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Joanna Maranhão: “Fui abusada, mas combato a cultura do ódio. Justiça punitiva não é solução”

Nadadora se arrepende de provocação à ex-jogadora de vôlei Ana Paula por apoio a Aécio e diz não ter pretensão de entrar para a política

“Mídia merece Oscar pela demonização do PT”

Boa fase emocional e nas piscinas. Ou, em suas palavras, a busca incessante pelo “estado de flow”. Aos 30 anos, Joanna Maranhão comemora a evolução nas competições e a maturidade para administrar o sentimento de ser uma estranha no ninho do esporte de alto rendimento. A nadadora desbrava uma nova jornada desde o início do ano pela equipe da Unisanta, em Santos, litoral paulista, onde treina uma semana por mês. No restante dos dias, quando não está competindo, vive em Belo Horizonte com o marido, o judoca Luciano Corrêa, e cumpre a rotina de treinos recomendada por seu staff no centro de treinamento da Universidade Federal de Minas Gerais. Ela tem se engajado cada vez mais no debate político, que ajudou a romper a bolha que a blindava do mundo alheio à natação. Hoje, concilia o papel de ativista com o de atleta, sem se envergonhar das fases em que não se permitia ser uma coisa nem outra.

A construção

Quando leu Simone de Beauvoir pela primeira vez, Joanna logo descobriu-se feminista. E machista, também. Bem antes, o esporte brasileiro a descobriu como o novo fenômeno da natação. Aos 17 anos, já estava na Olimpíada de 2004 e alcançou um impactante quinto lugar na prova dos 400 metros medley. Porém, uma década mais tarde, o fenômeno que despontara em Sydney anunciava sua aposentadoria do esporte. Quedas de performance e desilusões com a modalidade a fizeram abandonar a carreira, mas o sonho de disputar uma Olimpíada no Brasil falou mais alto. Acabou não se classificando para as finais dos 200 metros medley e borboleta e deixou a Rio 2016 sem uma medalha. No final do ano, ainda foi despedida do Pinheiros. Parecia que a atleta Joanna havia cruzado, enfim, a linha de chegada. Mas era apenas o recomeço.

Pergunta. Onde encontrou forças para não desistir após o insucesso na Olimpíada e a dispensa do Pinheiros?

Resposta. Eu não queria mais saber de nadar. A saída do Pinheiros foi uma porrada grande naquele momento. Desisti de lutar contra o sistema. Mas meu marido me disse que eu deveria escolher a hora de parar, não eles. Não posso negar que o fato de ter sido mandada embora do Pinheiros me motivou. O diretor técnico falou que o clube não enxergava perspectiva de futuro para mim pelo avanço da minha idade. Depois de eu ter sido extremamente profissional, eles foram bastante desrespeitosos comigo. Sem contar o traço de misoginia. Eles mantiveram outros três atletas com 30 anos ou mais. Mas são todos homens. Eu era a única mulher. Duvidaram da minha capacidade. E então eu resolvi me desafiar. Essa dispensa acabou sendo um combo motivacional para mim.

P. O atleta depende de desafios constantes para render o máximo?

R. Estou melhor física e psicologicamente do que nos últimos anos. A gente busca esse estado de flow. É quando o atleta consegue seus melhores resultados. Mas não é algo que conseguimos alcançar sempre. Fui semifinalista no Mundial, décimo lugar, cheguei o mais perto possível de uma final. Estou no ranking mundial de novo. E entre as 20 do mundo. Mas não são os resultados que mais me motivam. O que me motiva é o seguinte: ‘Qual é a melhor Joanna que eu posso construir?’. No esporte de alto rendimento, tem coisa muito suja. Tem doping, tem gente que era conivente com um sistema extremamente corrupto. Se eu for avaliar minha carreira de acordo com outros atletas, vou colocar parâmetros que não me representam. Prefiro me comparar comigo mesma. Tem muita gente que só quer medalha. Respeito. Mas, se a minha motivação fosse apenas medalha, o objeto, a natação não faria sentido pra mim. É claro que eu também quero medalha e adoro ganhar. Só não é minha motivação principal.

