreu em Paris. O ECDC estudou esses casos e destacou que os contágios locais “parecem ser leves”, além de escassos e localizáveis. Tudo isso levou o organismo a qualificar de “baixo” o risco para a população e de “baixo a moderado” o que pesa sobre o sistema sanitário. Mike Catchpole, diretor científico do ECDC, avisou, entretanto, que “o vírus se transmite muito bem”, conforme o que havia sido observado nos dois primeiros focos registrados na Europa, uma empresa da Alemanha e um resort de esqui dos Alpes franceses. O representante da Alemanha, por sua vez, mostrou seus receios com a estratégia de contenção seguida até então, já que “não funcionou porque as doenças não respeitam as fronteiras” e propõe (aparentemente sem sucesso) dar um passo além e começar a falar em “recomendações”.

Sem rastro do vírus

O vírus estava se expandindo pela Europa, mas os sistemas sanitários não o detectaram. A razão é que a definição de caso, os critérios que uma pessoa deve cumprir para que seja submetida a exames, estabelecia que o paciente precisaria ter viajado a Wuhan. Isso fez com que nenhuma pessoa com sintomas fosse submetida a exame. Tampouco os pacientes internados nas UTIs com pneumonias de origem desconhecida. Essa foi uma posição decidida por consenso na reunião, que só pareceu poder dar uma guinada quando falou o representante dinamarquês. “É importante saber onde e quando procurar o vírus”, afirma, em referência aos países com maiores recursos para fazer exames. “Por exemplo, em um caso de pneumonia severa, seria lógico procurar o vírus”, acrescenta no dia seguinte. O representante dos Países Baixos conta que encarregou um grupo de médicos de recolher “amostras-sentinelas” para serem analisadas. O representante dinamarquês destaca a importância de “sermos proativos” e “estarmos preparado” diante dos contágios em países como o Japão e o Vietnã. O fato, entretanto, é que os critérios só foram flexibilizados em 25 de fevereiro, quatro dias depois das duas primeiras mortes na Itália.

Exames inflacionados

Vários países europeus se viram durante a crise sem exames suficientes para todos os casos suspeitos. O problema já está presente na reunião. Países como Japão, Vietnã e Singapura começavam a registrar transmissão interna do vírus e se discutia que os viajantes procedentes de lá também fossem submetidos a exames, mas o representante da Finlândia avisou na reunião que isso poderia ser “insustentável”. “Levaria muitas pessoas a precisarem do exame, a maioria das quais daria resultado negativo, mas o ônus para o sistema sanitário seria enorme”, avisa. A Alemanha, o país que mais apostou em testar a todos os casos suspeitos, deixou entrever sua posição. “Distribuímos protocolos dos exames PCR a mais de 20 hospitais” e “fizemos mais de 1.000 testes”, diz seu representante, em contraste com o resto dos participantes.

Sem máscaras disponíveis

Quando a Alemanha saiu ao mercado internacional para comprar equipamentos de proteção individual para seus profissionais sanitários, o encontrou “vazio”, conta seu representante, destacando as dificuldades de impulsionar a “produção nacional”. O delegado dos Países Baixos relata que “há poucos EPIs disponíveis”, enquanto a Irlanda informa que “declarou a emergência sanitária e se aprovisionou”.

O colapso nos hospitais

Na reunião, praticamente só houve uma única menção ao que seria um dos principais problemas da epidemia. Ela parte do representante holandês, segundo quem seu país “pode ter problemas com a capacidade de leitos hospitalares, e a principal preocupação é adotar medidas que adiem ou mitiguem a epidemia”.

“O medo com o ocorrido na gripe A influenciou”

“Subestimou-se o vírus”, resume Daniel López Acuña, ex-diretor de Ação Sanitária em Crises da Organização Mundial da Saúde (OMS) e agora professor-associado na Escola Andaluza de Saúde Pública, depois de ler a ata da reunião. É uma posição compartilhada por todas as fontes consultadas. “Inclusive com os olhos de então, com o que já se sabia, pode-se ver que não se valorizou suficientemente a capacidade de transmissão do vírus, nem o impacto que podiam ter as viagens internacionais…”, afirma. “O medo com o que ocorreu no caso da gripe A, quando depois os Governos foram criticados por terem investido em prevenção, influenciou”, argumenta uma fonte de um Governo regional espanhol que pede o anonimato. Para Joan Ramon Villalbí, da Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (Sespas), também é preciso levar em conta que os antecedentes da primeira SARS e da MERS “não apontavam em nenhum caso para uma propagação” como a que transformou o coronavírus SARS-CoV-2 em uma pandemia global.

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