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Os voos de Paolo Guerrero, o herói corintiano em busca da consagração na Copa América

Maior goleador peruano persegue o título do continente como líder incontestável de sua seleção

Guerrero comemora seu gol contra a Bolívia, no Maracanã.
Guerrero comemora seu gol contra a Bolívia, no Maracanã.Getty Images

Uma nova partida entre Brasil e Peru decidirá a Copa América 2019 no próximo domingo. O primeiro duelo, que terminou 5 a 0 para os donos da casa, marcou o reencontro do atacante Paolo Guerrero com a Arena Corinthians, onde foi ídolo do clube mais popular de São Paulo. “Tenho um carinho enorme pela torcida corintiana”, afirma o artilheiro peruano, autor de um dos gols de sua seleção na vitória sobre o Chile na semifinal. A relação com os corintianos, entretanto, ficou estremecida desde sua negociação para o Flamengo, em 2015, depois de ele prometer jogar apenas num clube – o do Parque São Jorge – no Brasil. Hoje, ele defende o Internacional, mas ainda conserva na memória de muitos torcedores alvinegros a lembrança de um título inédito, em que precisou superar um trauma de infância para marcar o gol mais emblemático de sua carreira.

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Em 8 de dezembro de 1987, Guerrero tinha apenas 3 anos quando o tio materno Caico Gonzales, goleiro do Alianza Lima, morreu após a queda de um Fokker com a delegação do time a bordo. Nenhum jogador do Alianza sobreviveu ao desastre. “Por causa do acidente que matou meu tio, eu sempre tive medo de voar”, conta. No Hamburgo, da Alemanha, sua carreira esteve por um fio. Um defeito no sistema hidráulico forçou o avião da equipe a fazer um pouso de emergência em Paris, em 2010. No mesmo ano, o atacante, que visitava a família no Peru, abortou quatro tentativas de voltar para a Europa por causa do trauma. “Eu tinha uma dor na barriga que não me deixava viajar tranquilo.”

Além das crises de ansiedade e gastrite que o atacavam em alguns voos, o peruano sofreu sequelas incomuns. Em 2011, desembarcou da aeronave com uma lesão muscular, tamanha a tensão durante a viagem do Hamburgo à Suíça. No começo da carreira, que por pouco não terminou no aeroporto de Lima, era pior. “Aos 16 anos, eu tive que viajar para outra cidade do Peru e não queria subir no avião”, afirma, descrevendo a sensação da primeira experiência. “Fiquei apavorado na decolagem. Foi uma hora e meia de terror para mim.”

Depois de fazer terapia na Alemanha, Guerrero passou a controlar melhor o temor, o que não o impediu de viver apuros durante a passagem pelo Corinthians. A viagem para o Mundial de Clubes do Japão, em 2012, foi angustiante para o peruano. No trecho entre Dubai e Tóquio, uma das portas do avião se abriu no meio do voo. “Todo mundo ficou assustado. Eu, mais ainda.” Antes de se tornar herói no Mundial, também precisou superar, com infiltrações e sacrifício, uma lesão no joelho direito. Sentia muitas dores quando marcou o gol contra o Al Ahly, do Egito, que levou o Corinthians à decisão diante do Chelsea. “Se tivesse de estourar o joelho para jogar a final, eu não me importaria”, diz.

Aproveitando a sobra do chute de Danilo, aos 23 minutos do segundo tempo, Guerrero fez a fiel torcida explodir no estádio de Yokohama. Era a confirmação de um presságio. “Sonhei que seríamos campeões e que eu marcaria. No meu sonho, o gol saía numa jogada aérea. Quando o Danilo armou para chutar, eu continuei olhando fixamente para a bola, esperando o desfecho do lance. E aí veio o rebote em minha cabeça.”

Recorde, idolatria e cavalos

Guerrero é o maior artilheiro da história do Peru. Em 2016, ele superou a lenda Teófilo Cubillas e, com o tento marcado diante do Chile, chegou a 39 gols pela seleção. Já foi artilheiro de duas edições da Copa América, em 2011 e 2015. Na primeira, os peruanos terminaram em terceiro lugar. Após a boa campanha, sua mãe mal podia caminhar pelas ruas de Lima. Ao reconhecê-la, torcedores gritavam de longe: “Senhora, por favor, tenha outro filho!” Em seu país, o atacante é um popstar. Estrela de comerciais de TV, tem cinco patrocinadores e é agenciado por uma produtora de artistas e celebridades.

O goleador corintiano é filho único do casal Petrolina Gonzales e José Guerrero, que se separaram ainda em seus primeiros anos de vida. Tem três irmãos por parte de pai e outros três da linhagem da mãe, que, seguindo a vocação do tio, também jogaram no Alianza Lima. Do pai, um ex-toureiro, Paolo herdou a paixão por animais, sobretudo os cavalos de corrida. Era José quem o levava ao clube de jóquei para fazer apostas depois dos treinos. Na época, a família não tinha dinheiro para criar cavalos. Já como astro na Alemanha, Guerrero arrematou Dilange e Cubage, os primeiros puros-sangues de sua coleção, que chegou a contar com 20 exemplares.

Um dos criadores mais bem sucedidos do hipódromo de Monterrico, em Lima, o atacante já viu seus cavalos empilharem troféus no Derby nacional. O alazão Elbchaussee foi considerado por dois anos consecutivos o melhor animal de corrida do país. Guerrero leva a sério o hobby, já que uma vitória no Derby, por exemplo, pode render até 250.000 reais ao proprietário do campeão. Depois que foi contratado pelo Flamengo, começou a arrematar cavalos no Brasil, onde já obteve bons resultados em corridas tradicionais do turfe.

A conexão do peruano com o país vai além do futebol e dos cavalos. Ainda criança, ele deu os primeiros chutes em uma bola na avenida Brasil, em Chorrillos, bairro da periferia de Lima. Fã de Ronaldo Fenômeno, não imaginava que um dia vestiria a camisa 9 que pertenceu ao ídolo no Corinthians. Contratado pelo time paulista em 2012, Guerrero preencheu a lacuna do centroavante que tanto incomodava o técnico Tite, que hoje comanda a seleção. “Guerrero vai dentro dos caras. É um dos atletas que mais rouba bolas no ataque”, se orgulhava o treinador na época em que trabalhavam juntos.

No ano passado, Guerrero realizou o maior sonho de sua carreira, que era levar o Peru de volta a uma Copa do Mundo – o país não se classificava para o torneio desde 1982, quando Guerrero ainda nem havia nascido. Cumpriu longa suspensão por doping, em que se diz injustiçado por ter ingerido, segundo sua defesa, substância de cocaína de forma acidental ao tomar um chá. Agora, sonha coroar sua trajetória com um troféu de Copa América, que os peruanos estão sem levantar há mais de 40 anos. “Nos preparamos para brigar pelo título”, afirma o capitão do Peru.

Por coincidência, o voo alto com sua seleção fez escala na Arena Corinthians, onde marcou 15 dos 54 gols com a camisa alvinegra. Apesar da saída conturbada do clube e de agora ser adversário do Brasil, espera uma recepção carinhosa em outra antiga casa, o Maracanã. Contudo, pelos títulos que conquistou e pela identificação com a torcida, guarda um carinho especial pelo reduto onde realizou seu primeiro pouso em terras brasileiras. “Eu sou meio louco, assim como os corintianos.”

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