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Desigualdade, vitalidade e decadência: o que aconteceu com o centro de SP

Urbanistas analisam processo histórico que fez com que, a partir de 1960, centro fosse esvaziado

Moradora da ocupação Prestes Maia, no centro de São Paulo, em 2016
Moradora da ocupação Prestes Maia, no centro de São Paulo, em 2016

Foram necessários apenas 50 anos para que o edifício em vidro e aço Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, fosse inaugurado, abandonado, ocupado e, por fim, desmoronasse depois de um incêndio de grandes proporções que matou ao menos duas pessoas e deixou dezenas de famílias desabrigadas na primeira semana de maio. O curto espaço de tempo entre o lançamento de um prédio considerado um marco arquitetônico e seu colapso envolto em uma nuvem de fogo e fumaça chama a atenção, principalmente porque a situação da edificação não é única na região. Afinal, o que aconteceu de 1968 para cá no centro da capital paulistana?

Talvez a primeira palavra que venha à cabeça para definir a região seja degradação. Mas, segundo o urbanista Vinicius Netto, ela não explica o estado das coisas. “Qual degradação? Estamos falando dos edifícios, dos usos que se faz do espaço ou das pessoas que passaram a usar o centro a partir da década de 1970?”, questiona. Segundo ele, não é possível misturar tudo em só um caldeirão e olhar de forma unidimensional. A tão falada degradação do centro de São Paulo, assim, é muitas vezes ilusória, porque confunde gente com edifícios e simplifica processos históricos multifacetados.

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Netto ressalta o dado de que, em 2015, 17,8% dos postos formais de trabalho do município de São Paulo estavam no centro, segundo levantamento do Governo do Estado, ficando atrás apenas da oferta das zonas sul e oeste, com 25% e 21%, respectivamente. A informação, defende o urbanista, serve para desmistificar a ideia de que há uma degradação generalizada do centro. “Ainda que a palavra ‘degradação’ se refira apenas às edificações, como no caso do Winston Paes, é preciso fazer um exercício de desvincular as pessoas que usam esses espaços do estado em que eles estão”, diz.

Contudo, o fato de que o centro físico de São Paulo deixou de ser o centro dos acontecimentos, em que a maior parte da população não apenas circulava ou ia trabalhar, mas se encontrava e desejava viver, é inegável. O que motivou isso é menos um evento isolado, como a construção ou demolição de uma via ou espaço simbólico, e mais a acumulação de diferentes processos e decisões. Entre os pesquisadores ouvidos pelo EL PAÍS é consenso que essa mudança, representada pelo deslocamento do centro financeiro da cidade para a região da Avenida Paulista, começou a ser sentida de forma mais intensa justamente na década de 1960.

Para o urbanista Guilherme Wisnik, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (FAU-USP), há um modelo de criação de novos centros que, guiado por uma lógica de mercado, vai buscando frentes imobiliárias, onde há terrenos mais baratos. “Essa situação de nenhum planejamento, apoiada pelo Estado, acabou fazendo com que locais do centro acabassem subutilizados, entrassem em crise e fossem abandonados”, diz. De forma geral, sem entrar em detalhes, é um pouco a história do Winston Paes e de outros edifícios da região. Os antigos locatários foram embora; os proprietários deixaram os locais vazios por diferentes motivos; o Estado não tomou nenhuma medida para impedir o abandono dessas estruturas que deveriam, de acordo com a Constituição, exercer uma “função social”, sendo produtivas ou habitáveis.

Por outro lado, se o comércio e o setor financeiro começaram a se deslocar nos anos 1960, o mesmo aconteceu com a elite que vivia em bairros centrais, como Campos Elíseos. Houve, a partir de então, um interesse e oferta crescente por moradias em áreas exclusivamente residenciais, numa busca por uma vida cotidiana mais bucólica. Em um processo que se assemelha muito à construção dos subúrbios norte-americanos, fugir do centro, do barulho e da intensa circulação de pessoas passou a ser um ideal amplamente explorado pelo mercado imobiliário, que já tinha atingido um teto de novos lançamentos – já que não havia mais lotes disponíveis para construção, o que representa, logo de saída, um custo alto para qualquer novo projeto.

