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Tribuna
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Série ‘Segunda chamada’: o povo a gente vê por aqui

Produção retira o povo da arquibancada para colocá-lo no jogo, na plenitude de seu dialeto, de sua tragédia e de sua ação

Alunos de uma escola pública brasileira.
Alunos de uma escola pública brasileira.RAPHAEL ALVES

A estética da teledramaturgia brasileira, salvo exceções, expressa a linguagem, a plástica, os dilemas e os sentimentos do topo da pirâmide social. Os núcleos centrais dos roteiros são, costumeiramente, formados por protagonistas brancos, ricos, elegantes e fúteis. Como se o fio principal da vida estivesse nas dores e prazeres do amor, nas vilanias individuais, nos dramas dos quais se abastece a psicanálise.

As novelas e produções seriadas para a telinha ainda tendem a representar uma sociedade que caberia inteira na zona sul carioca ou nos jardins paulistanos, decorada à distância por bairros e corpos periféricos a serviço da turma perfumada do andar de cima. Um universo no qual os problemas do povo e suas lutas inexistem, a não ser como alegorias.

Vez por outra essa paisagem previsível e modorrenta sofre abalos, com um choque de realidade que nos pega de surpresa, embalado em uma narrativa cuja beleza essencial está nas entranhas de uma nação incapaz de se libertar da escravidão, do colonialismo e da marginalidade social. Isso é o que nos oferece a série “Segunda Chamada”, exibida pela Globoplay. A primeira temporada foi lançada em 2019, com doze episódios. A segunda, em seis capítulos, acabou de entrar no ar.

O cenário principal, quase exclusivo, é um colégio da periferia de São Paulo, a Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, uma homenagem à escritora negra, que oferece curso para jovens e adultos no período noturno. Mesmo nos ambientes secundários, como as residências de alguns alunos ou professores, há apenas casas em favelas ou modestos apartamentos de classe média baixa. A vida como ela é, ensinava Nelson Rodrigues, sem a anestesia de imagens deslumbrantes.

O enredo se desenvolve a partir da relação entre estudantes das classes trabalhadoras, lutando por uma chance para melhorar de vida, e mestres que se entregam até o limite de suas forças para ensiná-los. Antes que alguém pense se tratar de um revival de realismo socialista, vale o registro de que os personagens são cheios de história, com contradições e mistérios, sofrimentos e desejos. Tampouco há heróis ou vilões, ao menos não em um sentido épico, apenas gente comum que constitui a síntese entre uma narrativa coletiva e indivíduos ordinários, por isso mesmo espetaculares.

As vicissitudes particulares, complexas e bem elaboradas, no entanto, são complementares a uma saga classista, no território do direito à educação. Uma inversão da dinâmica de nossa tradição novelesca, com as aventuras pessoais ocupando o palco central, como se nada mais existisse, ou quase isso. “Segunda Chamada”, em boa medida, apresenta uma audácia superior às celebradas séries escolares “Merlí”, de produção catalã, e “Rita”, dinamarquesa. Ambas recorrem ao protagonismo dos professores cujos nomes lhes dão título, ao redor dos quais se desenrolam as tramas em salas de aula. Vamos combinar que é uma fórmula mais simples do que a da série brasileira, na qual existe uma multidão de protagonistas.

Nem todos os personagens tem o mesmo peso, é claro, mas o arco narrativo é determinado por um movimento de inclusão, agregando múltiplas trajetórias pessoais à desgraça e à luta de todos. Na primeira temporada, os alunos são homens e mulheres dos setores mais precários do proletariado urbano, com uma representação realista e eficaz tanto de gênero e raça quanto de diversidade sexual e origem regional. Na segunda, a ousadia dá um salto ainda mais formidável, colocando o foco em um grupo de sem-teto, a franja mais marginalizada da sociedade.

Alguns poderão ver, aqui e ali, excessivo recurso a clichês. Seria impossível, com tantos personagens, que todos fossem desenhados a bico de pena. Nem parece que tenha sido essa a intenção. Aliás, até mesmo eventuais clichês ajudam a construir a densidade da vida normal, abjeta, ao qual o capitalismo brasileiro submete a imensa maioria de seus cidadãos, privados até da oportunidade básica de estudar.

A empreitada dramatúrgica, conduzida pela diretora artística Joana Jabace e seus colegas, somente poderia alcançar toda sua potência com a escalação de um elenco primoroso, mesclando atores e atrizes das mais variadas idades e experiências. Representar personagens corriqueiros exige, muitas vezes, talento superior ao que demanda a interpretação de papéis exóticos, sob o risco da simplicidade verter um sabor insosso.

Os destaques são vários, mas é impagável assistir José Dumont se desempenhando como o carroceiro Sílvio. Ou o veteraníssimo Moacyr Franco nos recordando o grande ator que é, no papel de Gilsinho. Ou Thalita Carauta, tão conhecida por sua presença cômica, exibindo robusto repertório dramático. O ponto mais alto, contudo, é a exuberante Débora Bloch, certamente a atriz mais completa de sua geração. Como a professora Lúcia, ela entrega ao público um personagem inesquecível, símbolo do que é o esforço desses profissionais que se dedicam, nas piores condições, à nobre e espinhosa atividade de ensinar.

A carpintaria técnica reforça a trama. Para além de cenários rústicos, desenfeitados, a trilha sonora foi bem escolhida, oferecendo como prato forte uma poderosa interpretação de Elza Soares para “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha. Outros ingredientes – como os figurinos – também nos levam para dentro da escola, concebidos com um naturalismo despretensioso que acompanha o compasso da interpretação e do enredo.

A espinha dorsal dessa obra, no entanto, é o roteiro assinado Carla Faour e Júlia Spadaccini. Fazia tempo que não surgia um texto tão original, acerca de tensões e conflitos sociais. Pequenas e vibrantes histórias se conectam a uma estrutura principal, entrando e saindo de cena. Os diálogos incorporam a coloquialidade periférica, misturando-a, em doses equilibradas, com uma linguagem mais formal. Juntam dor e inconformismo. Emocionam até que percebamos nossos olhos úmidos e o estômago doendo.

O fato é “Segunda Chamada” retira o povo da arquibancada para colocá-lo no jogo, na plenitude de seu dialeto, de sua tragédia e de sua ação. Não é pouca coisa em um país que rotineiramente é retratado a partir de paladinos e sicários da casa grande.

Breno Altman é jornalista e fundador do site Opera Mundi.

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