Pandemia de coronavírus

Um mundo em quarentena busca saídas para a crise

Tripla perturbação causada pelo coronavírus – sanitária, econômica e política – une a humanidade sob a mesma ameaça, mas a divide nas respostas

DVD 994 (23-03-20) Madrid Vacio por el coronavirus. La Gran Via. Foto Samuel Sanchez
DVD 994 (23-03-20) Madrid Vacio por el coronavirus. La Gran Via. Foto Samuel SanchezSamuel Sanchez

O planeta, para um extraterrestre que aterrissasse nos últimos dias, ofereceria uma imagem estranha, entre aprazível e inquietante. Mais de um terço da humanidade está em casa, privada da liberdade de ir e vir, algo tão essencial e que todos nós damos como garantido. As ruas vazias, como as estradas sem carros. Os céus claros, sem aviões. As fronteiras, fechadas. Os líderes? Encerrados também e administrando como podem —primeiro cada um por sua conta, atabalhoadamente, quase sempre tarde apesar dos sinais— a maior crise que certamente lhes caberá enfrentar em suas vidas. Os cidadãos? Desconcertados pelo vírus que foi detectado na China em dezembro passado e que já matou mais de 28.900 pessoas, afetando 200 países. Angustiados por sua saúde e a de seus próximos, e pelo golpe econômico que, segundo a unanimidade dos especialistas, se avizinha. O mundo entrou em hibernação.

“Vivemos um momento histórico de desaceleração, como se freios gigantes detivessem as rodas da sociedade”, compara, falando do seu confinamento na Floresta Negra, o filósofo alemão Hartmut Rosa, que dedicou boa parte de sua obra a estudar o que ele chama de “aceleração” desenfreada das sociedades capitalistas. “Nos últimos duzentos anos ou mais, o mundo ia cada vez mais rápido”, argumenta. “Se você observar o número de carros, trens, navios, aviões, o tráfego e o movimento aumentavam sem cessar. É verdade que havia bolsões de desaceleração, por exemplo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001: o tráfego aéreo foi menor durante algumas semanas. Mas tudo isto se interrompeu. Vivemos um momento único de calma”.

O eletrochoque deixou os humanos aturdidos, num estado que mistura a calma, como diz Rosa, com o desassossego, sem espaço físico para se movimentar nem espaço mental para saber como será a vida, a cidade, o país, o mundo em dois ou três meses, ou em um ano. É um triplo abalo. Primeiro, de cunho sanitário: a doença desconhecida, a Covid-19, e o vírus que a causa, o temível SARS-Cov-2. Não existe uma vacina, por isso as medidas aplicadas são as chamadas não farmacêuticas, em sua modalidade mais extrema: o confinamento. Não só dos infectados ou suspeitos de está-lo, mas sim, inicialmente, de cidades e regiões inteiras —Wuhan na China, desde janeiro, a Lombardia e boa parte do norte da Itália desde 8 de março— e, nos dias seguintes, como se as peças de dominó caíssem uma após as outras, países grandes e pequenos, desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Da Itália inteira à Índia, passando pela Espanha, França, Reino Unido e uma parte considerável dos Estados Unidos e da América Latina: três bilhões de pessoas quietas e trancadas.

O segundo abalo é econômico. Os Governos assumem que o freio na atividade provocará uma recessão global —as rotas do comércio mundial, já interrompidas quando o coronavírus parecia ser apenas um mal chinês, estão bloqueadas. Em 2020, a contração do PIB será de 2,2% na zona euro, segundo a agência de qualificação Moody’s, e de 2% nos Estados Unidos. As cifras de solicitantes de subsídios de desemprego neste país bateram um recorde: nunca, em meio século desde o início dos registros, tinha sido tão alta, mais de três milhões. As somas que foram ou serão injetadas para amortecer o tranco para empresas e trabalhadores —cinco trilhões de dólares só para os países do G20— e as intervenções dos bancos centrais dão uma ideia das dimensões do desastre que se tenta evitar, ou suavizar. Volta a soar o “whatever it takes” (“o que for preciso”), bordão mágico que Mario Draghi, então presidente do Banco Central Europeu, pronunciou em 2012 para salvar o euro, e funcionou. Todos, não só os bancos centrais, prometem “o que for preciso”, mas, oito anos depois da intervenção de Draghi, o primeiro ato da crise encena uma resposta em ordem dispersa. As fraturas da União Europeia reaparecem em toda sua crueldade. O vírus é global; as reações, nacionais.

Cogita-se uma mudança de modelo econômico. O fim da globalização? “Talvez seja inevitável passar por uma fase de desglobalização, ou seja, de comércio e fluxo de capitais reduzidos entre os países”, escreve o economista francês Thomas Piketty em um e-mail ao EL PAÍS. “Continuar como se nada tivesse acontecido não é uma opção. Caso contrário, o nacionalismo triunfará”, alerta.