Marcos do processo

Se o processo por qual passou o centro de São Paulo é cumulativo em termos físicos e gradual em temporais, a urbanista Regina Meyer, especialista em espaço público, e professora da FAU-USP, acredita que é possível apontar alguns marcos que explicam o estado das coisas hoje. Para ela, os motivos que resultaram na saída de determinados setores do centro físico de São Paulo é anterior à década de 1960 e remontam aos anos 1940, quando a Prefeitura começou a discutir a substituição do sistema de bondes, então principal meio de transporte de massa da cidade, pelos ônibus.

Cartão postal mostra o antigo Parque Dom Pedro II, hoje um terminal de ônibus, na década de 1950
Cartão postal mostra o antigo Parque Dom Pedro II, hoje um terminal de ônibus, na década de 1950

Para suprir os novos bairros que começavam a surgir, sobretudo na zona leste da cidade, a opção pela instalação de inúmeras linhas de ônibus se mostrou mais eficiente e barata para a Prefeitura do que os bondes. Em pouco mais de uma década, entre 1950 e 1960, ressalta Meyer, o sistema de bondes foi praticamente inteiro substituído. Assim, para a Prefeitura, era possível continuar a promover habitações em locais cada vez mais distantes, atendendo, ao mesmo tempo, o interesse de expansão do mercado imobiliário, em busca de novas frentes para explorar.

“O centro, adaptado ao sistema de bondes, que servia a uma área muito menor, teve de alojar um fluxo cada vez mais intenso de pessoas e de ônibus”, diz a urbanista. “A degradação física de praças e espaços abertos a partir disso foi intensa. Em pouco mais de dez anos, uma série de locais, como a praça da Bandeira, o parque Dom Pedro II e a praça Princesa Isabel, transformaram-se em verdadeiras praças-terminais”, completa. Muitos locais públicos do centro, assim, perdiam o caráter de serem pontos de encontro e passavam a ser locais de passagem.

Segundo a historiadora Deborah Neves, já a partir dos anos 1960, sob a Ditadura Militar, a ideia de que os espaços públicos deveriam promover encontros foi abandonada de vez. “São Paulo se transformou, em grande medida, na vitrine da tecnocracia militar, do Brasil grande, assim, algumas escolhas revestidas da ideia de progresso, mas que tornavam a cidade cada vez mais árida para a reunião de pessoas, foram tomadas”, diz. “Nada mais representativo do que os espaços públicos perderem sua importância, afinal, o AI-5, de 1968, proibia o agrupamento de pessoas”, completa.

Registro da construção do Minhocão, batizado de elevado Costa e Silva e hoje chamado João Goulart
Registro da construção do Minhocão, batizado de elevado Costa e Silva e hoje chamado João Goulart

Simbólico desse momento também, lembra Neves, é a construção do Minhocão, pista elevada de cerca de três quilômetros que acabou virando um símbolo da separação entre bairros ricos e bem urbanizados, como Higienópolis, e a decadência de antigos espaços centrais, como o já mencionado Campos Elísios. Além do elevado, a demolição do Parque Dom Pedro II, na década de 1970, é outro exemplo. Uma foto famosa do fotógrafo German Lorca mostra um homem caminhando tranquilamente no bucólico parque nos anos 1950. A imagem, desde a implantação do atual terminal viário, é impensável. O Dom Pedro II hoje, como define a urbanista Meyer, transformou-se em uma praça-terminal, deixando, por completo, a fotografia de Lorca no passado.

Para Meyer, o centro foi a principal vítima do abandono dos bondes, do crescimento desordenado da cidade e da opção pelos automóveis – segundo ela, entre 1956 e 1970, a quantidade de veículos motorizados aumentou 1000%. Em grande parte, o centrou se transformou num local por qual as pessoas deveriam passar para continuar o trajeto para seus trabalhos: no lugar de permanência, trânsito. Assim, pelas ruas centrais, explica Meyer, dois milhões de pessoas começaram a ser despejadas para poderem ir de uma zona a outra da cidade.

