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VÍDEOS | 9 perguntas e respostas sobre identidade de gênero

Protagonistas da causa LGBTQIA+ respondem a perguntas da plateia do debate EL PAÍS-FAAP

Debate sobre identidade de gênero e diversidade
Debate na FAAP abordou gênero e diversidade.

Em 14 de novembro, o jornal EL PAÍS e a universidade FAAP reuniram quatro dos protagonistas da causa LGBTQIA+ para falar sobre gênero e identidade em um momento em que o tema "está no centro de um debate cheio de preconceito e violência" e em que pessoas "estão lutando pela própria vida", segundo definiu naquele dia a professora Edilamar Galvão.

Durante o debate, Renata Peron, assistente social, cantora e fundadora do Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS), contou sobre o dia em que foi agredida e quase morreu por ser uma travesti. "Nós somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Vocês entendem o que é matar uma pessoa só porque ela é diferente de você?", lembrou ela. Já o empresário e estudante de design Gabriel Lodi, que ganhou visibilidade após uma entrevista feita pelo ator Dan Stulbach para a criação de seu personagem na novela A Força do Querer, contou sobre a experiência de ser um homem trans no universo masculino. "Depois da minha transição não tinha mais nenhum tipo de agressão. Transitar para uma sociedade machista é muito mais fácil", contou. A cineasta Bárbara Cunha falou sobre seu próximo documentário, Borboletas e Sereias, que trata da questão de gênero na infância. E Maíra Reis, que é publisher do Reversa Magazine, auxilia o Google em um laboratório de jornalismo preocupado com o assunto e presta consultoria a empresas sobre o mesmo tema, falou sobre como o mundo corporativo e os veículos de comunicação vêm abordando o tema.

Diante das dezenas de perguntas enviadas pela plateia e da impossibilidade de responder a todas elas, os convidados do debate gravaram nove vídeos nos quais abordam as questões levantadas.

1 - “Como uma criança tão jovem pode ter o conhecimento para se enquadrar numa lógica de transexualidade?"

A estudante de Relações Internacionais Constanza Andreini perguntou, por exemplo: “Como uma criança tão jovem pode ter o conhecimento para se enquadrar numa lógica de transexualidade? Não é demasiado cedo para eles identificarem seu gênero tão especificamente?”. Em sua resposta, Gabriel Lodi explica que "uma criança entre 3 e 5 anos já tem como identificar em qual gênero se encaixa" e conta que, por volta dessa idade, começou a perceber que o corpo com o qual nasceu e aquele gênero que lhe era proposto não lhe representava.

2 - “Por que LGBT não vota em LGBT? Por que mulher não vota em mulher? Falta conscientização? Coesão?”

Já o estudante de Serviço Social Carlos de Paula levanta a seguinte questão: “Por que LGBT não vota em LGBT? Por que mulher não vota em mulher? Falta conscientização? Coesão?”. Para Renata Peron, ainda falta a compreensão de que a comunidade deve se unir em torno de representantes, enquanto que os religiosos sim vem elegendo ano após ano aqueles que defendam "os valores da família brasileira".

3 - “É necessário um termo que englobe as tantas formas de ser, fora do padrão binário? Por quê? O que vocês acham do termo 'se assumir"?

“É necessário um termo que englobe as tantas formas de ser, fora do padrão binário? Por quê? O que vocês acham do termo se 'assumir", pergunta Márcia Vitória, estudante de Animação. Gabriel mais uma vez responde: "Se assumir tem uma conotação negativa porque parece que está fazendo algo errado. As pessoas 'se entendem' ao longo de sua vivência", explica. Maíra Reis acredita ser necessário que as pessoas se definam com aquilo se sente mais confortável.

4 - "Nos comentários de reportagens nas redes vê-se muito preconceito. Qual a saída para esclarecer essas pessoas?"

