Pandemia de coronavírus

Obstinado em permanecer ministro, Queiroga expõe na CPI as barreiras impostas por Bolsonaro no combate à pandemia

Pela primeira vez, titular da Saúde diz que cloroquina não funciona no tratamento de covid-19, mas que não é “censor” do presidente

O ministro Marcelo Queiroga durante depoimento na CPI da Pandemia, nesta terça-feira.
O ministro Marcelo Queiroga durante depoimento na CPI da Pandemia, nesta terça-feira.ADRIANO MACHADO / Reuters

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O segundo depoimento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, quase nada acrescentou à produção de novas provas para a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia. Mas serviu para explicitar que ele está diante de uma missão impossível: defender a ciência e os protocolos mundiais de combate à pandemia não podendo desagradar o seu chefe, um presidente negacionista. Desta maneira, Queiroga tentou de novo blindar Jair Bolsonaro, obstinado em se manter no cargo quanto tempo puder. O ministro deixou claro que compreende que a cloroquina é ineficaz no tratamento da covid-19 e que o uso de máscara e o distanciamento social são medidas necessárias para a redução da mortalidade e da contaminação, mas não pode criticar Bolsonaro nem tampouco remover orientações do próprio ministério que indicavam o uso desse remédio. “Para mim não há evidência comprovada da eficácia desses medicamentos”, disse na CPI, ao longo de quase sete horas de inquirição.

Queiroga é o quarto ministro durante a pandemia de covid-19. E acaba seguindo um roteiro já esperado de seus antecessores, se deparar com a autonomia limitadíssima do ministério no atual Governo. Em um momento do depoimento, afirmou que todos os brasileiros deveriam seguir as medidas de restrição sanitárias. “As recomendações são para todos os brasileiros, sem exceção. O cuidado é individual, o benefício é de todos”, disse Queiroga. Indagado se a exceção seria apenas Bolsonaro, o ministro afirmou que levou suas considerações ao presidente, mas que não iria avaliar a sua conduta. “Eu sou ministro da Saúde, não sou censor dele. O presidente da República não é julgado pelo ministro da Saúde”, declarou.

Em mais de uma ocasião, disse que não faria “juízo de valor” sobre as atitudes do presidente. Desde o início da pandemia, o mandatário tem promovido aglomerações em série. Um levantamento publicado pelo jornal O Globo mostra que, desde março do ano passado, Bolsonaro promoveu ao menos 84 eventos com aglomerações de pessoas e usou máscara em apenas três dessas atividades contraindicadas pelas autoridades sanitárias. Em maio, o EL PAÍS revelou que Bolsonaro havia intensificado suas viagens desde que a CPI passou a seguir em seu encalço.

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“Não me compete julgar os atos do presidente da República”, disse Queiroga. “É um ato individual. As imagens, elas falam por si sós”, completou Queiroga em seguida. “Essa fala mostra um conflito que o ministro vive”, avaliou o vice-presidente da CPI e senador opositor, Randolfe Rodrigues. O mesmo sentimento foi externado pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL). “Queiroga é como um João Bobo: vai pra um lado, vai pra o outro. Entrega os anéis para não perder o cargo”.

Ao longo da tarde, o ministro ainda teve de assumir a responsabilidade pela não nomeação da infectologista Luana Araújo para a secretaria extraordinária de combate à pandemia do Ministério da Saúde e bancar a permanência de Mayra Pinheiro Aguiar na secretaria de trabalho. Araújo é uma profissional anticloroquina e, por esta razão, foi atacada nas redes sociais de militantes bolsonaristas. Pinheiro, pelo contrário, é apelidada de capitã cloroquina e foi a responsável pela implantação do aplicativo Tratecov, que orientava os médicos a prescreverem este medicamento para todos os pacientes que apresentassem sintomas de coronavírus. Na sessão, Queiroga admitiu que não há um infectologista em sua equipe no ministério, mas ficou de enviar à comissão uma lista completa das especialidades na cúpula da pasta. O Programa Nacional de Imunização é comandado por uma enfermeira infectologista e há dois consultores do ministério que também são da mesma especialidade.

