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Não é crime ser rico, o que é crime é ser pobre no Brasil

Crime é que haja ainda essa multidão de pobres que não conseguem sobreviver ao mês, que estão empobrecendo a cada dia porque não há políticas para resgatá-los

Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto, em 5 de agosto.
Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto, em 5 de agosto.ADRIANO MACHADO (Reuters)
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Entre as bravatas que acostumou os brasileiros a ouvirem, o presidente Jair Bolsonaro disse na segunda-feira passada: “Alguns querem que eu taxe grandes fortunas. É um crime agora ser rico no Brasil?”. Sua ironia é mais uma de suas falácias para conquistar o apoio dos poderosos. Como resposta à sua ironia se poderia dizer que o crime não é ser rico, nem aqui nem em nenhum país do mundo, o que é de fato crime é que no Brasil, um país rico, ainda há pobres. Sim, ser pobre em um país rico, que é o segundo com a maior concentração de renda do mundo, um país em que 1% detém 28,3% da riqueza nacional, segundo a ONU, isso, sim, é um crime e um pecado.

Não sou economista e não vou discutir se a forma de ampliar a justiça social é taxar as grandes fortunas, algo que a esquerda também não quis fazer isso. O que eu acredito, sim, é que um Governo que busque o bem-estar da população tem o dever de encontrar meios para que os detentores de grandes fortunas paguem proporcionalmente pelo que ganham e possuem.

O que é injusto é que enquanto se permite que as grandes fortunas não paguem proporcionalmente à sua riqueza, morram afogados os pobres, que são de fato os que mais pagam impostos. Para esses pobres, o que pagam em impostos indiretos é de forma proporcional infinitamente maior do que pagam os grandes milionários. Estes últimos possuem mecanismos para esconder suas fortunas fora do país ou em paraísos fiscais, enquanto os pobres que vão ao mercado para fazer as compras são obrigados a pagar imposto por cada quilo de arroz ou feião que compram.

Não, não é crime ser milionário se isso for fruto de inteligência e capacidade empresarial, mas é crime que haja tantos milhões de pobres e até famintos em um país que tantos invejam por suas riquezas naturais e potencial turístico ainda inexplorado porque os estrangeiros se assustam com os índices de violência que açoitam o país e porque viajar pelo Brasil hoje é um luxo pelos altos preços que isso acarreta.

E assim como não é crime ser milionário, tampouco é crime pertencer à classe média, uma das categorias que sustenta o país com o seu trabalho. É essa classe média hoje a mais sacrificada junto com os mais pobres. É a classe que não pode deixar de pagar impostos desproporcionais se comparados com os das grandes fortunas.

Agora que o Governo se prepara para fazer a reforma tributária, o que não deveria acontecer é que mais uma vez essa tal reforma continue protegendo os mais ricos e penalizando não só os mais pobres, como também toda a classe média, que é o que parece entender Bolsonaro quando faz ironia ao dizer que agora ser rico no Brasil vai ser um crime. Crime é que haja ainda essa multidão de pobres que não conseguem sobreviver ao mês, que estão empobrecendo a cada dia porque não há políticas para resgatá-los das acusações de que são pobres porque são incapazes de criar riqueza, como se não lhes bastassem todas as suas forças para conseguir sobreviver a cada mês, e tudo o que pedem é poder ter trabalho.

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Seria preciso analisar melhor o que pensam em seu íntimo esses milhões de pobres, que sofrem por não encontrar trabalho ou moradia digna, ao ver quem deveria zelar por eles se enriquecendo com a corrupção, que nada mais é do que roubar dos pobres o pouco que é oferecido a eles. A corrupção enriquece os mais poderosos ao mesmo tempo em que empobrece os mais pobres, aos quais são negados os serviços sociais mais essenciais para uma vida digna.

Não, essa ironia bolsonarista de que agora no Brasil ser rico vai ser crime, quando o crime é que hoje exista sequer um pobre ou uma criança que passe fome, é uma blasfêmia para quem tem como lema “Deus acima de tudo”. Não, o Deus de Bolsonaro e suas hostes certamente não é o dos pobres, que em todas as religiões são vistos como os mais dignos de compaixão e respeito.

De alguma forma, não é estranho que Bolsonaro se preocupe em proteger os mais poderosos e que se queixe de que possam ser vistos como criminosos. Para ele, a corrupção, que em sua campanha tinha prometido combater, não entra em suas preocupações e até é uma ameaça à sua própria família com processos judiciais. Como também não se preocupou que a pandemia acabasse com a vida dos mais fracos, dos mais pobres, ou seja, dos negros, dos idosos, dos doentes crônicos. Para ele, toda essa caravana não produz riqueza, só consome e é um estorvo em uma sociedade que deve privilegiar os mais fortes, os atletas como ele e seus filhos, no melhor estilo nazista.

Se não constitui crime ser rico, é crime permitir, sendo presidente, que o país empobreça a cada dia, que cresça o crime da desigualdade injusta, que falte trabalho, que a base da pirâmide constituída pelos mais pobres continue se alargando, enquanto a riqueza se concentra cada vez mais nas mãos de poucos.

Logo depois que foi eleito presidente, Bolsonaro afirmou sem sentir vergonha que no Brasil “não havia mais fome”. Era mentira. O que é verdade hoje, e comprovada científica e estatisticamente, é que a pobreza e a fome se multiplicaram durante eu mandato de uma forma que ofende e humilha até os mais insensíveis à dor alheia.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como Madalena, Jesus esse Grande Desconhecido, José Saramago: o Amor Possível, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

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