“Suspensão de repasse estrangeiro à Amazônia prejudica indígenas e ribeirinhos”

Virgilio Viana, da Fundação Amazônia Sustentável, que recebe recursos do Fundo Amazônia, diz que mecanismo valoriza "floresta em pé" e que maior parte da verba vai para programas governamentais, não ONGs

Um exemplo do trabalho voltado para a sustentabilidade com geração de renda desenvolvido pela fundação em conjunto com as comunidades locais envolve o manejo do pirarucu, peixe água doce conhecido como o gigante do rio Amazonas, ameaçado pela pesca predatória. “Conseguimos fazer com que os estoques do peixe se recuperassem, e como consequência deste manejo responsável houve um aumento da renda do produtor de 3,50 reais pra 7,20 o quilo do peixe”, explica. Em conversa com o EL PAÍS Viana comenta o suposto "complô" de ONGs para minar soberania brasileira na Amazônia, e afirma que a maior parte dos recursos do fundo vai para Estados e municípios (54%), e não para o terceiro setor.

Pergunta. Como recebeu a notícia da suspensão dos repasses da Alemanha e Noruega para o Fundo Amazônia?

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Resposta. É triste para a Amazônia, porque o Fundo Amazônia é o principal mecanismo de financiamento de ações voltadas para a valorização da floresta em pé e combate ao desmatamento.

P. Quem será prejudicado com isso?

R. Os principais prejudicados serão quatro segmentos da sociedade. Em primeiro lugar, as comunidades ribeirinhas e povos indígenas da região, que sofrem com violência a rural e conflitos fundiários. Em segundo, a população do Brasil inteiro, que depende das chuvas da Amazônia para abastecer a produção agropecuária e também para o abastecimento urbano. Em terceiro, a população da Amazônia, que como um todo eu sofre nesse período uma calamidade na saúde publica relacionada ao aumento da poluição do ar decorrente das queimadas. E em quarto lugar a economia nacional, porque os mercados vão dando sinais mais claros de que esse aumento do desmatamento fecha portas.

P. Por que essa suspensão dos recursos neste momento é tão grave?

R. O mais grave é que esse esvaziamento do Fundo Amazônia é porque isso ocorre em um momento em que o desmatamento está em tendência de crescimento, e a Amazônia está próxima do ponto de colapso ecológico. O termo em inglês é tipping point. Isso ocorrerá quando a floresta ressecar devido às queimadas e desmatamentos, e não conseguir mais se recuperar. Como consequência, ela fica mais vulnerável ao fogo, e isso vira bola de neve que fortalece o aquecimento global. Esse é o cenário que se avizinha, e que é uma calamidade para o Brasil e para o mundo. É péssimo para o clima do planeta.

P. Existe alguma estimativa de quando atingiremos esse “ponto de não retorno” para a floresta Amazônica?

R. Seguida a trajetória de aumento isso deve ocorrer nos próximos anos. Estamos à beira do abismo.

P. É possível que o Fundo Amazônia continue a funcionar nos patamares atuais sem o dinheiro estrangeiro?

R. Nós estamos aguardando que o Governo diga de onde irá tirar verba para o fundo. Ao dizer que não precisa destes recursos, esperamos que ele coloque recursos orçamentários para cobrir o buraco deixado pela comunidade internacional. Cerca de 99% dos recursos do fundo vem de fora. Dos quase 1,5 bilhão de dólares tem 4 milhões oriundos da Petrobras.

P. O presidente Jair Bolsonaro fala com frequência sobre um “complô” armado por ONGs e países estrangeiros para violar a soberania brasileira na Amazônia. Como você enxerga essas acusações?

R. Eu vejo essa questão de uma maneira objetiva. O Fundo Amazônia tem suas diretrizes definidas por um comitê composto 100% por instituições brasileiras. A seleção de projetos segue critérios técnicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e tem um corpo técnico de profissionais valorosos. No caso do Fundo Amazônia é muito claro que são brasileiros que definem a alocação dos recursos e critérios de avaliação. E vale dizer que são os órgãos de Governo que receberam a maior parte dos recurso do fundo Amazônia, e não as ONGs.

P. Recentemente produtores do sul do Pará anunciaram o “dia do fogo”, amparados, segundo palavras deles, pelas palavras do presidente Bolsonaro. Como você enxerga esse tipo de ação?

R. O “dia do fogo” é um dos problemas. Observamos o mapa das queimadas divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e elas estão aumentando cada vez mais. É algo que está documentado e comprovado: o aumento da queimada gera poluição, e a poluição aumenta a incidência de doenças cardiovasculares.