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Caso Pazuello evidencia plano bolsonarista de controle sobre os militares, central para a ultradireita

Ausência de punição do Exército ao general da ativa é prelúdio para 2022. Movimento não é isolado no Brasil. Na Europa, preocupa o avanço da estratégia de Orbán de uso das Forças Armadas da Hungria

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma cerimônia no Palácio do Planalto em 26 de maio de 2021.
O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma cerimônia no Palácio do Planalto em 26 de maio de 2021.UESLEI MARCELINO / Reuters

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Em sua primeira viagem aos EUA, no início de 2019, o presidente Jair Bolsonaro foi claro: antes de pensar em construir qualquer coisa, seu Governo teria como função destruir o que existia.

E assim ocorreu. Nos controles ambientais, no espaço de participação da sociedade civil, na autonomia das universidades, no financiamento de linhas de pesquisa, na diplomacia e em tantos outros setores.

O projeto do bolsonarismo, assim como em todo o movimento de extrema direita, é o de fazer o Estado sucumbir em suas estruturas e transformar instituições em braços de uma ideologia que perpetue um grupo no poder.

Agora, chegou o momento de ampliar essa destruição às Forças Armadas. A decisão dos militares de não punir o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, por sua participação em atos com o presidente Bolsonaro revela que esse processo está em andamento e que a desmoralização das regras de conduta dos militares é uma realidade.

Considerados inicialmente como o “colchão” que evitaria os fundamentalistas da ala mais radical do bolsonarismo de contaminar o Estado, os militares brasileiros hoje vivem uma situação de constrangimento.

Se toda e qualquer destruição do Estado pode ser considerada como alarmante para a sobrevivência da frágil democracia brasileira, uma transformação do papel das Forças Armadas pode ser decisiva se for consolidada.

Por isso, o “caso Pazuello” não pode ser nem minimizado e nem normalizado. Como um prefácio, ele poderia apontar caminhos de tensão para os próximos meses. Como um prelúdio, ele estabelece dúvidas sobre como alas armadas poderiam reagir em determinados resultados nas urnas no próximo ano.

De muitas formas, ele pode ser o prólogo da história da eleição de 2022.

Ao longo das últimas décadas, o envolvimento político de militares definiu destinos e governos no Brasil. Hoje, ela ganha um novo componente, inchado por uma ideologia que não vem apenas de uma base radical. Mas liderada por um presidente e aliados que tentam sequestrar, em diversas áreas, o próprio Estado.

Extrema direita se infiltra entre militares em democracias

A ameaça de cooptar os militares a esse movimento não é um caso isolado do Brasil. Ao longo dos últimos anos, grupos com ideologias de extrema direita em diversos países pelo mundo mergulharam em estratégias deliberadas de infiltrar seus pensamentos e seus homens nas Forças Armadas de seus respectivos países, inclusive em democracias consolidadas.

Neste ano, nos Estados Unidos, a invasão do Capitólio reabriu as investigações sobre a presença de supremacistas e extremistas entre os soldados do país. E a constatação foi de que o problema é real.

Já em 2020, uma pesquisa conduzida pelo Military Times revelou que um terço dos militares americanos presenciaram sinais de nacionalismo ou racismo ideológico entre as tropas.

Em 2016, um movimento de extrema direita no Reino Unido, o National Action, foi desmantelado depois da descoberta que seu objetivo era o de colocar seus homens dentro das Forças Armadas britânicas. Três anos depois, foi descoberto que soldados ingleses usavam fotos do então líder da oposição e considerado de esquerda, Jeremy Corbyn, como alvo para treinar tiro.

Na Alemanha, traumatizada por seu passado, o monitoramento é permanente. Mas, ainda assim, o que surpreende as autoridades é que o movimento de extrema direita nas casernas sobrevive.

Um verdadeiro terremoto ocorreu quando investigações revelaram a presença de soldados simpáticos à extrema direita no Kommando Spezialkräfte (KSK), um grupo de elite das Forças Armadas da Alemanha.

Na Holanda, entre 2014 e 2019, 21 investigações foram abertas sobre suspeitas de atividades da extrema direita dentro das Forças Armadas do país. Desde 2013, mais de 50 militares canadenses foram identificados como tendo conexões com esses movimentos.

Na França, cartas anônimas publicadas por soldados nos últimos meses questionando o presidente Emmanuel Macron foram aplaudidas por Marine Le Pen, a líder do movimento xenófobo e extremista.

O modelo Órban

Mas, entre as sociedades ocidentais, talvez seja na Hungria de Viktor Órban que o plano de usar as Forças Armadas para legitimar uma ideologia no poder esteja mais avançado.

Diante da covid-19, o primeiro-ministro ultraconservador colocou os militares no centro da resposta contra a pandemia. Hospitais passaram a ser administrados por generais, militares foram designados para áreas estratégicas e cidadãos passaram a ser informados, quase diariamente, por coletivas de imprensa concedidas por militares.

Na tentativa de lidar com o desemprego criado pela crise sanitária, Orban ainda propõe a criação de uma unidade de voluntários no exército para absorver 3.000 homens.

O processo vem acompanhado por novos investimentos. Para 2022, ele prevê 2,9 bilhões de euros para as Forças Armadas, um volume recorde de dinheiro.

Neste fim de semana, ao entregar o comando militar ao general Romulusz Ruszin-Szendi, Orban apontou que seu principal papel seria o de “integrar o exército à sociedade húngara”. Isso envolveria “ganhar dezenas de milhares de jovens” para defender o país.

Para seus críticos, a meta não é a de garantir a defesa do território ou assegurar a estabilidade. Mas consolidar Orban no poder. Por essa perspectiva, a militarização faz parte de uma estratégia para conter o vírus, mas também para enfraquecer a oposição, combater a imigração e o próprio espaço de atuação da sociedade civil.

Num momento de ameaça à estabilidade democrática e de um avanço de forças autoritárias, exemplos pelo mundo revelam que a busca pelo controle das Forças Armadas faz parte de uma estratégia ambiciosa.

O Estado, sequestrado, ganha uma dimensão de instrumento para perpetuar um grupo no poder.

Nos corredores do poder na Europa, na OTAN ou em centros de estudos, há um reconhecimento de que existe uma ofensiva neste sentido. E que as Forças Armadas fazem parte do trabalho minucioso de grupos radicais para romper com as garantias institucionais.

O antídoto a essa onda vem do fortalecimento de um controle democrático sobre as Forças Armadas. Isso, no caso europeu, não envolve apenas o Executivo. Mas um escrutínio permanente por parte do Legislativo e Judiciário, além de uma vigilante atuação dos auditores do Estado.

Sempre para garantir que os militares não sirvam nem a uma ideologia e nem a um partido político. Qualquer ação em outro sentido é uma ameaça real à democracia. Assim como foi a decisão do Exército brasileiro sobre Pazuello.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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