“Fala-se em redes sociais como espaço de expressão, mas ao ler comentários de diversas reportagens de diferentes veículos, vê-se muito preconceito. Como enxergam isso, e acreditam em uma solução pra esclarecer essas pessoas e mudar esse cenário?”, pergunta o jornalista Anselmo Feitosa. Gabriel chama atenção para o fato de que as pessoas não estão sabendo diferenciar opinião de discurso de ódio. Já a cineasta Bárbara Cunha explica que isso "uma das características da era em que estamos vivendo é que as pessoas, com a internet, se sentem livres para dizer qualquer coisa". Assim, taxa a rede como algo importante, mas também perigoso. Sobre a abordagem do tema nos meios de comunicação, Maíra opina: "A gente não tem um manual de jornalismo perfeito que ensina varias nuances. Os erros acontecem no dia a dia. Muitos acham que estão fazendo uma matéria incrível, que vai apoiar a população LGBT, e esquecemos da interpretação que aquilo vai trazer. O primeiro ponto não é questionar como se escreve. Tem que pensar na mensagem, na notícia, no conteúdo que estamos desenvolvendo".

5 - "Como funciona a questão cerebral no caso da formação da psique e qual seria a diferença disso, caso exista?"

Um anônimo na plateia levantou a seguinte questão: "Como funciona a questão cerebral no caso da formação da psique e qual seria a diferença disso, caso exista. Afinal, a transexualidade foi classificada pelo CID (Código Internacional de Doenças)”. Gabriel diverge desta classificação e acredita que, com a evolução medica, a transexualidade em breve deixará de ser uma doença, assim como a orientação sexual deixou de ser. "A minha cabeça sempre funcionou do mesmo jeito, eu só tive que adequar o meu corpo a minha linguagem, a como eu gostaria de ser visto e lido para o que eu sempre fui. A questão trans é uma questão inerente ao ser. Não é uma opção, não é uma decisão. Ela é", explica.

6 - "O que as faculdades podem fazer além de palestras sobre o tema?"

E "o que as faculdades podem fazer além de oferecer palestras para dar visibilidade sobre o tema?”, pergunta Maria Kumagai, estudante de direito. Renata, por exemplo, acredita que é necessário discutir a questão de cotas. "Se você tem interesse que as travestis saiam da marginalidade onde a sociedade as colocou, a gente precisa criar algum mecanismo. As universidades poderiam reservar 2% de vagas para travestis. E sensibilizar o corpo docente para que as pessoas respeitem as diferenças", aponta.

7 - “Como o mundo corporativo deve se portar ou se preparar para uma recepção sem constrangimentos?”

Thiago Vaz, analista de Recursos Humanos, pergunta “como o mundo corporativo deve se portar / se preparar para uma recepção sem constrangimentos, lembrando que qualquer diversidade gera impacto e gera atração?”. Renata diz que "a primeira coisa que devem fazer é ter uma equipe de profissionais que possam trabalhar com capacitação", além de "sensibilizar primeiramente o RH". Maíra explica por sua vez que a diversidade não gera só impacto, mas principalmente "inovação e um ambiente mais criativo".

8 - "Qual a opinião de vocês em relação ao movimento a favor de separar o T do LGB?"

Maria Clara Nogueira fez a seguinte pergunta para os palestrantes: "Qual a opinião de vocês em relação ao movimento a favor de separar a “T” do LGB? Apesar de haver distinção entre orientação sexual e identidade de gênero, vocês não acham que o LGB-Cis e o LGB Trans podem fazer algum tipo de segregação para nosso maravilhoso vale?”. Renata explica que nem ela e nem movimento trans têm interesse nesta separação, mas sim que se entenda e se respeite as demandas diferentes do LGB.

9 - "Como a militância LGBT procura articular questões de gênero e diversidade com pautas sociais?"

Por fim, o professor Reinaldo Carneduto perguntou "como a militância LGBT procura articular questões de gênero e diversidade com pautas sociais (pobreza, riqueza, divisões de classe)" e como são vistos os problemas sociais em vínculo com questões de gênero. Maíra acredita que "as questões sociais não são discutidas da forma adequada", uma vez que muitas vezes a pessoa está focada "no universo LGBT que acaba esquecendo sobre casos horríveis" que deveríamos estar falando.

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