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Destroçar o armário, se negar, portas abertas: três gerações de gays contam suas experiências

“Minha mãe foi me denunciar à polícia porque havia fugido de casa e porque era veado”

Federico Armenteros e Paco Tomás no bairro de Chueca, em Madri.
Federico Armenteros e Paco Tomás no bairro de Chueca, em Madri.

Uns destroçaram o armário a machadadas. Outros negaram a si mesmos sua própria condição sexual, se casaram e durante muitos anos não se atreveram a dizer o que sentiam. Os mais jovens já encontraram as portas abertas. Reunimos três homens gays de gerações diferentes. Tiveram vivências diferentes. Mas pedem a mesma coisa: o orgulho da diferença

“Minha mãe foi me denunciar à polícia porque havia fugido de casa e porque era veado”. O ano era 1977, Federico Armenteros tinha 17 anos e seria enquadrado na lei de desocupados e meliantes. Quatro décadas depois, se dedica a ajudar os mais velhos. Repudiados por suas famílias, muitos idosos se veem obrigados a esconder sua homossexualidade se querem entrar em um asilo. Outros chegaram à velhice sem confessá-lo. Armenteros sabe bem porque ele mesmo passou anos em silêncio. Tentou ser padre. Pendurou a batina. Casou. Teve uma filha. Fez terapia. Um dia sua filha lhe perguntou se ele era gay. E Federico queimou o armário. “O que essa lei conseguiu foi fazer com que você não precisasse de nenhum policial ao seu lado porque você já havia incorporado. E você mesmo se reprimia”.

Ao seu lado, Paco Tomás concorda. Nasceu oito anos depois e já não sentiu a pressão das leis, mas sentiu como a sociedade as havia internalizado. “O discurso negativo é muito difícil de desmontar, porque é um discurso de séculos. Essa tese de cuidado, são sexualmente muito perversos e podem te levar ao mau caminho. Isso foi entrando nas cabeças. E não tinha nada a ver com ideologias”.

Paco Tomás destruiu o armário a machadadas. Como Jack Nicholson, brinca. Apesar de saber que do lado de fora muitos golpes lhe esperavam. Escritor e roteirista, hoje é diretor do Wisteria Lane, o único programa LGBT da rádio pública na Espanha. Pelo microfone luta pelo que tanto lhe faltou em sua juventude: referências. “Se eu não estivesse em minha casa e visse Pedro Zerolo, se não tivesse ido um dia ao cinema e visto A Lei do Desejo de Almodóvar, se não tivesse lido livros de Mendicutti, não teria conseguido”.

Os jovens já cresceram com outra imagem da homossexualidade distante da paródia e do estereótipo. É o caso de Javier Calvo. Nascido em 1991, seu papel na série Física e Química mudou sua vida. A dele e a de muitos que se identificaram. “Todo dia recebo mensagens de pessoas que me dizem que graças ao meu personagem, que graças a mim, se atreveram a sair do armário, a dizer às suas famílias, a se expressar”.

“Não é que não existiam referências em nossa época”, lembra Federico, “é que eram referências para nos odiar... Nos filmes éramos sempre umas loucas”. “Miguel de Molina precisou ir embora”, lhe interrompe Paco. “Claro, como Miguel de Molina. Por isso muitas vezes reivindico mais a palavra veado do que gay. Porque nunca me chamaram de gay. Fui chamado de veado. Era isso que precisava ser superado para se empoderar”.

Federico é assistente social e sua meta agora é criar uma residência para idosos LGBT. “Ainda existem idosos que estão no armário e não podem sair porque não têm autoestima. Acreditam que não têm direitos”. Por isso Paco Tomás insiste que é preciso agradecer aos mais velhos “porque eles puderam fazer pouco, o que iriam fazer se eram presos? Mas precisamos agradecê-los por tudo o que viveram, pelo testemunho que nos deixam. Precisamos escutá-los”.

“Têm razão”, diz Javier Calvo. “A verdade é que eu deveria ligar mais para meu avô e deveríamos prestar mais atenção aos mais velhos”. Federico Armenteros explica que se sentem esquecidos. “Nunca lhes pediram nada, nem fizeram com que participassem de nada. O bairro em que os LGBT iam morar não era Chueca, era Chamberí. É lá que hoje em dia todos os idosos estão. Mas já não há lugar para eles. Não gostam do Orgulho Gay, porque estão muito ressentidos e porque Chueca nasce e varre de um golpe toda a história. O bairro de Chueca só admite pessoas jovens e bonitas”.

“É uma injustiça social tão grande”, se queixa Paco Tomás, “e eu entendo esse ressentimento. Quando você tinha juventude e beleza, tudo estava contra você. E não pôde aproveitar. Agora pensam que foram roubados”.

Federico e Paco são críticos sobre como se esfumou a diversidade na comemoração do Orgulho Gay. Paco Tomás pede para que não sejam silenciados os que saem do padrão da juventude e da beleza. “Dentro de um coletivo que luta pela diversidade esse mesmo coletivo não pode discriminar quem não tem músculos, quem é idoso, a lésbica”.

Os dois pedem que todo mundo tenha seu espaço. E que a festa não eclipse a reivindicação. Federico gostaria que o mercado não ocupasse tudo. “É preciso existir mercado, mas também outros espaços para transmitir valores humanos, sociais. Mas as organizações que surgem agora têm objetivos concretos, não um desejo de unidade”.

Paco dá razão a Federico. “Sempre, sempre serei a favor do orgulho, mas não pode ser só um negócio. Mas precisamos de pedagogia e um discurso porque sem isso o orgulho se transforma em um parque temático. Não vamos nos esquecer que tem uma base teórica e de luta e que se sustenta em bases que falam de sofrimento”. “Essa dor, essa dor”, repete Federico que por um instante perdeu o sorriso.

Dor. E outras três palavras que repetem durante a conversa. Medo. Visibilidade. Diferença. A diferença como bandeira. “É algo que une todas as gerações. Não importa se você tem vinte, cinquenta ou setenta. Quando você se dá conta de que é diferente. Então me deixe ser diferente”, pede Paco Tomás. “E vamos conviver”.

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