Sinalizadores, a cruzada das torcidas pela liberação da festa nos estádios

“Desejo de transformar a arquibancada em festa” é o que motiva organizadas Gaviões da Fiel é uma das que resistem contra a proibição de artefatos luminosos

Torcida do Flamengo usa sinalizadores na final da Copa Sul-Americana.
Torcida do Flamengo usa sinalizadores na final da Copa Sul-Americana.Silvia Izquierdo (AP)

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Aos 40 minutos do segundo tempo, Jadson recebe a bola na área e, depois de ajeitar para o pé direito, acerta o canto do goleiro Diego Cavalieri. O gol é o terceiro do Corinthians contra o Fluminense, pela 35ª rodada do Campeonato Brasileiro, no último dia 15 de novembro, e responsável por sacramentar o sétimo título nacional conquistado pelos corintianos. O que se viu após o gol de Jadson foi uma grande comemoração, com sinalizadores por toda a Arena Corinthians, que paralisaram a partida por mais de seis minutos. A fumaça dos artifícios conferiu ao estádio de Itaquera uma atmosfera típica dos caldeirões espalhados pela América do Sul, algo que poderia ser mais comum nos estádios brasileiros. No entanto, a realidade aqui é outra: os torcedores enfrentam barreiras quando tentam iluminar as arquibancadas e os clubes podem sofrer punições por não reprimi-los, já que os sinalizadores são proibidos.

Principal responsável pela festa na arena corintiana, a Gaviões da Fiel, torcida organizada alvinegra, surge também como símbolo de resistência em defesa dos sinalizadores. Os Gaviões, entretanto, não estão autorizados a entrar nos jogos. “Não temos autorização por conta de um processo que corre no Rio de Janeiro e porque fomos contra o documento apresentado às torcidas organizadas”, explica Rodrigo Fonseca, porta-voz e presidente da torcida. O documento ao qual ele se refere é um acordo elaborado pela Polícia Militar, em conjunto com o Ministério Público do Estado de São Paulo, o Poder Judiciário e a Federação Paulista de Futebol (FPF), e levado às torcidas organizadas paulistas que, entre outras questões, exige o cadastramento de membros desses grupos, mas proíbe os sinalizadores e a torcida visitante em clássicos. “Criaram algo sem ouvir nossas propostas”, diz Fonseca. “Infelizmente, todas as torcidas que assinaram o documento [entre elas, Independente e Mancha Verde] se renderam ao sistema”. Falando especificamente da comemoração contra o Fluminense, o presidente ressalta que não foi algo orquestrado pela Gaviões: “Não houve planejamento. Isso partiu dos torcedores que frequentam os estádios e que compartilham do mesmo desejo de transformar as arquibancadas em festa”.

Rodrigo Fonseca ainda comenta que a resistência em defesa do espetáculo na Arena Corinthians é algo intrínseco à torcida. “Nascemos para fazer a festa nas arquibancadas, apoiar e vibrar durante os 90 minutos de jogo e, por esse motivo, lutaremos até o fim”. Entretanto, a esperança depende da sensibilização de órgãos responsáveis pela organização dos jogos. “Para vencer essa luta, será preciso mudar o pensamento daqueles que têm o poder em mãos, para que estejam abertos a dialogar e negociar melhorias em conjunto”. E completa: “Falta uma fiscalização maior por parte das autoridades para resolver os problemas que acontecem dentro e fora dos estádios”. A revista, procedimento na entrada do estádio para barrar objetos como os sinalizadores, é realizada pela PM, e não pelo clube. A punição por uso do iluminador, no entanto, é aplicada somente às equipes. O Corinthians já foi multado mais de uma vez neste ano, além de ter o setor destinado à torcida organizada interditado. Recentemente, o Flamengo foi denunciado pelo tribunal disciplinar da Conmebol pelo uso do artifício em sua torcida durante a final da Copa Sul-Americana, contra o Independiente.

Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista de Futebol, concorda com a necessidade do diálogo, mas faz ressalvas. “Em jogos da FPF, nós não mandamos mais paralisar por conta de sinalizador. Agora, se a fumaça tampa tudo, falta bom senso. Não dá para reclamar se eles mesmos acendem os sinalizadores”. O presidente, no entanto, reforça que a federação não tem envolvimento no assunto. “A Polícia Militar diz que isso cria problemas com relação à segurança do estádio. A FPF respeita as normas de segurança, mas ela é a favor de que se respeite a festa no estádio. Precisa ser o conjunto da obra em acordo”.