O então prefeito Paulo Maluf anuncia construção do Minhocão

“Para abrir espaço para esse imenso fluxo de pessoas foram criados quase oito quilômetros de ruas exclusivas para pedestres. O que parecia uma vitória das pessoas contra os veículos, feito sem planejamento e de forma contínua, revelou-se mais um problema”, comenta Meyer. No final da década de 1970, quando essa grande zona exclusiva para pedestres foi criada, muitos comércios que estavam no centro, sobretudo os bancos, que passaram a enfrentar problemas logísticos, optaram por sair da região. Meyer, contudo, ressalta que o problema não é a zona de pedestres, mas o modo como ela foi implantada, sem planejamento adequado, e em uma cidade voltada para a lógica do automóvel.

O centro está vivo

“O importante é não ficar seduzido pela visibilidade desses eventos isolados. Os marcos sozinhos não são responsáveis por tudo, há um processo menos visível e mais longo, que parece subterrâneo ao olho nu, e que tem um alcance muito maior”, defende o urbanista Vinicius Netto. Ter isso em mente é importante, segundo ele, porque faz com que se evite ideias rápidas a partir de acontecimentos isolados, como dizer que o centro da cidade é degradado. “O centro de São Paulo, embora não seja mais o que foi no passado, está vivo, e é criativo. Como um local com cerca de 18% do emprego formal da cidade pode ser considerado morto? Grande parte da vida econômica ainda acontece por lá”, diz Vinicius Netto, retomando a discussão sobre degradação.

Para a urbanista Laura Sobral, São Paulo é hoje uma cidade com uma imensa periferia sem infraestrutura formal, verdadeiras ilhas de prosperidade em alguns bairros centrais e um centro que é uma mistura desses dois mundos. “Claramente, o centro perdeu protagonismo em muitas coisas, mas acredito que ele seja um retrato bem fiel da cidade, no sentido de que há diferentes tipos de usos e pessoas”, diz Sobral. A urbanista Sabrina Fontenele, que tem um estudo sobre os edifícios modernistas da cidade e o traçado urbano do centro, concorda. “Depois de décadas de esvaziamento, acho que o Centro tem passado por um processo interessante recentemente. Os blocos de Carnaval, as festas nas ruas, o Minhocão sendo ocupado como parque dão uma impressão de que existe um interesse genuíno de ocupar os espaços públicos na cidade”, diz.

"Quando se fala em degradação, parece que há certa nostalgia do que o centro foi e que não ajuda a pensar o espaço hoje em dia", diz Laura Sobral

Defender que o centro está vivo e é criativo, contudo, não é fechar os olhos para seus problemas estruturais. Todos os urbanistas ouvidos concordam que a região precisa de investimentos e melhorias, principalmente na questão da habitação, mas que nada pode ser feito sem que o poder público comece a agir. “Efetivamente são necessárias políticas públicas que estimulem habitação na área central para as várias faixas de renda e que, ao mesmo tempo, incentivem a conservação e o uso dos prédios tombados”, diz Fontenele.

“O centro já não é mais o que era. E deveria? Em que medida ele era excludente, por exemplo? Em que medida ele era inclusivo? Isso não é colocado. Quando se fala em degradação, parece que há certa nostalgia do que o centro foi e que não ajuda a pensar o espaço hoje em dia”, diz Sobral. As próprias ocupações de imóveis vazios, como acontecia no Winston Paes, são um símbolo dessa vitalidade cultural, na medida em que abrigam, sob um mesmo teto, pessoas de realidades e origens diferentes – um local onde brasileiros, africanos, asiáticos e latinos se encontram. Ao contrário de degradação, hoje, há ali uma certa babel – que São Paulo já foi conhecida por ser na época da imigração dos europeus – e que agora, longe do centro, é difícil perceber.

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