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Um menu de luxo por trás das grades

Como funciona o restaurante The Clink, que fica dentro de presídios do Reino Unido e serve de escola para os detentos

Foto de um dos pratos servidos no The Clink, no Reino Unido.
Foto de um dos pratos servidos no The Clink, no Reino Unido.

Para entrar neste restaurante é preciso fazer a reserva com antecedência. Até aí, nada muito fora da normalidade. Mas ao chegar para jantar ou almoçar, deixa-se previamente todos os pertences dentro de um armário. Nada entra: bolsas, relógios, chaves, moedas, celular e até lenço de papel e caneta. As crianças também são proibidas. E é preciso responder a um breve questionário antes de entrar, informando número do documento, nome e data de nascimento. Por último, coloca-se um crachá com sua identificação.

Já finalmente em direção ao salão, um carcereiro destranca os três portões imensos até chegar em um pequeno local com poltronas de couro, copos de cristal —que não servem bebidas alcoólicas sob nenhuma hipótese— e mesas impecavelmente arrumadas com guardanapos de pano e talheres... de plástico. A vista da janela é formada por cercas de arame e, para ir ao banheiro é preciso permissão e alguém que abra a grande e pesada porta. Este é o The Clink, um restaurante dentro do presídio de Brixton, em Londres, cujos funcionários, de garçons ao chefe da cozinha, são todos detentos em formação profissional.

Construída em 1819, essa prisão pública é uma das mais antigas do Reino Unido. O restaurante, dirigido por uma entidade beneficente, foi inaugurado em 2014 e está presente em outro presídio do país, além deste. O objetivo maior do projeto é fazer com que os detentos saiam dali com uma formação profissional. Por isso, ao se formarem, recebem um certificado profissional reconhecido pelo mercado.

Fachada do The Clink, na prisão de Brixton, em Londres.
Fachada do The Clink, na prisão de Brixton, em Londres.

As peculiaridades do The Clink seguem cozinha adentro. Os detentos/alunos só podem usar facas sob monitoramento e não estão autorizados a receber gorjetas. O menu é relativamente enxuto para os moldes dos estabelecimentos brasileiros, mas oferece cinco opções de entradas, cinco de pratos principais e cinco de sobremesas. Há receitas com carne, frango, porco e também opções vegetarianas.

Sob o nome de cada prato do cardápio há uma pequena explicação do que aquela receita ensina aos alunos e de qual unidade prisional eles são. "Esse prato de inspiração indiana funciona bem para educar nossos estudantes sobre ingredientes à base de vegetais que eles aprenderão a preparar e a cozinhar nas unidades 226 e 233", diz a descrição do ragu apimentado de grão de bico, chips de aipo, creme fresco com cominho, cebola caramelizada e samosa. Deguste também com os olhos, já que as fotos não são permitidas.

A comida sofisticada tem valores similares aos cobrados em restaurantes do mesmo padrão pela capital inglesa, e salgados quando convertidos ao real. Uma entrada, que pode ser uma sopa do dia ou um tofu com páprica, ovos de codorna e creme de pimenta e agrião, por exemplo, custa entre 6 e 7,50 libras (entre 30 e 38 reais). Os pratos, como a costela de porco defumada com abobrinha, agnolotti com ricota e sálvia e molho Charcutière, variam entre 14 e 16,50 libras (de 71 a 84 reais) e as sobremesas, que podem ser frutas da estação com sorvete, por exemplo, custam de 6,80 a 8 libras (34 a 40 reais).

O presídio de Brixton fica a cerca de 40 minutos de ônibus da região mais turística de Londres, onde fica, por exemplo, a roda-gigante London Eye. Dos pesados portões para fora da prisão, o bairro é como outro qualquer: pessoas passeiam com carrinhos de bebês em frente a escolas de yoga, igrejas e supermercados. Não fossem os arames nos muros ou o guarda-volumes na entrada, talvez somente a faca de plástico te fizesse lembrar que, na verdade, você está dentro de um presídio.

A reportagem viajou a convite da Embaixada Britânica no Brasil.

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