Corintianos acendem os sinalizadores no jogo contra o Nacional, pela Libertadores de 2016.
Corintianos acendem os sinalizadores no jogo contra o Nacional, pela Libertadores de 2016.Friedemann Vogel (Getty Images)

Quando consultado a respeito do tipo de problemas de segurança que o sinalizador pode causar nas arquibancadas, o 2º Batalhão de Choque da PM, responsável pela segurança nos eventos, cita o parágrafo sétimo do artigo 13-A do Estatuto do Torcedor, de 15 de maio de 2003, que diz “são condições de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo (...) não portar ou utilizar fogos de artifício ou quaisquer outros engenhos pirotécnicos”. “Como verificado, a utilização de sinalizadores nos estádios possui proibição legal”, comenta a Polícia Militar. “Além disso, tais materiais podem causar sérios danos às pessoas, desde eventuais incêndios, ou mesmo lesão à integridade física como queimaduras ou intoxicações”.

O caso Kevin Espada

Evento que até hoje serve como base para a proibição de sinalizadores e outros itens pirotécnicos nos estádios, a morte do garoto boliviano de 14 anos, Kevin Espada, aconteceu há mais de quatro anos. No dia 19 de fevereiro de 2013, durante a partida San José x Corinthians, pela fase de grupos da Libertadores, em Oruro, Bolívia, o menino que acompanhava seu time de coração foi alvo de um foguete sinalizador, disparado da torcida brasileira. Atingido no olho, Kevin morreu instantaneamente. Doze corintianos ficaram presos na Bolívia por meses, sem ter a participação comprovada no assassinato. O autor do disparo já tinha voltado ao Brasil e assumiu a culpa enquanto os torcedores ainda estavam presos.

Apesar da grande repercussão pela morte, o episódio tem algumas diferenças fundamentais quando comparado ao uso de sinalizadores comuns pelas torcidas de futebol. O sinalizador que matou Kevin Espada é dez vezes mais potente que um “normal” e serve para utilização em navios; seu projétil alcança até 300 metros de distância com o impulso. O artifício considerado comum, proibido nos estádios brasileiros, não solta nenhum foguete – apenas emite luz e fumaça.

Não à toa, a pirotecnia é liberada na maioria dos grandes centros de futebol pelo mundo. Nas barras argentinas e uruguaias, na Muralha Amarela, do alemão Borussia Dortmund, no leste europeu e até nas torcidas da norte-americana MLS (Major League Soccer) torcedores acendem seus sinalizadores sem que haja qualquer punição. No Brasil, qualquer sinal de fumaça vindo da arquibancada é motivo para que o jogo seja paralisado pelo árbitro e a torcida ao menos notificada. Resistir à proibição, burlando as revistas na entrada dos estádios e acendendo os sinalizadores durante os jogos, é a forma de protesto encontrada pelas torcidas.

Em Bangu, luzes a brilhar

Torcida do Bangu festeja com sinalizadores em Moça Bonita.
Torcida do Bangu festeja com sinalizadores em Moça Bonita.Divulgação

Não é somente nos grandes palcos do futebol brasileiro que há militância pela liberação dos sinalizadores. A Castores da Guilherme, torcida do Bangu, no Rio de Janeiro, recorre a pirotecnia, bandeiras e faixas para apoiar o clube no estádio Moça Bonita. Guilherme Travassos, integrante da torcida, explica sua origem: “Somos um movimento do bairro de Bangu. Hoje, a torcida cumpre um papel de resgatar as origens operárias do clube. Em 1933, na final do Carioca daquele ano, contra o Fluminense, no estádio das Laranjeiras, a torcida do Bangu protagonizou um enorme foguetório mesmo sendo visitante; na época, tal ato era incomum. Os torcedores dos clubes da zona Sul do Rio valorizavam um comportamento elitista e bem contido, enquanto os banguenses já eram muito festivos”. Como já diz o hino banguense: “O vermelho-sangue a brilhar/ E faz cartaz/ Estouram foguetes no ar”.

Travassos tem a mesma convicção da Gaviões a respeito da proibição de sinalizadores que vigora em território nacional. “As punições de sinalizadores no Brasil tem um caráter extremamente elitista”, diz. Para ele, resistir é um dever de todos os torcedores organizados. “Nós, da Castores, somos a favor do uso de pirotecnia, bandeiras e faixas para apoiar seu clube. Carregamos um legado histórico de uma torcida e um bairro muito festivo”, explica. No caso do Bangu, ele ainda comenta que a realidade só não é a mesma de grandes times nacionais porque o clube está fora da órbita de elitização do futebol brasileiro. “O Bangu não tem transmissão de televisão e seus jogos não são lucrativos, pois, se fossem, já teríamos uma arena no lugar de nosso tradicional estádio”.