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A primera transexual na Superliga feminina de vôlei, entre a ciência e o preconceito

A saga de uma mulher trans no vôlei feminino levanta debates científicos, mas também desperta reações de repulsa e intolerância

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Tifanny, a atleta trans que se destaca na Superliga feminina. Divulgação/Vôlei Bauru

Um furacão, dentro e fora das quadras. Assim pode ser definida a trajetória tão recente quanto arrebatadora da ponteira Tifanny Abreu pelo vôlei brasileiro. Ela é a primeira mulher transexual a disputar a Superliga feminina, mas, além de levantar o debate sobre uma possível vantagem que levaria sobre outras atletas, seu pioneirismo não passou imune a manifestações de preconceito. Mensagens discriminatórias nas redes sociais se misturam a teses pretensamente científicas que insinuam um suposto oportunismo da atleta, como se jogar com mulheres cisgênero fosse uma escolha para sobressair pela imposição física. “Não tem nada de errado no que faço. Estou dentro das regras do esporte”, rebateu Tifanny após sua primeira exibição pelo Bauru.

De fato, o regulamento da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), em conformidade com diretrizes aprovadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2015, permite a participação de transexuais em competições oficiais. Não há sequer a exigência da cirurgia de mudança de sexo. No caso das mulheres trans, é preciso comprovar um nível de testosterona (hormônio masculino) abaixo de 10 nanomols por litro de sangue para competir na categoria feminina. A atleta só pode defender uma equipe após manter esse índice por pelo menos 12 meses consecutivos e, depois de estrear, deve passar por monitoramento frequente do nível de testosterona. Aos 33 anos, Tifanny cumpre os requisitos. Ela concluiu o processo de transição de gênero em 2015 e atualmente registra em torno de 0,2 nanomol de testosterona por litro de sangue.

Terminada a transição, como esperado em casos desse tipo, a atleta perdeu força muscular, resistência e velocidade devido ao tratamento hormonal. A impulsão, segundo ela, teria sido um de seus fundamentos mais afetados. Entretanto, boa parte da comunidade médica e especialistas do esporte entende que apenas o controle do nível de testosterona não é suficiente para colocá-la em pé de igualdade – ao menos no aspecto físico – com as outras atletas cisgênero. Como a transição de gênero só foi iniciada quando ela já tinha quase 30 anos, seu corpo se desenvolveu a partir da composição fisiológica masculina. Um diferencial que o tratamento hormonal, apesar das consideráveis perdas de testosterona, seria incapaz de anular. “Se tivesse feito o tratamento para a mudança de sexo mais cedo, ela provavelmente teria menos vantagens físicas em relação às demais atletas”, afirma a médica do esporte Karina Hatano.

Coordenador da Comissão Nacional de Médicos do Vôlei, responsável pelo parecer da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) que liberou Tifanny, João Grangeiro defende que ela não deveria atuar com mulheres cisgênero, mas, por falta de estudos científicos para embasar uma decisão contrária, chancelou a liberação da jogadora com base na norma do COI. “A diretriz médica que leva em conta apenas o índice de testosterona está aquém da complexidade do caso. De qualquer forma, é o único parâmetro que temos até o momento. E ele foi respeitado para liberar a atleta na CBV”, explica Grangeiro.

Enquanto Tifanny enfrenta resistência e preconceito no vôlei feminino, ainda não há estudos científicos capazes de comprovar a suposta vantagem física de atletas trans sobre mulheres cisgênero.

Recorrendo à retórica da biologia, a ex-jogadora de vôlei Ana Paula escreveu uma carta ao COI atribuindo a inclusão de transexuais no esporte feminino a uma “questão ideológica”. Segundo ela, a liberação de Tifanny configura “um grande deboche às mulheres” e pode incentivar o surgimento de um mercado de atletas trans, em que “homens biológicos ocuparão o lugar de mulheres nos times”. Por outro lado, uma ala de ativistas sociais, militantes LGBT e especialistas em diversidade como Liliane Rocha, fundadora da Gestão Kairós, encara como indignação seletiva os protestos que se dizem solidários às atletas cis supostamente injustiçadas pela concorrência com Tifanny, mas desconsideram o futuro da jogadora trans caso seja impedida de disputar a liga feminina. “Estamos diante de um caso emblemático”, diz Liliane. “Vejo as reações negativas à presença da Tifanny muito mais como um reflexo de preconceito do que um levante pela igualdade no esporte. Se não jogar no feminino, o que ela vai fazer da vida? O acesso ao trabalho é um direito básico. Mas há pouca gente se preocupando com ela nessa história.”

