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Há 50 anos, Sharon Tate morria esfaqueada por seguidores de Manson

Retratados no novo filme de Tarantino, "Era uma vez em...Holywood", assassinatos da atriz e de mais cinco pessoas ainda geram fascínio e repulsa

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O criminoso norte-americano Charles Manson no Centro Médico de Califórnia, o 1 de agosto de 1980. Getty

“Sou o diabo e vim fazer o trabalho do diabo”, foi o que escutou Sharon Tate, atriz e esposa do diretor Roman Polanski, antes de ser esfaqueada 16 vezes. Tate, de 26 anos, estava grávida de oito meses e meio quando foi assassinada em sua residência em Los Angeles (Califórnia) em 8 de agosto de 1969. A atriz não morreu sozinha: o cabeleireiro Jay Sebring, o roteirista Wojciech Frykowski, a milionária Abigail Folger e o vigia da casa Steven Parent também perderam a vida naquela noite, espancados, esfaqueados e baleados. Nenhum viu o rosto da mente criminosa que ordenou sua morte, porque naquela noite ela não estava lá. As vítimas foram assassinadas por quatro pessoas sob as ordens do líder de uma seita, Charles Manson. No número 10.050 da Cielo Drive, naquele quente fim de semana, morria esfaqueado o verão do amor.

Cinquenta anos depois daquele massacre, a figura de Manson continua despertando fascínio e repulsa na mesma medida. E a Netflix não deixou que isso passasse em branco. A série Mindhunter estreou nesta sexta-feira uma segunda temporada centrada nesse assassino em série. Com isso, soma-se a outras produções que aproveitaram a curiosidade que ele desperta, como é o caso de Aquarius, da rede NBC, também disponível na plataforma digital. Além do nono filme de Quentin Tarantino, Era uma vez em... Hollywood, que estreou quinta-feira no Brasil.

Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel foram os executores das macabras ordens de Manson. Quatro jovens convencidos de que esse homem de 35 anos era a reencarnação de Jesus Cristo. Nas paredes da casa da Cielo Drive, o quarteto escreveu com sangue das vítimas as palavras “Pig” (“porco”, um apelido usado pelos negros para se referirem à polícia) e “Helter Skelter” (algo como “caótico”), uma expressão que posteriormente delataria Manson como a mente criminosa.

Mas sua sangrenta cruzada não acabou na residência de Tate e Polanski: no dia seguinte, Leno e Rosemary LaBianca também foram mortos. Os dois receberam 41 facadas. Nesse episódio, o próprio Manson amarrou o casal, mas deixou que seus seguidores fizessem o trabalho sujo. O criminoso matou sete pessoas sem atirar ou dar uma única facada. O modus operandi foi similar ao da noite anterior. Manson pretendia desencadear o que ele chamava de Helter Skelter: fazer as autoridades acreditarem que os assassinatos tinham sido cometidos por membros da comunidade afro-americana e provocar uma guerra racial entre negros e brancos. O confronto era uma suposta profecia contida na música homônima dos Beatles.

Manson, que tinha interpretado a letra segundo sua própria conveniência, convenceu seus seguidores de que ele os ajudaria a sobreviver a uma aliança entre raças. Os quatro membros de sua família tinham assassinado inocentes convencidos do poder profético de Manson e fascinados com a ideia de serem os escolhidos pelo Messias. O grupo era uma pequena parte de uma seita que chegou a ter 100 seguidores vivendo em um rancho nos arredores de Los Angeles. O lugar tinha sido cenário de filmes de faroeste nos anos cinquenta e seu dono era um homem cego chamado George Spahn. Spahn tinha 80 anos quando permitiu que a comunidade de hippies morasse em sua propriedade em troca de receber os cuidados das garotas que integravam o culto. A seita consumia drogas como LSD de forma regular e organizava orgias das quais chegou a participar Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys.

Antes de ser julgado, Manson concedeu uma única entrevista à edição americana da revista Rolling Stone. “Só existe um. Sou o único. Não me importo com o que outras pessoas pensem, só faço o que minha alma me diz”, respondeu quando lhe perguntaram se se considerava um líder. E quando os jornalistas quiseram saber o que significava para ele a submissão, não hesitou: “Consigo me dar bem com as garotas, elas se entregam mais fácil. Consigo fazer amor com elas. O homem tem essa coisa do ego pendurada no pinto. Não consigo fazer amor com isso. As garotas cedem mais fácil. Suas defesas se derrubam com mais facilidade. Quando você supera a questão do ego, tudo que resta é você, você faz amor consigo mesmo”.

O procurador encarregado de culpar Manson, Vincent Bugliosi, publicou depois do julgamento um livro —intitulado, precisamente, Helter Skelter— expondo todos os detalhes dos assassinatos, a ideologia e o que ocorreu nos bastidores de um dos julgamentos mais midiáticos dos Estados Unidos. Bugliosi conseguiu que pela primeira vez um júri condenasse um homicida que fisicamente não matou ninguém e cujo motivo não estava completamente claro.

Uma das hipóteses de Bugliosi sobre os verdadeiros motivos dos assassinatos foi que Manson, um músico frustrado, ordenou que Watson matasse todos que estavam no número 10050 da Cielo Drive porque essa era a antiga residência do produtor musical Terry Melcher, filho da atriz Doris Day. O executivo não vivia mais lá, mas anos antes tinha brincado com a ideia de gravar e lançar a música de Manson. O assassinato do casal LaBianca era, argumentou, apenas uma encenação para reforçar seus supostos motivos diante de seus seguidores.

Charles Manson e os quatro assassinos foram condenados à morte, sentença que depois foi reduzida para prisão perpétua quando foi anulada a execução de criminosos no Estado da Califórnia. Em 19 de novembro de 2017, Charles Manson morreu de causas naturais no hospital Mercy de Bakersfield (Califórnia). Tinha 83 anos e estava havia quase meio século na prisão.

 

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