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Ariana, 15 anos: “Apanhei enquanto gritavam ‘vem, traveco, que vou te matar!”

Conheça a história desta adolescente, contada por ela mesma

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A primeira lembrança que tenho da minha infância é quando ia com a minha mãe para me comprar roupa e sempre procurava as roupas de menina. Minha mãe me dizia: “Você não pode usar isso, porque será mal visto” – embora amasse moda, maquiagem, sapatos, bonecas. Quando fiquei um pouco mais velha, perguntava: “E quando eu crescer e for mulher, vou poder usar saltos altos e vestidos?”. “Sim, claro”, dizia minha mãe. Eu esperava que algum dia os seios crescessem. Ela conta que estava convencida de que eu era uma menina desde a gravidez, discordando do ginecologista que dizia que eu seria um menino. Hoje falamos que minha mãe estava certa desde o início.

Eu sofri muito, muito mesmo. Eu me sentia muito estranha, muito solitária. Quando me insultavam só conseguia pensar: “Mas por que isso acontece comigo se sou igual a elas?” Na escola demoraram um tempo para se adaptar, porque dizem que sou o primeiro caso que tiveram em 40 anos. No início havia dois professores que me disseram que eu era um menino e continuaram me tratando como um menino, mas depois se acostumaram e sou Ariana para todos. No começo, a direção não me deixava entrar no banheiro das meninas, porque isso poderia incomodar os pais das outras meninas e me ofereceram o banheiro dos professores. Mas isso me fez sentir estranha e diferente também. Apesar de tudo, foram se adaptando e agora percebo mais o apoio deles.

Por exemplo, quando comecei com os bloqueadores hormonais para fazer a transição, no primeiro trimestre entrei como menino e no segundo trimestre, como menina. Bem, logo de manhã no primeiro dia da minha transformação, quando entrei na sala, um menino me insultou. Mas a coisa já vinha de antes, do bairro. Presumi que os insultos iam continuar, não importava o que acontecesse. Mas a escola expulsou esse menino no mesmo dia e ele não voltou.

Tenho orgulho de abrir o caminho para outros jovens que possam se sentir como eu. Minha família diz que passo o dia todo falando sobre meus direitos e essas coisas, mas se eu não fizer, quem vai fazer por mim? Não vou mudar o mundo, mas pelo menos um pedacinho dele. E se um vizinho me apoia, serão dois pedacinhos. Eu me sinto bem quando vejo pessoas que não aceitavam, começarem a me aceitar ou pessoas que não me entendiam começarem a entender. Mas não foi fácil.

O mais duro foi no ano passado. Sempre que andei pela rua mexeram comigo, sabia bem disso, desde pequena ouvia “bicha, traveco!”. Mas no ano passado foram mais longe. Estava voltando de uma viagem a Sevilha com a minha classe e quando olhei o celular encontrei um monte de mensagens de um número desconhecido que me dizia: “Bicha, eu vou te fazer menino, tenho que te matar, que se dane você, traveco”. Muitas mensagens assim. Fiquei tão assustada que eu o bloqueei.

Mas por essa altura, era maio, um sábado à tarde, encontrei-me em uma praça com a menina que tinha enviado as mensagens. Eu estava conversando com uma amiga quando a ouvi gritando atrás de mim: “Bicha, venha aqui, traveco, vou te matar!” Fiquei paralisada, não sabia o que dizer. Minha amiga disse a ela: “Ela – falava de mim – por acaso te insultou? Não? Pois não há nada mais para falar”. Quis me virar para ir embora, mas nesse momento ela me derrubou e começou a me bater e me chutar: ela e três amigas. Elas me deixaram sem fôlego, bati a coluna, quebrei um dedo. Foi horrível. Além disso, era uma tarde de sábado em uma praça que está sempre cheia e poucas pessoas intervieram. Os homens ficaram olhando. Apenas algumas famílias intervieram para nos separar. Ninguém chamou a polícia. Saí de lá como pude, minha amiga chamou minha mãe, me pegaram no caminho, fomos ao hospital e depois fazer a denúncia. Demorou 11 meses para o julgamento e tive que pagar bastante dinheiro. Mas o que eu disse ao juiz e à minha advogada: o dano que aquela menina me fez ao me agredir de forma tão brutal, na frente de tantas pessoas, sem que ninguém me defendesse, não há dinheiro que possa curar. Pedi uma ordem de restrição, porque continuo encontrando com ela pela rua, mas não deram, porque disseram que “não era para tanto”.

