Cercado pela CPI, Bolsonaro intensifica ritmo de viagens para atacar opositores

Presidente fez uma viagem a cada três dias desde o início da comissão no Senado. No início do ano, era de uma a cada seis dias. Ministro do STF autoriza Pazuello a se manter calado em depoimento

O presidente Jair Bolsonaro tira fotos com apoiadores em Terenos (MS), durante evento no dia 14.
O presidente Jair Bolsonaro tira fotos com apoiadores em Terenos (MS), durante evento no dia 14.
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Em uma estratégia para tentar difundir seu discurso radical contra os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, o presidente Jair Bolsonaro intensificou seu ritmo de viagens pelo Brasil. Nos últimos 30 dias, quando as investigações no Senado entraram, de fato, no radar político do país, ele fez nove viagens para inaugurar obras, reunir-se com empresários e políticos e, em quase todos os casos, promover aglomerações sem usar máscara em meio à pandemia de coronavírus. Isso significa uma viagem a cada 3,3 dias.

Neste ano, Bolsonaro havia reduzido o seu ritmo de visitas aos municípios. Entre 1º de janeiro e 14 de abril, quando o Supremo Tribunal Federal referendou a decisão que determinou a abertura da CPI da Pandemia, o presidente fez 17 viagens, uma média de uma a cada seis dias. Nos seus dois primeiros anos de mandato, a média foi de uma a cada 3,6 dias, em 2019, e de uma a cada 3,5 dias, em 2020. Os dados foram levantados pelo EL PAÍS na agenda oficial do presidente, divulgada pelo Palácio do Planalto.

Com as visitas, o mandatário busca difundir inloco sua defesa, por meio de ataque aos opositores, em um momento em que sua situação política se complica e ele tem dificuldades em encontrar argumentos para rebater os fatos que vieram à tona nos últimos dias. Entre as evidências que tenta refutar criando factoides ou ofendendo adversários em suas redes sociais e nos discursos públicos está a inação do Governo na compra de vacinas, assim como da existência de um aconselhamento paralelo, para além dos técnicos do Ministério da Saúde, para a sua tomada de decisões no enfrentamento da crise da covid-19.

Alguns exemplos claros de que o presidente partiu para o ataque. Na sexta-feira, um dia após um executivo da Pfizer mostrar na CPI que o Governo ignorou cinco ofertas de vacinas em 2020, ele reclamou das apurações durante um discurso feito na cidade de Terenos (MS), onde esteve para entregar títulos rurais a assentados. “Agora se faz uma CPI em Brasília que não é para apurar propina, disto a imprensa está com saudade. Faz uma CPI com aquela composição que, puxa vida, para apurar omissões do Governo federal. Mas na hora de convocar governadores, ela é contra”, disse. Enquanto ele falava, parte do público gritava: “Renan lixo” e “Fora, Renan”. Era uma alusão a Renan Calheiros (MDB-AL), o senador que é o relator da comissão e tem sido o alvo principal das queixas dos governistas.

Na ocasião, Bolsonaro também criticou seu primeiro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), a quem chamou de “perneta”. Disse que “quebrou a cara” com ele, que antes de ser ministro foi deputado federal por Mato Grosso do Sul. “Ele é aquele do protocolo fica em casa. E só quando você está morrendo de falta de ar, você procura um hospital, para ser intubado”, discursou diante de aplausos de militantes.

Na quinta, o presidente foi inaugurar obras em Maceió (AL), que é a base eleitoral de Calheiros. Assim como o seu filho Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) fez no dia anterior, o presidente chamou o emedebista de “vagabundo”. “Sempre tem algum picareta, vagabundo, querendo atrapalhar. Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem no nosso país. É um crime o que vem acontecendo com essa CPI”, disse. Além de Maceió e Terenos, desde a abertura da CPI, o presidente viajou a São Paulo (duas vezes), Manaus (AM), Belém (PA), Feira de Santana (BA), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Velho (RO). Nesta última cidade, além de promover aglomerações pilotou uma moto sem usar capacete.

O presidente Bolsonaro e o empresário Luciano Hang durante inauguração de uma ponte sobre o Rio Madeira, no dia 7 de maio.
O presidente Bolsonaro e o empresário Luciano Hang durante inauguração de uma ponte sobre o Rio Madeira, no dia 7 de maio.Anderson Riedel/PR

Um dos objetivos do presidente é reverter a curva de apoio da população aos trabalhos da comissão e, consecutivamente, enfraquecer seus potenciais opositores em 2022, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana ilustra o desgaste bolsonarista: 82% da população apoiou a abertura da CPI e Lula venceria Bolsonaro em um eventual segundo turno em 2022, com 55% para o petista e 32% para o atual mandatário.

“Um bandido foi posto em liberdade, foi tornado elegível, no meu entender para ser presidente. Na fraude. Ele só ganha na fraude no ano que vem”, disparou Bolsonaro. Lula foi preso pela Operação Lava Jato em abril de 2018, seis meses antes da eleição vencida por Bolsonaro. Em novembro de 2019, ele foi solto. E em abril deste ano, teve suas condenações na operação anuladas, restabelecendo seus direitos políticos.

Se nos debates internos da comissão o presidente encontra dificuldades de sua base em defendê-lo, no Judiciário ele obteve uma vitória, ainda que parcial. Nesta sexta-feira, o ministro Ricardo Lewandowski, do mesmo STF que mandou abrir a CPI, decidiu que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello poderá ficar calado em seu depoimento do próximo dia 19, caso ele note que poderá produzir provas contra si mesmo. O magistrado atendeu a um pedido feito pela Advocacia-Geral da União. O general Pazuello, um dos depoimentos mais aguardados porque pode elucidar a demora do país na compra de vacinas e a implementação de um protocolo para uso de cloroquina, foi convocado como testemunha e não poderá mentir. Na mesma decisão, contudo, Lewandowski proibiu que ele falte com a verdade, por exemplo, quando questionado sobre atos de terceiros, o que incluiria o presidente Bolsonaro. “A ausência de seu depoimento ou sua recusa em responder as perguntas prejudicará sobremaneira a condução dos trabalhos da CPI da Pandemia”, afirmou Calheiros sobre a decisão.

Nas redes sociais, repercutiram falas de bolsonaristas que, no passado, chamaram de covardes ou bandidos os depoentes de CPIs que obtinham autorização judicial para ficarem calados. Em 2015, o deputado federal e hoje ministro da Secretaria-Geral, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), falou que uma testemunha que se calava em uma CPI tinha algo a esconder e “só bandido usa isso”. No ano seguinte, foi a vez do filho do presidente e deputado, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), chamar outra testemunha de covarde. Aqueles que antes eram os acusadores, agora estão ao lado de investigados pela CPI. O que não muda, apenas, é a estratégia de se criar espuma.

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