A especialista em diversidade também rejeita a hipótese de que homens passem a mudar de gênero somente para integrar modalidades femininas, ressaltando que, antes de se aventurarem pelas quadras, transexuais precisam lutar pela sobrevivência. A expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é de 35 anos, metade da média nacional. De acordo com levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, uma pessoa trans é assassinada a cada 48 horas no país. Para Liliane, é nesse contexto, de marginalização e violência, que a inclusão de Tifanny precisa ser assimilada, descartando ainda a criação de uma categoria específica para transexuais, já que há poucos casos semelhantes ao da ponteira do Bauru no esporte de alto rendimento – o que contribui para a escassez de estudos científicos sobre a questão do desempenho. “Em todo mercado de trabalho, o profissional trans ainda enfrenta muitas barreiras. Essa realidade se reproduz na esfera esportiva. Parte-se do princípio de que todo homem é forte e toda mulher é fraca. Por que, em vez de julgamentos precipitados, não sugerem à Tifanny um teste de força, para checar se ela leva tanta vantagem assim como dizem?”, questiona.

Tifanny jogando pelo Dero Zele-Berlare, time masculino da Bélgica.
Tifanny jogando pelo Dero Zele-Berlare, time masculino da Bélgica. Getty Images

Hoje, Tifanny se enxerga como “uma mulher forte”. Ela estreou pelo Bauru no último dia 10 de dezembro. Em seis jogos na Superliga, alcançou uma média de 4,8 pontos por set, igualando a marca da oposta Tandara, do Vôlei Nestlé e da seleção brasileira, que é a maior pontuadora do torneio. Antes de iniciar o processo de transição de gênero, levava o nome de batismo, Rodrigo Pereira de Abreu, mas era conhecida como “Rodrigo Pará”, em referência ao estado onde foi criada. Chegou a disputar a Superliga masculina no Brasil antes de ir para a Europa. Passou por equipes de Portugal, França e Holanda. Em 2016, com a transição de gênero concluída, defendeu o Dero Zele-Berlare, time da segunda divisão masculina na Bélgica, mas sentiu o declínio físico causado pelo tratamento hormonal e decidiu interromper a carreira.

Naquele mesmo ano, Alessia Ameri tornava-se a primeira mulher trans a disputar um campeonato de vôlei feminino na Itália. Na temporada seguinte, Tifanny recebeu autorização da FIVB para seguir o mesmo caminho e fechou com o Golem Palmi, da segunda divisão italiana. Sua estreia, em fevereiro de 2017, causou furor semelhante ao despertado no Brasil. Logo no primeiro jogo, entrou em quadra no segundo set e comandou a vitória de virada da equipe. Jogadoras, treinadores adversários e até o presidente da liga reclamaram de sua “estrondosa imponência física”. Equipes rivais chegaram a ensaiar inclusive uma ação conjunta na Justiça esportiva para impedi-la de jogar. “Tifanny perdeu quase 40 centímetros de impulsão no salto. Precisou adaptar todo seu estilo para a dinâmica do vôlei feminino. Não é algo simples”, conta seu ex-técnico na Itália, Pasqualino Giangrossi. “Ela é quase perfeita tecnicamente, não se resume à potência física. Isso precisa ser considerado.”

Após uma temporada no Golem Palmi, Tifanny voltou ao Brasil para se recuperar de uma cirurgia na mão. O Bauru ofereceu tratamento à atleta e, meses depois, acertou sua contratação. No entanto, o regresso ao país de origem, agora como uma mulher trans, não lhe blindou de sofrer a mesma resistência – e os mesmos preconceitos – que enfrentou na Itália. Em sua carta ao COI, Ana Paula disse que várias atletas da Superliga estão descontentes em dividir quadra com uma jogadora transexual. Técnicos adversários do Bauru já expuseram publicamente a contrariedade diante do início arrasador da ponteira. As queixas começam a surtir efeito. Na última quarta-feira, Annie Peytavin, presidente da comissão médica da FIVB, ratificou o aval a transexuais na modalidade, mas admitiu que a decisão pode ser revista a partir de novos estudos. O COI também prometeu reavaliar suas diretrizes nos próximos meses.

Enquanto isso, Tifanny resolveu não conceder mais entrevistas nem participar de programas de TV. Pretende evitar a superexposição e, de acordo com a assessoria de imprensa do Bauru, quer “manter o foco em treinos e jogos”. Mesmo em silêncio, ela continua sendo, até quando permitirem, o grande símbolo de representatividade da pessoa trans no esporte brasileiro.

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