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Carta vazada, vinho na cara e reais alados: o Brasil Chatô voltou

Com uma pérola atrás da outra, o país está parecendo é com o dos anos de Chateaubriand

Carta vazada, vinho na cara e reais alados: o Brasil Chatô voltou

Sabe quando as cenas do novo capítulo têm cara de capítulo anterior? Assim está o caso de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) no Conselho de Ética. Na próxima terça-feira, o colegiado se reunirá no que será a sétima tentativa de discutir se diz "sim" ou "não" para o processo movido contra o presidente da Câmara. Repare: a acusação de que Cunha teria mentido na CPI da Petrobras e escondido dinheiro fora do país, nem começou a ser analisada. Por enquanto, a questão é só e tão somente decidir se o processo terá andamento. A paralisia e a sensação de déjà vu têm pesado tanto o clima que até o pronome de tratamento "vossa excelência", o mais querido de Brasília, está sendo deixado de lado nas sessões do Conselho, que, na quinta-feira, até em tapa acabou.

O “vossa excelência”, se faz necessário explicar, é um must de Brasília. Impossível, por exemplo, chegar numa votação no Plenário, num julgamento do Supremo Tribunal Federal, numa Comissão Parlamentar de Inquérito e sair tratando os outros por “você”. Tanto é que nem nos arranca-rabos mais ferrenhos do DF, o uso do pronome de tratamento é dispensável. Já teve “vossa excelência é moleque”, “vossa excelência é um safado” e – em um dos episódios mais tensos dos anais da Justiça, protagonizado por Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa – “vossa excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso”.

Não apenas um must, o “vossa excelência” é uma salvaguarda da seriedade brasiliense e, por isso mesmo, uma espécie de medida dos entreveros do Planalto Central. Se prescindido, perigo: a coisa é pra valer. É o que se viu nessa quinta-feira, em que os deputados Wellington Roberto (PR-PB) e Zé Geraldo (PT-PA) extrapolaram em muito essa medida, chegando, como se disse, de fato aos tapas. Ao ser acusado pelo petista de fazer parte da “turma do Cunha” que estaria lá para “bagunçar”, Roberto passou a gritar: “bagunceiro é você, bagunceiro é você”. No que poderia ser descrito como uma briga escolar, o "vossa excelência" foi para as cucuias, os dois trocaram safanões, precisaram ser contidos e a reunião acabou interrompida para que eles se acalmassem.

Este Brasil de agora está mesmo é com um quê de Brasil passado, quando o rei Chatô entrava em reuniões de peixeira na cinta

Brincadeiras à parte, com o episódio – só mais um dos que se avolumam nessa crise política com ares de roteiro de novela –, o Brasil de agora aparece com um quê de Brasil passado, quando o “rei” Assis Chateaubriand, dono de um império midiático no século XX, retratado no recém-lançado filme Chatô, entrava em reuniões de peixeira na cinta, botava governos de joelho e interrompia telenovelas para gritar toda sorte de impropérios contra seus opositores. Alguém há de dizer e a bem da verdade é necessário ressaltar, muitas das instituições brasileiras vão bem, obrigado, mas é inegável que entre o cômico e o trágico as coisas estão com um ar de Sensacionalista – site de humor famoso no Facebook que satiriza situações cotidianas.

Na quarta-feira, por exemplo, no melhor estilo “aloprado com dólares na cueca”, maços de notas de 50 reais voaram pelas janelas do apartamento de Rômulo Maciel Filho, diretor-presidente da Hemobrás, estatal investigada pela “Operação Pulso”, da Polícia Federal. Ainda não se sabe quem foi o responsável pelo momento “quem quer dinheiro” das Torres Gêmeas recifenses – sim, assim é conhecido o par de prédios mais alto, polêmico e, há quem diga, de qualidade estética mais do que duvidosa, da capital do Pernambuco –, mas ele aconteceu coincidentemente durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão.

