Pandemia de coronavírus

Brasil tem novo recorde de mortes notificadas em 24 horas enquanto São Paulo projeta chegar a 11.000 óbitos até junho

Governo paulista amplia quarentena até o fim de maio e diz que, em um mês, casos cresceram 3.300% no interior e litoral e 770% na região metropolitana. Pequim impediu a importação de 500 respiradores para o Estado

Pacientes com coronavírus, em um hospital de campanha em Santo André, São Paulo.
Pacientes com coronavírus, em um hospital de campanha em Santo André, São Paulo.AMANDA PEROBELLI / Reuters

Epicentro da pandemia do coronavírus na América Latina, o Brasil enfrenta um momento dramático da crise. Com o novo recorde de 751 novas mortes informadas ao Ministério da Saúde nas últimas 24 horas, o país conta um total de 9.897 mortes pela covid-19 e 145.328 casos confirmados. Os novos falecimentos notificados nesta sexta-feira (8) não ocorreram em um único dia, já que os procedimentos entre o óbito e o fim de todo o fluxo para que a informação sobre ele chegue ao Governo Federal pode demorar até dez dias. Enquanto o país não consegue ainda apresentar o tamanho real da epidemia, sistemas de saúde já entram em colapso em vários Estados. Um estudo do Imperial College divulgado nesta sexta-feira (8) mostra que o contágio pelo coronavírus está longe de ser controlado em aos menos 16 Estados e ainda tende a subir, se as medidas de distanciamento social seguirem as mesmas. Recomenda que medidas mais duras sejam adotadas para frear o contágio.

A situação dramática ganha tons surreais por causa do comportamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, que segue defendendo o relaxamento da quarentena para socorrer a economia e trata o tema com ironia. Após dizer “e daí?” quando o total de mortos ultrapassou os da China dias atrás, agora o mandatário anunciou, em tom de ironia, que planeja um churrasco com centenas de pessoas em sua residência em Brasília. “Se dependesse de mim, grande parte já estaria trabalhando”, insistiu.

Ao menos três Estados ―Pará, Maranhão e Ceará― já determinaram o bloqueio total (ou lockdown) em algumas cidades mais infectadas para tentar frear a disseminação da doença. São Paulo, que tem uma das redes públicas mais robustas do país, sente a pressão de ver seus hospitais lotando rapidamente, mas decidiu apenas ampliar para todo o mês de maio uma quarentena que pretendia relaxar a partir da próxima segunda-feira (11). O Estado teve uma explosão de novos casos de coronavírus nas últimas semanas e enfrenta dificuldade de fazer chegar respiradores comprados no exterior para expandir a rede de atendimento dos pacientes mais graves com a covid-19. O governador João Doria definiu a situação atual como “o pior momento da pandemia” e decidiu prorrogar a quarentena em todo o Estado pelo menos até o final de maio. Ainda assim, o Governo paulista projeta que o número de mortes pela covid-19 pode chegar a 11.000 em junho. Hoje, São Paulo soma 3.416 mortos pelo novo vírus.

Há dias, as autoridades de saúde de São Paulo apelam para que a população fique em casa num cenário de queda dos índices de isolamento social observado nas últimas semanas. Segundo o Governo, no último mês, os casos confirmados de infectados cresceram 3.300% no interior e litoral. Na região metropolitana de São Paulo, que concentra a maior fatia dos casos desde o início da epidemia, essa subida foi de 770%. O cenário traçado para os próximos dias é nebuloso. Enquanto o Estado soma 41.830 casos e 3.416 mortes pelo coronavírus, o Governo teve bloqueada a entrega dos primeiros 500 dos 3.000 respiradores que havia adquirido da China.

