Que fim levaram as ‘garotas Manson’?

Charles Manson morreu aos 83 anos. Ele instigou os assassinatos de Sharon Tate e mais seis pessoas. O que aconteceu com as moças da ‘Família’ implicadas nos crimes?

Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten riem após ouvirem sua sentença, em 1971.
Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten riem após ouvirem sua sentença, em 1971.Getty

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“Um tamanho nove pequeno", me disse ela. "Mini, mas não extremamente mini. Se possível de veludo. De cor dourada ou verde-esmeralda. Ou: um vestido no estilo camponês mexicano, com saia larga e bordados.” Estas foram as indicações que Joan Didion recebeu de Linda Kasabian, a testemunha-chave no julgamento de Charles Manson e seu séquito pelos assassinatos que acabaram com a fantasia da utópica comunhão hippie norte-americana. A segunda opção foi a ganhadora. A jornalista, que repete essa historia no recente documentário Joan Didion: The Center Will Not Hold, da Netflix, foi encarregada de comprar o vestido que Kasabian vestia ao prestar seu crucial depoimento no julgamento da chamada Família Manson pelos homicídios de Sharon Tate Polanski, Abigail Folger, Jay Sebring, Voytek Frykosky, Steven Parent e Rosemary e Leno LaBianca, ocorridos em agosto de 1969.

Didion contou pela primeira vez essa passagem em seu livro Some Dreamers of the Golden Dream, onde relata suas visitas a Kasabian na prisão feminina de Sybil Brand, em Los Angeles, no verão boreal de 1970. A garota de New Hampshire que sonhava em abrir “uma espécie de boutique que misturasse restaurante e pet shop”, a atraente jovem com duas marias-chiquinhas, foi a renegada da Família Manson. Aquela que, sem ter pedido, ganhou o direito à imunidade, apesar de ter estado presente na chacina de Cielo Drive e nos crimes contra o casal LaBianca (dirigia o carro numa das ocasiões, e na outra esperou o grupo no veículo). Depois de solta, apareceu com sua filha para jantar na casa de Didion e voltou para New Hampshire, onde mudou de nome e tentou viver sob anonimato — embora a imprensa não tenha deixado de assediá-la. Em 2009, reapareceu no docudrama Manson, do Channel 5 britânico. Os produtores a localizaram vivendo em um trailer na Califórnia, à beira da pobreza. Não sabia que uma banda britânica se chamava assim em sua homenagem (escutou, surpresa, o CD do grupo Kasabian que lhe ofereceram para conhecê-los), e sua filha chorou quando viu a reconstituição das cenas dos homicídios. Voltaria a aparecer em 2013, num documentário do History Channel, e concederia uma entrevista a Larry King, mas sempre com sua imagem obscurecida.

Agora que Charles Manson morreu de causas naturais aos 83 anos, após passar quase meio século na prisão, muitos se perguntam que fim levaram as mulheres que participaram ativamente dos crimes daquela seita. Suas figuras e o fascínio que o criminoso exerceu sobre elas foram minuciosamente analisadas no último ano graças ao fenômeno literário de Emma Cline (As Garotas, editora Intrínseca, 2017), a séries como Aquarius e a filmes como Manson’s Lost Girls, mas poucas dessas obras analisaram o que aconteceu depois de Cielo Drive e do julgamento que acabou com a fantasia do verão do amor. Eis aqui os rumos que suas vidas tomaram:

Mary Brunner

“Toda família tradicional começa por um casal, e em todo grupo de seguidores há um que é o primeiro. No caso de Charles Manson, esse papel coube a Mary Brunner”, recordava Raquel Piñeiro em sua série sobre os crimes para a edição espanhola da Vanity Fair. Brunner era uma bibliotecária da universidade de Berkeley que conheceu Manson em 1967. Juntos, formaram um casal pouco convencional. Ele se instalou em seu apartamento e logo começou a arrastar outras moças para a casa da mulher. Com Brunner, nove anos mais jovem que ele, e o resto de seus acólitos, percorreria a Califórnia num trailer até se instalarem no rancho do Vale da Morte. Com ela concebeu seu filho, Valentine Pooh Bear Manson, nascido em abril de 1968. Diz a lenda que Manson cortou o cordão umbilical com seus próprios dentes.

Figura maternal do grupo, não esteve presente no assassinato de Tate e das demais vítimas — havia sido presa por usar cartões de crédito roubados —, mas participou da morte de Gary Hinman. Depôs contra a Família pedindo imunidade, e conseguiu, mas em 1971 mudou de ideia após ser presa por participar com outros seguidores de Mason de um assalto numa loja de Hawthorne. O grupo havia roubado quase 150 armas de fogo, com as quais pretendiam sequestrar um Boeing 747. A intenção era matar um passageiro por hora até que Manson e outros membros da Família fossem libertados. Por essa ação, Brunner passou seis anos e meio presa no Instituto para Mulheres de Califórnia, enquanto Pooh Bear passava a viver com seus avós maternos. Ao sair da reclusão, a mulher mudou de nome, e acredita-se que viva atualmente no meio-oeste dos EUA.

