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Megaoperação contra pedofilia no Brasil encontra até manual para atrair crianças

Entre detidos estão donos de escola de futebol, profissionais de saúde e servidores públicos

“Vão de classe A à C, um comportamento que não entende classe social”, disse o delegado

Operação da PF contra pedofilia
Uma criança usa um smartphone. PAUL CROCK

Uma megaoperação contra a pedofilia realizada do norte ao sul do Brasil, nesta sexta-feira, revelou um submundo de abusos a crianças cometidos, em alguns casos, pelos próprios pais. A ação, batizada Luz da Infância, prendeu em flagrante 104 pessoas em 24 Estados e o DF e apreendeu farto material pornográfico com meninos e meninas como vítimas. Iniciada há seis meses, a operação foi possível graças à integração entre a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), que coordenou as investigações do seu núcleo de Inteligência, e as polícias civis de cada Estado que executaram os mandados de busca e as prisões.

A envergadura da ação, considerada uma das maiores do país e da América Latina, expõe uma ferida aberta num país onde em 2015, segundo o Disque Denúncia, 50 crianças foram abusadas sexualmente por dia. “Este é um diagnóstico do problema no país, é uma epidemia o que se vê no Brasil. Temos aproximadamente 200 mandados, mas poderiam ser 1.000. Os dados detectados demonstram o quanto esse comportamento criminoso está espalhado no país”, lamentou o delegado da Polícia Civil do Piauí, destacado na Senasp, Alessandro Barreto. "O complexo ambiente da internet e a ausência de fronteiras no mundo virtual, são elementos que propiciam terreno fértil à atuação desses criminosos", disse a nota do Ministério da Justiça.

Os materiais apreendidos surpreenderam até os investigadores. Além de milhares de arquivos contendo cenas repulsivas, foi achado também uma espécie de manual do pedófilo, um passo a passo de 100 páginas com orientações sobre como abordar crianças na rua ou nas escolas. Nos registros dos computadores dos alvos, encontrou-se ainda um desenho animado que explicava às crianças a melhor forma de se submeter a uma relação com um adulto. Entre os detidos no Paraná, por exemplo, havia uma mãe que mantinha relações com o filho de 11 anos enquanto o padrasto gravava.

O delegado Barreto ficou estarrecido. “Tenho 17 anos de carreira, e pensei que tinha criado estômago para me acostumar com barbaridades, mas não me acostumei. Me pergunto até que ponto chega o ser humano. Não podemos aceitar um comportamento como esse”.

Ainda é cedo para determinar, segundo os investigadores, se parte da centena de presos integrava uma rede mais articulada de pedofilia, inclusive com tentáculos internacionais. De fato, a operação partiu de um primeiro contato da Embaixada dos Estados Unidos disposta a compartilhar informações. Os perfis dos detidos são variados. Há de donos de uma escolinha de futebol, a funcionários públicos e profissionais da área da saúde. “Há alvos da classe A à C”, esclarece o delegado. “É um comportamento que não entende de classe social”.

Alguns dos detidos já tinham passagem pela polícia pelo mesmo crime, sem ainda terem sido julgados. No Rio, a Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV) prendeu um homem de 41 anos, casado e com um filho de sete anos, que foi indiciado em 2012 por se passar por médico para fotografar as partes íntimas de crianças que fingia atender. Ele ainda contava com um programa no seu computador para descarregar material pornográfico infantil a partir de palavras chave. No momento da sua detenção, havia 157 arquivos sendo descarregados do seu computador com tópicos como “Lolita” ou “incesto”. A mulher, horrorizada, disse aos policiais que nunca imaginou as atividades do marido.

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