P. No Mundial de Budapeste, em julho, você bateu o recorde sul-americano nos 200 metros medley e, no mês seguinte, ainda saiu com o melhor índice técnico do Troféu José Finkel, com seis medalhas de ouro. Os bons resultados te motivam a disputar a Olimpíada de Tóquio?

R. Não descarto disputar mais uma e, quem sabe, mais outra Olimpíada. Não descarto nada. Tive uma evolução enorme no crawl. Só nadei essa prova quatro vezes na carreira e sou a recordista brasileira. Sempre treinei muito medley. Quem sabe eu não chegue lá numa prova de fundo? Meninas jovens não aguentam treinar comigo. Para mim é natural, porque não me sinto uma pessoa de 30 anos. Meus exames mostram que meu corpo responde como o de uma atleta mais nova. Por que eu vou parar?

P. Não pensa mais em aposentadoria, então?

R. De jeito nenhum. O esporte profissional é muito mais emocional do que físico. O que me impede hoje de evoluir mais rápido é o aspecto psicológico. Eu comecei muito cedo na natação. Com 17 anos já estava numa Olimpíada. Depois tive uma queda brusca de desempenho. A grande questão é que não me sinto pertencente a esse universo do alto rendimento.

P. Algo como “uma estranha no ninho”?

R. Olha, eu tenho o sentimento utópico de achar que um dia todos os atletas terão as mesmas oportunidades. E que quem bate na frente é realmente o melhor. Eu, por exemplo, sempre saí na frente de muita gente. Eu venho de classe média, filha de médica, com três anos já estava habituada ao meio aquático. Nunca tive que fazer grandes esforços para comprar os melhores trajes. Mesmo quando a situação estava mais apertada, minha mãe, por ser médica, dava plantão e podia pagar as coisas para mim. Em 2004, quando fui quinto lugar na Olimpíada, eu só acordava e ia treinar. Eu tinha tudo, velho. Um monte de gente cuidando de mim. Como eu não ia nadar rápido desse jeito? Não estou desmerecendo meu quinto lugar, porque precisei chegar lá e fazer. Mas eu tive privilégios que outras atletas não tinham, isso é óbvio.

P. A ideia de que o esporte promove a meritocracia é uma ilusão?

R. O esporte de alto rendimento é extremamente injusto. Mas eu tenho talento pra isso, eu amo nadar. Não vou desperdiçar a chance de construir a melhor versão de mim mesma no esporte, apesar de suas injustiças. Me vejo como uma pessoa capaz de humanizar um pouco esse universo. Às vezes eu me perco. No Mundial, por exemplo, depois que fiquei fora da semifinal dos 200 metros borboleta, eu já liguei para minha psicóloga chorando: ‘Não pertenço a esse mundo, não quero mais isso’. Cometo esse erro de me influenciar pelo ambiente, de olhar os outros, e não a mim. Nesses momentos, eu me apego à sensação de vitória ao chegar em casa depois de um bom treino ou de superar uma crise de pânico, que as pessoas do lado fora acham uma porcaria, mas eu enxergo valor. Tenho de me voltar sempre para dentro de mim. Mas não é uma tarefa fácil.

P. Acredita que poderia ter tido mais sucesso e patrocínios se adotasse uma postura menos crítica à estrutura da natação brasileira?

R. Poderia. Entre 17 e 21 anos, eu tive muito patrocínio. Comprei meu primeiro carro à vista e um apartamento. Tudo muito cedo. Depois que comecei a enxergar como as coisas são realmente feitas na natação, passei a sentir que eu não tinha conquistado aquilo. Que os bens materiais vieram para mim através de um sistema corrupto. Mas não me arrependo de nada. Tive que vender o apartamento depois de tantas brigas com a CBDA [Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos]. Faria tudo de novo. Tenho a consciência limpa. Não gostaria de ter um pé de meia oriundo da antiga gestão da CBDA [em abril, o ex-presidente da entidade, Coaracy Nunes, foi preso e afastado do cargo por suspeitas de corrupção].

