Pandemia de coronavírus

À beira do colapso, Manaus duplica número de mortes com escalada de coronavírus

Capital do Amazonas, que sofre com falta de UTIs, registra 1.582 mortes a mais em abril deste ano que no mesmo período do ano passado. Com gargalo na testagem, poucos destes óbitos são creditados à covid-19

Profissionais da saúde protestam contra a falta de equipamentos de proteção em Manaus.
Profissionais da saúde protestam contra a falta de equipamentos de proteção em Manaus.BRUNO KELLY / Reuters

Um dos epicentros da pandemia de coronavírus no país, Manaus registrou 2.607 mortes em abril, bem mais que o dobro do que somou no mesmo mês do ano passado (1.025) e do que o número médio de óbitos (1.017 por mês) que costumava registrar nos meses anteriores à chegada da doença na cidade. Os dados foram levantados pelo EL PAÍS no Portal da Transparência do Registro Civil Nacional e podem indicar que o impacto do coronavírus é ainda maior do que mostram os números oficiais. Levantamento da Secretaria Estadual da Saúde contabiliza na capital amazonense 532 óbitos por covid-19 desde os primeiros registros de casos em março, mês em que 1.047 pessoas morreram na cidade, segundo dados dos cartórios.

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Muitas das mortes que aconteceram neste ano, após a chegada do coronavírus, acabam sendo registradas nos cartórios brasileiros como insuficiência respiratória ou pneumonia, um efeito da defasagem de testes no país. Parte dos mortos, apesar de ter desenvolvido sintomas da doença, não chega a passar pela testagem necessária para a confirmação. Por isso, as estatísticas acabam mostrando um retrato nada fiel do quadro real. De acordo com dados dos cartórios, por exemplo, em abril foram registrados 351 óbitos por covid-19 em Manaus —a secretaria municipal aponta que foram 360 no período.

O próprio prefeito Arthur Virgílio (PSDB) reconhece que, devido à insuficiência na testagem o número estimado de infectados seria quatro vezes maior que o divulgado pelos órgãos governamentais. “Não há dúvida de que as mortes também estão subnotificadas”, afirmou o prefeito em pronunciamento crítico ao Governo Federal na última terça-feira. “Temos uma missão dura pela frente para salvar vidas. Enquanto eu peço às pessoas para ficarem em casa, o presidente [Jair] Bolsonaro manda o povo ir pra rua.” O prefeito já gravou vídeos requisitando ajuda para Greta Thunberg e para presidentes de outros países. “Estamos diante do desastre”, afirmou ele no filme endereçado à ativista sueca.

Com o segundo menor índice de leitos de UTI (19 a cada 100.000 habitantes) entre as dez capitais com mais casos confirmados de coronavírus, Manaus trabalha há duas semanas com ocupação acima de 90% nas unidades de terapia intensiva, sendo que a rede estadual na cidade já atingiu sua capacidade máxima. Em abril, o serviço funerário havia entrado em colapso. Nos cemitérios públicos, o sepultamentos passaram a utilizar valas coletivas por falta de espaço e coveiros, enquanto funerárias privadas esgotaram estoque de caixões. No primeiro dia de maio, a cidade chegou ao pico de 151 enterros. Até o início do ano, a média, agora superior a 100, era de 30 sepultamentos diários.

Pelas estatísticas repassadas por cartórios ao Registro Civil Nacional, a tendência de mortes em Manaus para este mês segue em alta. Até quarta-feira, foram registrados 450 óbitos no município, capital com a maior taxa de letalidade (9,7%) para o coronavírus. Em projeções traçadas no fim de abril, a prefeitura da cidade considera a possibilidade de realizar, caso o pior cenário se concretize, aproximadamente 4.200 enterros apenas em maio.

Nesta quarta, no entanto, a Justiça do Amazonas negou um pedido do Ministério Público que reivindicava a necessidade de lockdown (fechamento total das cidades) no Estado. Em sua decisão, o juiz Ronnie Frank Stone apontou que “não há nada que indique uma tendência crescente a justificar medidas mais drásticas de isolamento social adotadas, em especial na cidade de Manaus”. Em outra ponta, o governador Wilson Lima (PSC), afinado ao discurso de Bolsonaro, apresentou um plano para flexibilizar a quarentena e iniciar a retomada de atividades não essenciais a partir do próximo dia 14.

Fortaleza e São Paulo também observam salto de óbitos

Capital com a maior taxa de incidência do coronavírus, Fortaleza registrou 2.102 mortes totais em abril, 512 (27%) a mais que a média mensal. Oficialmente, pelos números da Secretaria Municipal da Saúde, houve 498 mortes por covid-19 no mesmo mês. Nesta sexta-feira, a cidade inicia a fase de fechamento total, endurecendo as medidas restritivas decretadas pelo Governo estadual. “Mesmo aumentando o número de leitos, o sistema de saúde está chegando ao limite. É o momento de adotar um isolamento social mais rígido”, explicou Camilo Santana (PT), governador do Ceará. Nesta quarta, a ocupação de leitos de UTI na rede pública da capital cearense alcançou 97% de sua capacidade.

Em São Paulo, cidade com o maior número de casos confirmados e mortes por covid-19 do país, os óbitos cresceram 25% em relação à média, totalizando 9.311 em abril. Neste mesmo mês, a metrópole teve 1.408 mortes por covid-19, segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde. Em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, o secretário, Edson Aparecido, informou que a cidade somou quase 3.200 mortes por doenças respiratórias entre 17 de março e 30 abril, cerca de 100 vezes mais ocorrências que o mesmo período do ano passado. “É um dado que nos revela a dimensão da gravidade dessa pandemia. Estamos em um momento de ascendência da doença, tanto do ponto de vista da disseminação, como do ponto de vista de óbitos”, disse o secretário. Em nova tentativa de frear o surto, o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou a volta do rodízio de carros na capital paulista, em que cada veículo só poderá circular em dias alternados ao longo da semana.

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