Pandemia de coronavírus

Apagão de respiradores e o medo de ter mais pacientes que a capacidade do hospital: “E se eu precisar escolher?”

A fisioterapeuta Josy Silva, que trabalha em três hospitais, tem pesadelos com a chegada do pico da doença quando houver mais doentes que equipamentos e equipes disponíveis

Marcelo Chello / Marcelo Chello
Josette Goulart/ @lagartixadiaria

Josy Silva tem por profissão cuidar da respiração das pessoas que chegam em estado grave em hospitais públicos do Rio. Ela é fisioterapeuta e trabalha em três hospitais na capital carioca, dois deles de campanha. Quando pegou o coronavírus, há três semanas, sua maior preocupação foi imediatamente identificar que hospitais atendiam seu plano de saúde e dispunham de profissionais experientes que a pudessem entubar rapidamente caso lhe faltasse o ar. "Porque até hospitais particulares não estão com tanta gente experiente assim. Graças a Deus não precisei”.

— Mas por que essa obsessão com a rapidez?

— Quando o paciente precisa ser entubado, está com falência respiratória. Se não consegue entubar em tempo hábil, poderá ter parada cardíaca porque ficará com oxigenação muito baixa. Se entubar rápido, volta sem nenhuma lesão. Mas para entubar rápido precisa de alguém experiente.

E claro, óbvio, ululante, precisa ter um respirador. É por isso que para quem entende de respiração como Josy Silva, um novo medo, totalmente racional, está lhe aterrorizando agora que voltou ao trabalho, no momento em que a pandemia está ainda pior do que quando ela se isolou para se curar da covid-19: “Eu temo que chegue o momento em que meu pai e minha mãe precisem de um respirador e não tenha. Precisar de um mínimo de assistência e não ter. Ver as pessoas morrendo na rua, como está acontecendo lá fora”.

Os respiradores já viraram caso de polícia. Teve até subsecretário de saúde preso no Rio porque fechou contratos milionários suspeitos para a compra dos equipamentos. Mas a realidade dos respiradores, quando se foca no que isso significa no combate à pandemia e não à corrupção, a situação é muito mais grave do que sugerem os casos de polícia.

Em Goiás, o hospital de campanha, construído pelo governo federal e que chegou a receber durante as obras a visita de Bolsonaro, está pronto mas não tem UTIs. Você leu certo. Sem UTIs. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, disse que o governo federal informou que não tem como entregar os equipamentos para ativar os leitos intensivos. Leia-se, não tem respiradores.

O Ministério da Saúde comprou 15.000 respiradores da China. Cancelou o contrato no meio do mandato relâmpago do ministro Nelson Teich, alegando que o fabricante não iria entregar no prazo. A entrega deveria ter começado em abril. O agora ex-ministro Teich passou então a se apegar à produção nacional, que vai fornecer 14.000 respiradores em contrato fechado ainda na gestão do outro ex-ministro, Henrique Mandetta.

Só que a produção nacional também tem um problema: a matéria-prima é importada. E a matéria-prima importada é nada mais nada menos do que um dos principais componentes de um respirador: a válvula. Assim como os respiradores já prontos, a válvula, que é uma espécie de processador do computador anexado ao respirador, virou artigo de luxo na competição internacional pela compra dos equipamentos.

A indústria já avisou ao ministério que depende disso para cumprir o contrato que prevê a entrega dos 14.000 respiradores, em seis meses. Além disso, neste momento, a indústria está em fase de aprender a produzir. A Magnamed, por exemplo, que tem um contrato para entregar 6.300 respiradores, tinha capacidade de produzir 250 respiradores por mês. Repetindo, por mês. Recebeu apoio financeiro de outras empresas para aumentar a produção e tentar entregar 1.050 respiradores por mês, mas por enquanto não atingiu esta meta.

A fábrica da empresa em Cotia, mesmo com o aporte de capital, continuará com capacidade limitada e por isso parte da produção está sendo feita na Flextronics, que é uma linha industrial de produção no interior de São Paulo. Mas para fabricar em outra fábrica, tem a tal curva de aprendizagem. Outro problema é que dezenas de liminares pelo país estão confiscando os respiradores.