A reconstrução

Em 2008, Joanna revelou que havia sido molestada por seu antigo treinador quando tinha 9 anos. Após contar sobre o trauma, mergulhou na terapia como forma de enfrentar as reminiscências do abuso sexual que ajudaram a moldar sua personalidade – e lhe renderam inúmeras crises de pânico e ansiedade. Este ano ela lançou o projeto social Emancipa Esporte, com o intuito de oferecer iniciação em modalidades esportivas a crianças de escolas públicas e, sobretudo, formar profissionais que deem importância aos direitos infantojuvenis no trabalho de formação de atletas.

P. Como você recuperou a autoestima depois de tantos altos e baixos?

R. Quando fiz terapia depois de parar de nadar, eu realmente entendi que não voltaria bem se tentasse ser como os outros. Eu tinha que me aceitar, com minhas fraquezas, oscilações, crises de pânico e depressão. Deixar de ter vergonha desse estigma da menina ansiosa, depressiva e problemática. Hoje tenho muito orgulho de quem eu sou. Mas foi todo um processo de aceitação.

P. O esporte ainda carrega a concepção do atleta como um ser humano imbatível?

R. Não existe atleta ou ser humano imbatível. Nas redes sociais, tem muita gente que tenta vender isso. O corpo perfeito, a dieta infalível, o atleta 100% focado... Eu conheço as pessoas no dia a dia e sei que elas não são assim.

P. Até que ponto as crises de pânico estão relacionadas ao trauma que você viveu na infância?

R. Tenho transtorno de ansiedade generalizada e, às vezes, uma situação que não tem nada a ver com abuso sexual pode ser o gatilho para me levar à infância de novo. Entro em pânico. E aí meu corpo simplesmente apaga, eu desmaio. Na concentração do Mundial este ano, eu estava mexendo no celular, não me percebia ansiosa e, de repente, acordei no chão. Quando olhei no espelho, meu nariz estava sangrando. Eu caí de frente. Depois do desmaio é muito pior. Vários pensamentos me vêm à cabeça: ‘Eu sou uma fracassada, eu não consegui, logo hoje’. Tomei café da manhã e vomitei. Mas aí deitei e tentei me acalmar aos poucos. Em vez de me envergonhar, eu me orgulho de ter driblado uma crise de pânico num Mundial. Muitos técnicos dizem que falar sobre isso é ruim para minha imagem. Ruim para minha imagem seria tentar vender uma coisa que eu não sou.

P. Antes de revelar os abusos que sofreu à imprensa, você já tinha contado a alguém?

R. Os técnicos de alto rendimento não são preparados para lidar com casos de abuso sexual. Várias vezes eu quis contar para outro técnico, mas não sabia como falar. O abuso sexual é um negócio que pode enlouquecer uma criança. Só fui entender que treinadores não podiam molestar crianças tempos depois, quando mudei de técnico e minha mãe disse: ‘Você vai voltar pra casa com o tio Paulo hoje’. Aí eu pensei: ‘Poxa, ele vai me botar no carro e desviar do caminho’. Quando ele me levou pra casa, só então eu compreendi que desviar do caminho não era o certo.

P. Hoje você dá palestras sobre abuso sexual e mantém um projeto social voltado para crianças. É uma maneira de conviver com o trauma?