Carta vazada, vinho na cara e reais alados: o Brasil Chatô voltou

É possível, o autor da façanha já viesse tendo pesadelos com a aparição de um tal “japonês bonzinho” da Polícia Federal do Paraná, quando avistou a batida chegando, desesperou-se e deu asas à dinheirama. Aliás, o “japa da PF” virou gif, samba e meme que, segundo a revista Época, anda circulando em ao menos dois grupos de WhatsApp frequentados por deputados do PMDB e da bancada da bala. Na montagem, o “japa” – também conhecido como agente Newton Ishii, que ganhou fama ao ser citado na gravação que levou o senador Delcídio do Amaral para o xilindró – aparece através de um olho mágico às 6 horas da manhã. Os deputados se divertem: “se ele aparecer, não abra a porta nem pensar!!”. Nesta segunda, a equipe de Sérgio Moro vai falar sobre uma nova denúncia da Lava Jato, lembrando que o pesadelo de Curitiba não acaba, com ou sem impeachment de Dilma.

O cai não cai da presidenta tem deixado os nervos à flor da pele, como ficou claro na festa natalina de confraternização entre senadores da base e oposição, na casa do líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE). Foi 100% Brasil versão Chatô. É só escolher: Michel Temer saindo de encontro pós-carta bombástica à presidenta e sendo bajulado por todos, Fernando Collor de Mello (PTB) abrindo o coração e falando sobre seu processo de impeachment, Aécio Neves (PSDB) voltando pra casa lá pelas duas da matina carregado de docinhos para a mulher.

E claro: José Serra (PSDB), incorporando o próprio Chateaubriand, e sendo, nas palavras de Kátia Abreu, “infeliz”, “desrespeitoso”, “arrogante” e “machista”. O tucano, como narrou reportagem de O Globo achou que seria de bom tom atravessar uma conversa e chamar a ministra da Agricultura de “namoradeira”. Para ele, uma “brincadeira com intenção de elogio”, para ela, um comentário digno de ser respondido com uma taça de vinho na cara. “A reclamação de vários colegas senadores sobre suas piadas ofensivas são recorrentes”, escreveu Abreu em seu Twitter. No final, até a esquerda, que trata a ministra por "rainha da motoserra" e não perdoa a presidenta por sua nomeação, teve que dar o braço a torcer e vibrar com ela.

Comentário a partir do minuto 5:30

E por falar em Senado e machismo, o que dizer do senador Hélio José? Em seu discurso de filiação ao novo Partido da Mulher Brasileira, saiu-se com essa: “O que seria de nós se não fosse uma mulher para nos dar alegria e prazer?”. E não fica por aí. Segundo o site Congresso em Foco, pesa no currículo do senador uma acusação (já arquivada) de ter abusado sexualmente de sua própria sobrinha. De qualquer modo, realmente, o espírito decoroso do “vossa excelência”, pelo jeito, anda bem longe das paragens do Centro-Oeste brasileiro.

Só que em meio à lavação de roupa suja tornada pública, reais voadores e vinho na cara, a face jagunço do Brasil Chatô anda passando despercebida. Em entrevista emocionada na última quarta-feira, o neófito deputado federal Fausto Pinato (PRB-SP), relator destituído da comissão do Conselho de Ética que julga Eduardo Cunha, contou ter vivido meses de terror e medo à frente da relatoria. “Cheguei a pensar que poderia morrer, sim. O que eu passei eu não desejo para ninguém. Me abordaram pedindo para eu pensar na minha família, dizendo que tenho filho pequeno, que tenho família”. Agora, ele só anda de carro blindado, é vigiado por seguranças e tem policiais militares dormindo em sua casa.

Quais demônios, oh Brasil, o "vossa excelência" não escondia? Caído ele, vão caindo também tantas outras convenções. Num último fôlego, porque chegamos ao final dessa semana vivos, rememoremos  esse país à flor da pele: rejeito de mineração que sepulta um doce rio; aumento de casos de microcefalia causados pelo novo Zika vírus, transmitido pelo mesmo mosquito da Dengue com o qual travamos batalha inglória há tantos anos; bomba nunca explicada no Instituto de um ex-presidente; banqueiros, políticos e empresários que passarão o natal no xadrez. E, no entanto, o brasileiro continua aqui: as mulheres em luta, os estudantes em luta, um país em aberto do qual ainda emergirá uma resposta, seja ela trágica ou não. Por ora, o absurdo é tão explícito que só se atendo ao cômico para lograr digerir.

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