O resultado é que, passado um mês desde que o contrato entrou em vigor, a indústria nacional entregou apenas cerca de 550 respiradores para o governo federal, que tem melhores condições de avaliar que cidades e estados precisam receber respiradores com mais urgência. Quando Mandetta era ministro, ele não se cansava de dizer que não era obrigação do ministério comprar os tais respiradores e recomendava aos estados a correrem por fora, tentando comprar diretamente. Mas mesmo os governadores que conseguiram fechar contratos relevantes estão com dificuldades.

O Estado de São Paulo está com problemas para trazer os respiradores, que já estão prontos, da China. As autoridades chinesas limitaram a quantidade máxima de embarque de respiradores a 150 unidades por avião. Em vez de 6 embarques em maio, como planejava o governo do Estado, vão precisar fazer 20 embarques. "E está difícil conseguir voo”, disse uma fonte do governo do Estado que preferiu ficar no anonimato. O governo paulista está na expectativa de receber dois lotes nesta semana. “Mas só acredito quando já estiver em solo paulista”.

A história se complica em outros Estados que fecharam contratos feitos às pressas, muitos com intermediadores sem qualquer expertise de importar equipamentos hospitalares, sem licitação, por conta dos decretos de calamidade pública. Um consórcio feito pelos estados do Nordeste teve a compra de 600 respiradores, feita por intermédio de uma empresa americana, cancelada. O governo da Bahia pagou antecipadamente e agora ainda vai ter que brigar para receber o dinheiro de volta.

Em Santa Catarina, o governo pagou adiantado 33 milhões de reais e o governador agora diz que está investigando todo mundo. Funcionários exonerados da área de saúde já botaram a culpa no secretário da Casa Civil, bem próximo ao governador. Carlos Moisés, o governador catarinense que se elegeu na onda bolsonarista, vinha trilhando caminhos diferentes do governo federal. Agora que está sendo questionado, caiu na tentação de atacar a imprensa e sugeriu a empresários que parem de anunciar em jornais que estão denunciando os casos. Ele diz que comprou no afogadilho. O mundo inteiro está comprando no afogadilho.

E enquanto a entrega de respiradores para o Brasil segue a passo de tartaruga, os números de mortos crescem assustadoramente. Na semana passada, as estatísticas começaram a virar os dias na casa das 800 mortes diárias. Todos os dias são quase 10.000 novos casos de pessoas infectadas e o Brasil já ultrapassou Itália e Espanha neste triste ranking.

E a situação vai se deteriorando a cada dia no sistema de saúde. No Rio, já tem até uma recomendação para orientar os profissionais de saúde a escolher quem recebe ou não o respirador. Ou seja, quem vive e quem morre. Os colegas de um pronto socorro na zona oeste, em que Josy trabalhou até um mês atrás, já vivem esta realidade. Ela trocou de hospital no começo da pandemia depois de perceber que o colapso era tamanho que ela estava apenas validando mortos. Não tinha como atendê-los, de tantos que eram.

Agora esta realidade caótica volta a tirar o sono de Josy Silva. "Este é um dos meus medos em relação ao pico. E se eu precisar escolher? O princípio do SUS é que saúde é direito de todos e dever do Estado. De repente, a saúde não é mais direito de todos porque não tem pra todos. E colocar na nossa mão decidir, que estamos na assistência…”

Não se sabe exatamente de quem será a decisão final sobre quem vive e quem morre. Se do médico, se da equipe. Talvez seja mesmo de Deus. Mesmo com as recomendações que dão pontuação a pessoas de acordo com a idade, comorbidades… "como você escolhe rapidamente quem entubar em uma sala em que 20 pessoas precisam imediatamente do respirador?", se pergunta Josy Silva.

A covid-19 tem esta crueldade. As pessoas precisam de respirador de uma hora para outra. É o que os médicos chamam de uma pneumonia silenciosa. Em um minuto a pessoa está conversando normalmente, no minuto seguinte ela já não tem mais oxigênio suficiente circulando pelo seu corpo. E aí precisa de um respirador e de um médico experiente.

Do seu quarto isolado, enquanto aguardava para voltar ao trabalho, Josy Silva se pegava imaginando em voz alta, sabendo que não vai encontrar uma boa resposta: "Mas não tem tanto médico experiente para ocupar todo o país. Já não tem no Rio. Fico imaginando como no interior vão conseguir.”

Josette Goulart é fundadora e editora do jornal Lagartixa Diária. Siga a @lagartixadiaria

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