R. Não tenho problema em falar que ele [o ex-treinador] botou a mão dentro do meu maiô, que me molestou na piscina ou que me despiu na cama da esposa. Mas hoje meu papel não é mais esse. As pessoas já sabem de tudo que eu passei, embora haja sempre aqueles que dizem que estou mentindo e falo disso para ter mídia, infelizmente. A contribuição mais importante que posso dar é empoderar crianças para que elas não sofram com o mesmo silêncio que eu sofri aos 9 anos e mostrar que, mesmo depois do abuso, é possível se tornar um adulto equilibrado, sexualmente ativo e capaz de compartilhar sua história.

“Se um cara é preso por estupro, tem gente que comemora porque ele vai virar ‘mulherzinha’ na cadeia. Mas esse sujeito vai sair de lá pior, vai fazer tudo de novo.”

P. Seu caso acabou inspirando a Lei Joanna Maranhão, que aumenta o prazo de prescrição de crimes envolvendo violência sexual contra crianças. Quando você denunciou seu ex-técnico, o crime já havia prescrito e ele não respondeu a processo. Como lidou com a sensação de impunidade?

R. Sou totalmente contrária à lógica da justiça punitiva. Ela tem de ser reparadora e restauradora, na medida do possível. É preciso acabar com a cultura do ódio. Já desejei durante um tempo que o cara que me abusou morresse, fosse atropelado, sofresse. Tinha muito ódio da pessoa que eu havia me tornado pelo que ele me fez. Me olhava no espelho e me sentia suja. Não queria tocar no meu corpo, porque me achava horrível. Para mim, a culpa de tudo aquilo era dele. Depois que tive a chance de me reconstruir, percebi que eu estava de pé e que, talvez, esse cara também precisasse de ajuda. A esposa e os filhos têm confiança absoluta nele. Acham que eu menti e inventei tudo aquilo. Isso é muito doentio. Ele chegou a me processar. Naquele momento, fiquei com muita raiva. Tanto tempo para reunir forças e vomitar todo aquele trauma, e aí vem o cara me dizer que o caso vai acabar em pizza e que eu estava mentindo? Ele deve ser um bom pai ou um bom marido. As pessoas não são totalmente diabólicas ou totalmente santas. Mas me dá muita pena saber que ele não tem coragem de falar a verdade para a própria família. Quando digo isso, as pessoas pensam que eu estou defendendo bandido. Não quero que ele morra, mas também não quero que esse cara tenha a oportunidade de estar com outras crianças, porque não tem condições. Que ele pague pelo crime que cometeu, vá se tratar e sustentar a família dele de outra maneira, não trabalhando com crianças.

P. O argumento de muitos que defendem pena de morte para esse tipo de crime é o “quero ver quando acontecer com você ou alguém da sua família”...

R. Aconteceu comigo. Eu sofri na pele, mas não sou juíza. Que bem faria esse homem ser morto ou castrado? Não vai resolver o problema dele nem de nenhum outro pedófilo. Se um cara é preso por estupro tem gente que comemora porque ele vai virar ‘mulherzinha’ na cadeia. Mas esse sujeito vai sair de lá pior, vai fazer tudo de novo. Se esse caminho que foi tomado até hoje, da punição por punição, ignorando a causa do crime, não deu certo, por que temos de insistir nele? Fui abusada, mas combato a cultura do ódio. Justiça punitiva não é solução.

P. Você também passou pela sensação comum da vítima que se sente culpada pelo crime?

R. Sempre que a gente vê um caso de abuso ou estupro, é culpa do short que a menina usa, do lugar onde ela estava, da criança que é muito sexualizada. Eu pensava isso de mim. ‘O que eu fiz para ele achar que tinha o direito de abusar de mim?’ Não era preciso que alguém me culpasse, porque eu já me culpava, e muito. A sujeira de habitar meu próprio corpo era um fardo muito grande.