O terceiro golpe, além do sanitário e econômico, é político. O vírus irrompeu num momento de retraimento dos EUA e de afirmação nacionalista da China. A batalha, que não distingue fronteiras e ao menos no papel une o mundo em torno de uma mesma causa, é uma batalha pela influência entre as potências mundiais. “Agora a luta é contra o vírus. Mas o vírus será derrotado. E as pessoas voltarão a trabalhar e a embarcar em aviões. Quando isso acontecer, a posição da Rússia e da China terá se reforçado comparativamente, enquanto a dos Estados Unidos se debilitou”, analisa o ensaísta norte-americano Robert D. Kaplan. “Como a China é autoritária”, acrescenta Kaplan, “foi capaz de impor quarentenas extremas como nenhuma democracia é capaz. Ao ter tantas empresas estatais, estas puderam absorver o choque econômico do vírus. E a Rússia, por já estar submetida a sanções, foi capaz de ser mais autossuficiente do ponto de vista econômico. Já os Estados Unidos e a Europa, totalmente imersos no sistema de livre mercado, sofreram uma devastação econômica pelo vírus”.

Em poucas semanas a história se acelerou, como em 1989 ao cair o Muro de Berlim, ou em 1914 com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. E, ao mesmo tempo, congelou-se. Nunca a humanidade estancou tão de repente. Nunca se tinha visto uma decisão coletiva semelhante, embora, paradoxalmente, não coordenada: cada país ia se confinando no seu ritmo, ignorando as lições do vizinho, repetindo seus erros e tropeços e, finalmente, confluindo, com variações na intensidade do confinamento e exceções em países como a Coreia do Sul, que o administraram com medidas menos drásticas.

Não houve longas discussões parlamentares nem tampouco pressão social antes que fosse decretada aquela que é, talvez, a decisão mais relevante deste século. A pressão que conduziu ao fechamento das fronteiras e à clausura dos cidadãos não era a dos eleitores, e sim a da locomotiva sem freios que, temia-se, acabaria por causar centenas de milhares ou milhões de mortes.

“Esta é uma pandemia, pela primeira vez na história, em que o mundo está interconectado tecnologicamente e onde os mercados financeiros estão interconectados. Por isso causou uma perturbação como nunca se viu”, diz Kaplan.

A política soberana —o Estado— retoma um papel central. Paralelamente, atropelada pelo inimigo invisível, ficou exposta sua impotência. Daí as críticas pela lenta reação das autoridades. “Nos países democráticos, os Governos são tão fracos que não podiam impor a decisão antes que esta se impusesse por si mesma. Por isso chegamos tarde”, defende em Paris a socióloga Dominique Schnapper. “Imagine o que teria acontecido se há vinte dias o Governo tivesse decretado o confinamento? Não teria sido aplicado e teria causado um escândalo. Agora o acusam de ter demorado.”

O mundo hiberna, é verdade, mas os contornos do mundo posterior ao coronavírus começam a se desenhar. Enquanto os profissionais da saúde lutam pelas vidas dos doentes e os pesquisadores correm contra o relógio atrás da vacina, os dirigentes enfrentam o diabólico dilema entre a preservação da saúde pública e a sobrevivência da economia. “Este é o verdadeiro problema”, afirma Schnapper. “É preciso encontrar um equilíbrio entre ambos os imperativos: o sanitário, que é imediato, e a necessidade de que a sociedade continue funcionando: continuar alimentando as pessoas e que não haja uma falência econômica. Não há fórmula simples. A política consiste em conciliar dimensões contraditórias”.

Quanto mais durarem os confinamentos, mais probabilidades de atenuar a pandemia e menos de evitar a depressão econômica: este é um dos debates. Não o único. O vírus e a corrida para derrotá-lo disparam uma competição entre modelos políticos. Confronta autoritários (China) e democráticos (Europa e EUA). E, dentro dos democráticos, opõe populistas a moderados. A gestão dos Trumps ou Bolsonaros se medirá com a da alemã Angela Merkel e do francês Emmanuel Macron.

Ao erguer novas fronteiras e responsabilizar a globalização pela propagação da epidemia, poderia ser o caso de que o populismo e o nacionalismo saiam fortalecidos. Não está tão claro. Porque o medo —neste caso, a uma ameaça real, não imaginária— reforça a confiança nos cientistas e médicos: não é hora de experimentos nem de soluções fáceis.

“Poderíamos dizer que a crise gera os anticorpos do populismo”, diz por telefone Laurence Morel, cientista política na Universidade de Lille. “Não digo que o fará desaparecer: será decisiva a capacidade dos Governos para resolver a epidemia e evitar consequências econômicas muito graves. Serão os resultados. Sabemos que os populistas prosperam quando os Governos são impotentes”.

Tudo é incerto por enquanto. O historiador britânico Thomas Carlyle sustentava, no século XIX, que a história da humanidade era a história dos “grandes homens”. Karl Marx lhe corrigiu e escreveu que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem arbitrariamente, sob as condições que eles escolhem, e sim sob as condições diretamente recebidas e herdadas do passado". Hoje o protagonista da história é outro. Nem um grande homem ou mulher —um líder, um herói, um ditador— nem a luta de classes. É o vírus invisível, que assusta e ao mesmo tempo unifica e divide a humanidade.

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