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Bolsonaro abraça a ‘velha política’ em aceno a partidos por reforma da Previdência

Presidente recebe dirigentes de MDB, PP, DEM, PRB e PSD para pedir apoio à reforma da Previdência. Paulo Guedes confirma ida à comissão da Câmara

Jair Bolsonaro reforma da previdência
Bolsonaro, no memorial do holocausto, em Israel. AP

Assim que chegar a Brasília após sua viagem a Israel, o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que declara ser um representante da “nova política” cairá nos braços de quem ele sempre criticou, os representantes da “velha política”. Na quinta-feira, o mandatário se encontrará com dirigentes de cinco partidos que representam 166 deputados federais e 35 senadores. Tentará reverter as recorrentes críticas de que não está articulando junto ao Congresso Nacional e nem se empenhado em aprovar sua reforma da Previdência, que ainda está empacada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. É o primeiro aceno que o chefe do Executivo faz para legendas. Antes, dizia que só iria negociar com bancadas temáticas ou frentes parlamentares, como os ruralistas, os representantes da saúde ou os representantes da segurança pública.

Bolsonaro passará a manhã e a tarde em reuniões individuais com os presidentes do PRB, Marcos Pereira; PSD, Gilberto Kassab; PP, Ciro Nogueira; DEM, Antônio Carlos Magalhães Neto e; MDB, Romero Jucá – todos que já foram ou ainda são investigados em operações policiais, como a Lava Jato. Deverá pedir o empenho dessas legendas na aprovação das alterações na aposentadoria. Questionados pela reportagem, os dirigentes afirmaram que foram convidados para o encontro, que não sabem a pauta exata, mas estão dispostos a ouvir o que o Governo tem a dizer.

Nos últimos dias, as queixas contra a ausência do presidente na linha de frente das discussões só cresceram. Presidente do PRB, o deputado Marcos Pereira disse ao EL PAÍS que Bolsonaro não tem cumprido uma promessa feita aos deputados logo após ser eleito. “No período da transição ele disse que ia fortalecer o Parlamento, empoderando o parlamentar. Mas agora, vem com esse papinho de velha e nova política. Não existe isso. O que existe é a política”, afirmou Pereira, que lidera um partido com 31 deputados e que apoiou o presidente no segundo turno da eleição de 2018. Essa será a primeira vez que o representante do PRB se reúne com o presidente. O mesmo ocorre com os representantes dos outros quatro partidos.

Antes de Pereira, outros dois deputados do PP já haviam tecido duras críticas a Bolsonaro em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Arthur Lira, líder dos Progressistas, disse que os deputados não iriam aprovar tudo o que o presidente enviasse ao Congresso sem discussão ou negociação. “Não somos empregados do Governo”. O ex-ministro Aguinaldo Ribeiro, outro representante dessa legenda, que reúne 38 parlamentares, terceira maior bancada da Câmara ao lado do PR, disse que o debate sobre “nova política” se esgotou na campanha eleitoral.

Uma das reclamações dos parlamentares é que raramente os ministros de Bolsonaro recebem os congressistas ou pessoas indicadas por eles. A outra, mais recorrente, é a da ausência de nomeações por meio de indicações partidárias. “Eu particularmente não quero nenhum cargo. Mas tem deputado que quer. O que o Governo tem de fazer? Atender sua base”, afirmou Pereira. Na mesma linha, seguiu o líder do partido do presidente, o PSL, Delegado Waldir. “Não vejo problemas em ocupar cargos. É só seguir os critérios definidos pelo Governo”.

"No período da transição ele disse que ia fortalecer o Parlamento. Agora vem com esse papinho de velha e nova política", disse o deputado Marcos Pereira

Para tentar atender essa queixa, a líder do Governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), apresentou aos deputados uma planilha com cargos de terceiros e quartos escalões disponíveis. Ainda não foram definidos quem os ocupará.

Os encontros com os dirigentes partidários foram articulados pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM). A sugestão para que eles ocorressem foi feita pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Assim como Bolsonaro, os dois possuem mais de duas décadas de experiência política. Ao contrário dele, contudo, não se venderam como outsiders, apesar de defenderem o fim do toma-lá-dá-cá no trato com o Congresso.

Bolsonaro parece ter ouvido os conselhos. Em entrevista à Record TV na segunda-feira, disse que se dedicará mais a essa articulação. “Estou pronto ao diálogo, na medida do possível atendo parlamentares. Alguns acham que eu estou fazendo pouco. Vamos agora deixar pelo menos meio dia da minha agenda no Brasil para atender deputados e senadores”.

Um dia antes de Bolsonaro receber os presidentes de partidos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, participará de uma audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para falar sobre a sua proposta de reforma da Previdência. Será o primeiro passo efetivo do Governo na Casa. Na semana passada, ele chegou a agendar o encontro, mas desistiu de última hora por conta do clima desfavorável ao Governo, que ainda não possui uma base consolidada no Congresso e via uma oposição articulada para tentar constrangê-lo. Na terça-feira, Guedes se reuniu com 20 deputados federais e agendou a conversa com outros 20 para tratar da Previdência. Tornou-se uma espécie de articulador informal do Governo.

Em pouco mais de três meses de gestão, Bolsonaro enviou 16 projetos de lei para o Congresso. Não aprovou nenhum, conforme levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. Ainda viu a Câmara mandar duros recados ao aprovar uma proposta de emenda constitucional do Orçamento impositivo, uma espécie de pauta-bomba, e rejeitarem o decreto presidencial que afrouxava a lei da transparência ao aumentar o número de servidores autorizados a declarar sigilo sobre documentos.

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