P. Como reage ao saber que outras mulheres sofrem com o mesmo processo de culpabilização?

R. Meu primeiro desmaio súbito foi depois do caso da Xuxa [que revelou ter sido abusada ao Fantástico, em 2012]. Estava vendo televisão e passando de canal quando vi a Xuxa com uma jaqueta vermelha. Me chamou a atenção, achei muito bonita e parei pra ver. Então parecia que tudo que ela falava vinha da minha cabeça. Meu ídolo de infância que passou pelo que eu passei. No dia seguinte, acordei pra treinar com enxaqueca, botei a mão na cabeça e caí. Ali eu tive ideia do quanto a coisa é imensa. O depoimento da Xuxa me mostrou que, com toda certeza, estou longe de ser a única vítima. Depois que eu revelei minha história, teve gente dizendo: ‘Ah, mas qual mulher nunca foi abusada?’. Isso é muito sério.

Para Joanna, demissão do Pinheiros teve “traços de misoginia”.
Para Joanna, demissão do Pinheiros teve “traços de misoginia”.

A desconstrução

Nos últimos anos, Joanna tem subido o tom ao manifestar suas opiniões pelas redes sociais, sobretudo quando fala de política. Durante a última Olimpíada, sofreu linchamento virtual depois de alguns usuários resgatarem publicações antigas da nadadora, em que ela ridicularizava outras mulheres. Se arrepende das ofensas que proferia apesar da veia feminista, assim como do apoio ao atual ministro da Defesa, Raul Jungmann, e da discussão com a ex-jogadora de vôlei Ana Paula.

P. Você filiou-se este ano ao PSOL. Pretende concorrer a algum cargo nas próximas eleições?

R. Tem muita gente pedindo para eu me candidatar. Mas não tenho equilíbrio emocional e nem estômago para estar numa Câmara dos Deputados, por exemplo. Não tenho. Só se alguma coisa mudar muito e eu me sentir forte para representar as pessoas que votarem em mim. No momento, prefiro apoiar pessoas nas quais eu acredito. Muitas delas estão na militância política há bem mais tempo que eu. A partir do momento em que eu me candidate, posso tomar o lugar de alguém simplesmente por ser uma pessoa pública. Não gostaria de me apropriar do espaço delas.

P. Como enxerga seu papel de atleta que se posiciona politicamente?

R. Espero ser uma voz para contribuir com o debate. Nos veículos de comunicação convencionais, as pessoas não têm informações suficientes para problematizar as questões. Isso acontecia comigo. Minha opinião era formada pela Globo. A mídia ainda tem um poder muito grande. Lembro que, na época da discussão das cotas raciais, a Veja deu uma capa com dois irmãos gêmeos: um entrou, o outro não. Eu nem li a matéria. Só pela capa já tirei minha conclusão: ‘Essa coisa de cota é uma merda’.

P. Os atletas brasileiros deveriam participar mais do debate político?

R. Eu gostaria, mas, ao mesmo tempo, não tenho direito de pedir isso. Se o atleta tem posições de esquerda, mas só quer votar, e não militar por isso, é um direito dele. Me incomoda muito mais o crescimento da extrema direita. Não porque eu ache que a esquerda seja completamente correta. O problema é que a extrema direita é fascista, perigosa e assassina. A cadela do fascismo está sempre no cio. Corremos o risco de retroceder em pequenos passos que temos dado. Minorias das quais eu não faço parte, que, com palavras, acabei violentando no passado, estão na zona de risco.

“Temos de procurar a via do diálogo, não do escracho. O [João] Doria, por exemplo. Eu não gosto dele. Acho um cara detestável, fruto do marketing, extremamente oportunista, que surfa nessa onda do antipetismo. Mas não acho que jogar ovo na cabeça dele vá resolver.”

P. Você se refere a postagens antigas que usuários do Twitter resgataram em seu perfil no fim da Olimpíada, em que debochava de outras mulheres?