Os equipamentos deveriam ter chegado no último sábado (2), mas o país asiático decidiu limitar a 150 o número de itens de cada mercadoria que pode ser embarcada nos aviões para exportação. A estratégia do país, que concentra a maior parte da produção de insumos hospitalares, era garantir que os produtos pudessem ser entregues em outros países com velocidade num cenário de escassez global. São Paulo correu para mudar a papelada, mas ainda estuda como vai conseguir fazer chegar no Brasil os outros 2.850 respiradores que comprou, como informou a Folha de S. Paulo. Esses insumos são fundamentais para equipar os leitos de terapia intensiva, estrutura importante para ajudar que os acometidos mais gravemente pela covid-19 possam respirar durante a fase mais aguda da doença, que ainda não tem medicamento para cura nem vacina comprovadas. Neste momento, os leitos de UTI públicos paulistas já estão lotados.

Trabalhando com esse cenário preocupante, o governador João Doria decidiu prorrogar a quarentena em todo o Estado. Durante entrevista coletiva nesta sexta-feira (8), anunciou que o relaxamento do distanciamento social esperado para o dia 11 de maio ainda não virá. As medidas de restrição seguirão pelo menos até o próximo dia 31 de maio. “O cenário é desolador”, lamentou Doria. O governador criticou o “desrespeito à quarentena” visto nas últimas semanas, que diminuiu as taxas de isolamento e fez com que aumentasse “dramaticamente” o número de casos. “É o pior momento da pandemia. Só não reconhece quem está cego pelo ódio ou pela ambição pessoal”, disse João Doria.

A previsão do Governo é que, até o fim de maio, o Estado tenha entre 90.000 e 100.000 casos do vírus, além de 9.000 a 11.000 óbitos. “Nós não conseguimos minimizar esses números com as medidas de agora porque isso já está em curso”, explicou Dimas Covas. “E isso considerando a taxa mínima de 55% de isolamento. Se for menor, os números serão piores”, garantiu ele.

O Governo afirma que só relaxará a quarentena quando houver redução sustentada de novos casos por 14 dias e quando a taxa de ocupação de UTIs for menor que 60%. Atualmente, 70% dos leitos de terapia intensiva do Estado estão ocupados. Na cidade de São Paulo, esse índice sobe para 89,6%. Essas estruturas são cruciais para salvar as vidas daqueles que têm uma manifestação grave da covid-19. “A quarentena é quem salva vidas”, continuou Doria. “Nenhum país conseguiu relaxar as medidas de isolamento social com a curva de casos em alta”. Segundo as projeções do próprio Governo, se as medidas de distanciamento social não tivessem sido adotadas, o Estado estaria com 700.000 casos da doença, um número 17 vezes maior que os 41.000 casos que registra atualmente.

Mas o cenário complicado que os números de infectados apresentam hoje para São Paulo segue sendo um retrato do passado, já que há um período de incubação de até 14 dias para este novo vírus. De quinta para sexta-feira, houve aumento de 6% nas mortes e 5% nos casos de coronavírus, conforme apresentou o secretário da Saúde do Estado, José Henrique Germann. “É importante entender que esses números são de duas ou três semanas atrás”, ressaltou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã e coordenador do Centro de Contingência de combate ao coronavírus de São Paulo na ausência de David Uip, que está de licença médica por alguns dias após um mal estar cardíaco.

O governador João Dória ainda defendeu que a crise de saúde também afeta a economia, mas que o distanciamento social é importante para sanar ambas as crises. “O colapso do sistema de saúde causa medo, e o medo é o pior inimigo da economia. Afasta investidores e aumenta o desemprego”, justificou. O secretário da Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, também defendeu a quarentena do Estado. “Existe um equívoco de que o isolamento social causa a crise econômica. A crise é causada pela pandemia, não pelas medidas feitas para combatê-la”, afirmou. “Vemos muitas esferas de poder agindo no sentido contrário no país”.

Para exemplificar, Meirelles utilizou o serviço doméstico que, segundo o Governo, foi o mais afetado pela pandemia. “E não foi objeto de nenhuma restrição. Ele foi afetado pela preocupação das pessoas”, justificou o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central. “As experiências de países mais avançados nos mostram que a economia começa a retomar depois que se passa o pico. A quarentena tem por finalidade combater a contaminação e, consequentemente, beneficia a economia”, finalizou ele.

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