Levei mais de um ano para me recuperar. Nos primeiros dois ou três meses não conseguia nem passar pela praça porque estava morrendo de medo; chorava de medo. Comecei a sofrer muito: me anulava mentalmente e achava que não servia para nada. Cheguei a ter pensamentos muito negativos. Achava que se tomei essa surra ali no meio de todos sem que ninguém impedisse é porque ninguém se importava. O dano que essa menina fez em mim não pode ser pago com dinheiro. E continuo com medo. Recentemente, riscaram o carro da minha família e furaram os pneus: sabemos e a polícia tem certeza de que foram eles novamente. Mas tento não pensar nisso. Se voltarem a me atacar, será suficiente olhar para ela sem dizer nada: que esse olhar signifique “Olhe onde você está e olhe onde eu estou”. Nada mais. Eu recomendaria que se alguém está passando por uma situação como essa, que fale, que diga a alguém que você confia, que desabafe. Porque se você não desabafar, é muito pior. E o mesmo com os maus pensamentos: se você escrevê-los no papel, se colocar por escrito o que está sofrendo e depois queimá-lo, pelo menos para mim, é como se doesse um pouco menos. Como se esse sofrimento virasse cinzas e você visse como ele desaparece.

A transição para mim não está sendo fácil, mas acho que passar por tudo isso será por algo que eu escolhi e vai me fazer feliz. Os bloqueadores hormonais são como ter uma menstruação: incho, dói a área da bexiga, tenho dores de cabeça terríveis, ataques de ansiedade e alterações de humor muito fortes. Sofro, mas penso que é para chegar a uma meta então a dor é mais suportável. Nesta sexta-feira vou para Cádiz pegar uma receita de hormônios, que se combinam com os bloqueadores. Só espero que seja em comprimidos e não tenha que continuar com as injeções. Depois terei que tomar outros quatro anos de comprimidos até me operar. E depois da operação vou ter que continuar tomando outro tipo de comprimido por toda a vida, mas prefiro isso para poder ser quem sou de verdade.

Tenho que esperar para ser maior de idade para fazer a cirurgia e as opções na Andaluzia são: ou uma lista de espera de cinco anos ou 13.000, 14.000 euros em forma particular. Os médicos me mostraram como é a operação e durante um mês estive convencida de que não queria me operar. Que preferia continuar assim porque tinha muito medo da operação. Mas se você pensar bem, não vou ficar sabendo de nada. Você vai, fecha os olhos e quando abre é feliz para toda a vida. Se alguém está na mesma situação e está pensando, eu diria que não pense muito, que faça, não tenha medo, porque é a sua felicidade. O maior medo das transexuais é que depois da operação não possam mais “sentir”. Mas acho que a ciência pode progredir muito nisso, até mesmo os avanços que já existem não têm nada a ver com o que era há 40 anos.

A única coisa que tenho como um espinho encravado é o de ser mãe, quando vou visitar alguém que acaba de dar à luz no hospital o meu coração encolhe um pouco. Eu falo para minha mãe: “Mãe, adoraria me ver nessa situação algum dia”. E minha mãe responde: “Espero que a vida me dê anos e fertilidade para que, se for necessário, carregue no meu ventre o seu filho”.

A história foi contada por Ariana, 15 anos, para a repórter Beatriz Portinari do EL PAÍS.

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