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Numa mochila ensanguentada no Jacarezinho, a aula de Brasil contemporâneo

Passamos décadas vendendo ao mundo a ilusão de uma história e a mentira de uma imagem de que somos um país pacífico, generoso, diverso e acolhedor

Garoto na porta de casa na favela do Jacarezinho, no Rio, onde ocorreu a chacina no último dia 6.
Garoto na porta de casa na favela do Jacarezinho, no Rio, onde ocorreu a chacina no último dia 6.Leonardo Carrato

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Eram todos bandidos. Foi assim que o vice-presidente Hamilton Mourão explicou a chacina no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, na operação policial mais letal da história da cidade. Se num primeiro momento o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos se pronunciou e emitiu uma nota de críticas ao ocorrido, o Governo logo fez questão de lembrar à pasta que o nome que ela traz —direitos humanos— era só uma fachada. A nota foi, misteriosamente, retirada do ar.

É imperativo combater o crime, assim como também imperativo lembrar que não há pena de morte prevista em lei para roubo, tráfico e mesmo assassinato. Mas, em enormes regiões do país, ela existe.

Naquele dia, quando a polícia entrou pelas ruelas da favela, não foram apenas os assassinatos que foram deixados como legado. Um foto me deu náusea. A imagem era de uma mochila de escola de uma garota de nove anos e que estava no local da chacina. Seus livros estavam ensanguentados, testemunhas da violência.

A foto, de autoria de Francisco Proner e publicada no The Washington Post, chegou a mim por uma professora e autora de livros didáticos, Cintia Nigro. “Foi uma lança no meu peito”, disse a educadora que faz parte daquelas pessoas que, na minha visão, constroem as gerações futuras e as próprias nações.

Pela foto, não há como saber exatamente quais eram os temas das lições. Mas o que fica claro naquelas páginas manchadas é que tinham se transformado numa aula de Brasil contemporâneo. Sem filtros e sem possibilidade de que fossem apagadas. Um Brasil da opressão.

Naquela favela e em tantas outras regiões do país, existem escolhas difíceis que diariamente são feitas: morrer de pandemia, de fome ou de bala. Ou dos três, um pouco por dia.

Aqueles que sobrevivem, descobrem que sonhos também são assassinados. Pela ausência do Estado, pelo controle do narcotráfico, pelas milícias. E pela aliança secreta entre todas essas forças.

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Passamos décadas vendendo ao mundo a ilusão de uma história e a mentira de uma imagem de que somos um país pacífico, generoso, diverso e acolhedor. De forma deliberada ou como autoproteção, escondemos um país de revoltas frequentes, racista e intolerante, do estupro diário de sonhos e de futuros adiados.

Espécie de historiadora da sensibilidade, a escritora Juliana Monteiro, em Roma, declarou em suas redes sociais: “Quem, com o coração no lugar certo, pode pensar em palmeiras e sabiás no Brasil de Bolsonaro?”

Para quem tem o coração no lugar certo, o sangue naquela mochila era da crueldade da história do Brasil contemporâneo.

Um país não nasce. Não é descoberto. Ele é construído por atos de sua história, por aqueles que naquele local vivem e por como a violências —todas elas— são normalizadas ou denunciadas.

Só quando entendermos que nossa história continua sendo diariamente escrita com marcas de violência —inclusive em livros didáticos— é que vamos criar condições para gritar pelas ruas, pelas tribunas de parlamentos, pelas manchetes de jornais e por corredores de escolas que esse destino é inaceitável.

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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