Susan Atkins, a ‘Sexy Sadie’

“Mulher, não tenho nenhuma compaixão por você”, disse Susan Atkins à Sharon Tate, grávida, antes de apunhalá-la na barriga, segundo relato publicado na revista Rolling Stone. Atkins é uma das moças mais famosas da Família. Foi acusada de participar ativamente em todos os crimes e passou o julgamento inteiro cantando canções compostas por Manson com outros acusados. Um recente filme inspirado nos assassinatos, Manson’s Lost Girls, a retrata como uma psicopata, a única que realmente se divertiu com as mortes.

No rancho a chamavam Sexy Sadie, em alusão a uma canção dos Beatles. Não tinha nem 20 anos quando conheceu Manson, mas fugia de um pai alcoólatra, tinha passagem pela prisão por roubo e participara do grupo satânico de Anton Lavey (foi uma vampira de topless em um de seus shows, chamado Witches’ Sabbath), antes de se render à espiral do LSD e à devoção ao líder da Família. Atkins foi condenada à morte pelos homicídios, mas sua pena foi comutada para prisão perpétua quando a Corte Suprema da Califórnia aboliu a pena capital. Em 1974, se converteu ao cristianismo após declarar que Jesus Cristo havia lhe aparecido em sua cela.

Durante sua estadia atrás das grades, casou-se duas vezes. Primeiro em 1981, com um homem que dizia ser milionário, Donald Lee Laisure, mas poucos meses depois anulou o casamento ao descobrir que o homem não era tão rico como afirmava e havia se casado outras 34 vezes. Depois, em 1987, uniu-se a um estudante de direito de Harvard, James Whitehouse, quinze anos mais jovem que ela, com quem permaneceu até sua morte e que foi seu advogado entre 2000 e 2005. Vitimada por um câncer cerebral e com o meio corpo paralisado — teve uma perna amputada em 2008 — solicitou incansavelmente a liberdade condicional a partir do ano 2000. A última apelação foi em setembro de 2009, poucos dias antes de morrer devido ao câncer, na prisão da Califórnia onde cumpriu pena. Tinha 61 anos. Seu marido diz que sua última palavra antes de falecer foi “amém”.

Patricia Krenwinkell, “Katie”

Aos 69 anos, é a mulher há mais tempo presa na Califórnia. Patricia Krenwinkel chegou à Família depois de um passado de abusos e de baixa autoestima, devido a uma doença endócrina que a fazia ter muitos pelos. A garota, que no começo da adolescência cogitou virar freira, sucumbiu instantaneamente a Manson ao conhecê-lo na praia de Manhattan Beach, em 1967, e decidiu segui-lo depois até São Francisco e ao sítio da Família: “Apresentaram-no a mim, e naquela noite fomos para a cama. Senti-me realmente querida por ele, de forma imediata. Naquele momento estava desesperada por ter alguém a quem amasse. Tudo o que me lembro de quando fazíamos amor é que chorava sem parar, porque ele me dizia ‘Ah, você é tão linda’. Não podia acreditar, e começava a chorar”, disse ela à Vanity Fair.

Conhecida no grupo como “Katie”, participou dos assassinatos do casal LaBianca e foi condenada à morte. Será sempre lembrada por rir, junto com Susan Atkins e Leslie Van Houten, enquanto caminhavam pelos corredores do tribunal, na manhã em que a sentença foi proferida (ela foi condenada à morte por sete homicídios dolosos). Começou a se distanciar da Família e decidiu envolver-se ativamente com a vida prisional. Inscreveu-se nos Alcoólicos Anônimos, formou-se em Serviços Sociais e decidiu ensinar outras presas a lerem. Teve pelo menos 14 pedidos de liberdade condicional rejeitados. Sua próxima audiência para solicitar esse benefício será em 2018.

Leslie Van Houten

Quando Leslie Van Houten conheceu Charles Manson, fazia quatro anos que ela consumia benzedrinas e LSD (desde os 15) e já havia feito um aborto (sempre alegou que sua mãe a obrigou a interromper a gestação e enterrar o feto no jardim de casa). Ex-rainha do baile do colégio, fugiu do lar familiar aos 17 e, como todos aqueles jovens que escapavam das suas famílias durante o verão do amor, morava em uma comunidade quando cruzou com Mason, em setembro de 1968.

Tinha 19 anos quando os crimes aconteceram, e, apesar dessa imagem indelével dos risos ao lado de Atkins e Krenwinkell durante o julgamento, afirmou posteriormente que o consumo desenfreado de LSD durante meses a levara a perder o controle sobre sua consciência. Não participou da chacina que vitimou Sharon Tate, mas sim dos assassinatos da noite seguinte, quando apunhalou Rosemary LaBianca nas costas 14 vezes. Condenada à morte, teve sua pena comutada em prisão perpétua graças à abolição de 1972 e passou por três recursos em que confessou ser culpada por homicídio doloso, mas com a possibilidade de receber o benefício da liberdade condicional. Assim como Krenwinkell, virou presa modelo: graduou-se, fez mestrado e dirigiu grupos de autoajuda para as detentas. Seu caso conta com o apoio do diretor John Waters, que em 2011 pediu que a soltassem.

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