O ministro, por fim, tem de se mostrar razoável, sem atacar o presidente. “A maior oportunidade da minha vida quem me deu foi o presidente Bolsonaro: enfrentar esta pandemia (...) Eu não me sinto frustrado em nada, eu me sinto muito confiante de que nós vamos vencer esta pandemia”, disse ao ser questionado se sentia frustrado de dizer uma coisa e ver o presidente fazendo outra.

O discurso de Queiroga rachou até a base governista. Defensor ferrenho da cloroquina, Luiz Carlos Heinze (PP-RS) afirmou que discordava da fala do ministro contra esse medicamento. “Não podemos desqualificar centenas e milhares de médicos brasileiros que adotaram esse procedimento”, afirmou. Já Eduardo Girão (Podemos-CE) disse que o presidente colocava Queiroga em uma saia justa. “É óbvio que eu vejo o senhor [Queiroga] numa saia justa muito grande aqui. O presidente da República dá motivos para isso quando causa aglomeração, quando não usa máscara. Nós estamos numa guerra e, numa guerra, todas as armas precisam ser usadas, e o líder máximo tinha que dar esse exemplo.”

O ministro ainda defendeu a realização da Copa América no Brasil e disse que Bolsonaro pediu que ele analisasse o protocolo das confederações sul-americana e brasileira de futebol para decidir se aceitaria ou não sediar o torneio. Queiroga deu o seu aval ao protocolo e o presidente concordou em receber o campeonato, que receberá cerca de 650 atletas e comissões técnicas de outros nove países, além de 2.000 jornalistas a partir do próximo dia 13 de junho. “Se ocorrer essa Copa América vai piorar o cenário sanitário do Brasil? Essa é a pergunta que deve ser feita. No meu entendimento, se cumprir os protocolos de segurança, não”, ponderou o ministro.

Vacinas perto da data de validade

Desde que chegou ao ministério, Queiroga colocou como sua meta aumentar a compra de vacinas. Nos 77 dias de sua gestão, o Brasil fechou o contrato de 100 milhões de novas doses, todas da Pfizer, e assinou o contrato para a transferência de tecnologia da AstraZeneca para que a vacina seja inteiramente produzida no país. Ao todo, o Brasil tem contratadas cerca de 600 milhões de doses.

No entanto, o ministro não conseguiu até o momento definir uma meta detalhada mensal da vacinação. Entre julho e agosto, por exemplo, não há a previsão de chegada de novas vacinas. O plano nacional de imunizações elaborado pelo Ministério da Saúde prevê a vacinação de 78 milhões de pessoas durante o ano. Mas os discursos de Queiroga e de Bolsonaro são de que até dezembro todos os brasileiros com mais de 18 anos de idade estarão imunizados. Ou seja, seriam 160 milhões de pessoas. A conta não fecha.

À CPI, o ministro da Saúde também confirmou que as primeiras 3 milhões de doses da vacina da Janssen, adquiridas da farmacêutica da Johnson & Johnson, chegarão ao Brasil perto do prazo de validade. Queiroga ratificou informação publicada pela Folha de S. Paulo segundo a qual o prazo para utilização do imunizante é até 27 de junho. O ministro disse que já está coordenado com Estados e municípios a aplicação rápida, mas não esclareceu porque esse prazo tão exíguo foi aceito.

Algo que já está no radar do ministério é a necessidade de se adquirir mais doses para 2022, quando provavelmente será preciso aplicar uma dose de reforço em todos os imunizados. Segundo Queiroga, 100 milhões de doses devem ser adquiridas da farmacêutica Moderna e há conversas para comprar mais 30 milhões do Instituto Butantan, neste caso, não está definido se a compra seria da coronavac, produzida em parceria com uma empresa chinesa, ou a butanvac, que é 100% nacional e está em fase de testes.

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