R. Antes de começar a Olimpíada, já tinha visto alguns comentários dizendo que eu iria fracassar. Durante a competição, saí completamente de rede social. Na véspera da minha última prova, resolvi baixar o Facebook de novo. Quando olhei meu perfil, eu não acreditei. Eram vários insultos, de todos os tipos. Não acho que esse tenha sido o motivo de não ter me classificado. Eu não iria pra semifinal de qualquer forma. Depois que saí da prova, fui dar entrevista e desabei. Mas achei excelente terem ido atrás dos meus tuítes de 2011. Foi uma oportunidade de pedir desculpa. Realmente, eu era uma pessoa horrível. Fazia brincadeira com negro, com pobre, com homossexual, com tudo. Chamava travesti de ‘traveco’, zombava de mulher gorda e não via o menor problema nisso. Como não me afetava, achava algo normal. Um dia me toquei e questionei a mim mesma: ‘Joanna, que pessoa você é?’. E aí eu topei me desconstruir e estou disposta a isso. Ainda tem muita coisa que eu preciso aprender.

P. Recentemente, também pelo Twitter, você manifestou arrependimento por ter apoiado o ministro Raul Jungmann...

R. O Raul é meu amigo. Acreditei no que ele estava fazendo quando era vereador em Recife. Trabalhei pra ele na campanha para deputado federal. Mas hoje entendo que votei errado. Não vou virar a cara para ele, mas me entristece muito vê-lo no governo de Michel Temer, assim como me entristeceu vê-lo fazer campanha pro Aécio Neves no segundo turno, porque nenhum governo do PSDB tem representatividade no Nordeste. Eu já votei errado. Demais. Não nego isso. Vou tentar não errar de novo, com base em outros critérios. As pessoas que representam a gente no cenário político são basicamente homens cisgêneros brancos. E a maioria da população brasileira não é assim. O povo não é verdadeiramente representado em nenhuma das esferas de poder.

P. Quando Aécio foi afastado do Senado após o escândalo de corrupção da JBS, você discutiu com a Ana Paula pelo fato de ela ter votado nele para presidente. Acredita que ela também errou na escolha?

R. Eu errei. Fui levada pela euforia de ver Aécio Neves finalmente aparecendo na Globo como acusado. E aí falei algo que não deveria ter falado. Se ela enxerga ou não o erro de ter votado nele, é problema dela. Eu não tinha nada que fazer aquilo. E ela me respondeu como responde a todo mundo. ‘Sou medalhista olímpica, você não, e é uma fracassada’. A retórica da Ana Paula é sempre essa, de que não se pode questionar uma campeã. Ela se acha superior por ter uma medalha olímpica. Mesmo sendo mulher e atleta, o discurso dela não conversa com o meu. Ela já deu declarações sobre as atletas de Cuba que, definitivamente, não representam o que eu penso. Admito que errei. Mas ela não é uma pessoa com quem eu sentaria para bater um papo, porque não vai ser um diálogo possível.

P. Há pouca cumplicidade entre mulheres do circuito esportivo profissional?

R. Sororidade é uma coisa importante. Eu me dizia feminista, mas não tinha empatia por outras mulheres. Porque a gente é ensinada a competir entre nós. Seja no esporte, na conquista de um homem, de um emprego, de um corpo melhor. Compreender o que é sororidade me trouxe uma paz muito grande. Finalmente entendi que eu só preciso competir na piscina. É necessário estar disposta a se desconstruir para perceber o quanto ainda somos injustas e machistas umas com as outras.

P. No fim das contas, o esporte como um todo ainda é muito machista, não?

R. Quando entrei na seleção, aos 14 anos, diziam que eu tinha de treinar como homem. Até hoje tem gente que diz: ‘Joanna treina como homem’. Todos, todos os meus técnicos já me disseram isso. Eu não treino como homem, treino como Joanna. Eu ‘guento’ mais treino que muito homem. E mais que muita mulher. Não tem nada a ver com gênero. Tem a ver com minha capacidade de suportar a dor e continuar treinando, continuar me superando para construir a melhor Joanna possível.

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