Pandemia de coronavírus

De compras antecipadas a falta de infraestrutura, como estão os planos de vacinação na América Latina

Enquanto o Brasil segue com a indefinição em torno de seu programa, parte dos países compram doses antecipadamente e outros apostam em um consórcio para baratear os preços

Enfermeira segura frasco com a vacina Coronavac no hospital São Lucas, em São Paulo
Enfermeira segura frasco com a vacina Coronavac no hospital São Lucas, em São PauloDIEGO VARA / REUTERS

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Na terça-feira, o mesmo dia em que Margaret Keenan, uma britânica de 90 anos, recebia oficialmente a primeira vacina contra o coronavírus das mãos de uma enfermeira filipina, nas duas maiores metrópoles latino-americanas ―Cidade do México e São Paulo―, eram apresentados os esboços dos caminhos com que as autoridades locais pretendem proteger a saúde de seus cidadãos em meio à pandemia do novo coronavírus, um primeiro passo em um longo processo de imunização na região.

Enquanto alguns países foram selando acordos com diversos laboratórios para garantir vacinas a toda a sua população, outros depositam suas esperanças no Fundo de Acesso Global para Vacinas de Covid-19 (Covax), uma espécie de consórcio impulsionado em parte pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cujo objetivo é “acelerar o desenvolvimento e a fabricação de vacinas contra a covid-19 e garantir um acesso justo e equitativo a elas para todos os países do mundo”. Além de recursos financeiros, o Covax também garante às nações mais pobres uma espécie de acesso ou compromisso de compra antecipado (AMC, na sigla em inglês) financiado com verbas de ajuda internacional ao desenvolvimento. Mas cada governo é livre para adquirir pacotes de doses por conta própria.

Segundo os dados analisados pelo EL PAÍS, o Chile é um dos países com o maior estoque pré-adquirido de vacinas, mas três quartos delas são da chinesa Sinovac, que ainda aguarda o final dos testes de comprovação de eficácia. Já Equador e México, o país com a carteira de compras mais diversificada, selaram acordos com dois dos fornecedores que hoje parecem ser mais avançadas (o consórcio Oxford/AstraZeneca e Pfizer). O Brasil se mostra dividido entre a AstraZeneca e a Coronavac, a vacina da Sinovac. Argentina e Venezuela apostam principalmente no laboratório russo Gamaleya e seu projeto Sputnik V, que anunciou uma efetividade muito elevada, mas ao mesmo tempo gera dúvidas na comunidade científica pela falta de transparência do processo. Enquanto isso, países como Bolívia, El Salvador, Haiti, Honduras, Nicarágua e várias ilhas do Caribe receberão doses supridas pelo Covax, dado que, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), “sob critérios econômicos são os países mais pobres ou porque, por sua pequena população, têm mais dificuldade de acesso”.

Contamos a seguir, com a ajuda dos correspondentes do EL PAÍS na América Latina, como está a situação em diferentes partes da região:

Brasil

✍️ Por Beatriz Jucá

Há no Brasil uma intensa batalha política em torno da contratação e aprovação das vacinas contra a covid-19. O país, com vasta experiência em campanhas de imunização maciça, pode ficar para trás na corrida mundial enquanto os políticos competem pelos louros da vacina que decidiram patrocinar. O Governo Federal fechou acordos para comprar cerca de 300 milhões de doses em 2021. A maioria delas provém da grande aposta do presidente Jair Bolsonaro: a vacina de Oxford/AstraZeneca, da qual o Governo espera adquirir 260 milhões de doses ao longo do próximo ano. Outros 40 milhões de doses viriam através do Covax. Mas o Brasil, inicialmente, só previa começar seu plano de vacinação em março: espera-se que as primeiras 15 milhões de doses da AstraZeneca cheguem ao país em janeiro, mas seu processo de autorização poderia levar 60 dias.

Esse atraso na distribuição da vacina provocou reações de políticos opositores e especialistas. O governador de São Paulo, João Doria, já tem um acordo de transferência de tecnologia e aquisição de doses da Coronavac, a vacina do laboratório chinês Sinovac, cujo plano de distribuição foi anunciado nesta terça, mas foi rejeitado publicamente por Bolsonaro, adversário político do governador paulista. Embora o medicamento ainda não esteja registrado, Doria anunciou que iniciará a campanha em 25 de janeiro. Pretende imunizar nove milhões de pessoas, mas necessita pelo menos de uma autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), onde Bolsonaro colocou cada vez mais aliados em posições estratégicas. Outros governadores pressionaram o presidente para que a disputa política não provoque mais atrasos na campanha de vacinação, tentaram comprar doses por sua conta, inclusive recorrendo ao Supremo Tribunal Federal para solicitar autorização para a vacina caso a Anvisa se negue a dá-la.

Diante da presão, no entanto, o Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, começou a falar em iniciar a vacinação mais cedo, ainda em dezembro, caso consiga adquirir doses do imunizante da Pfizer por meio de um regime de urgência. Na terça-feira, ele anunciou que o país negocia a compra de outros 70 milhões de doses dessa vacina. O medicamento da Pfizer tinha sido originalmente descartada por necessitar de ultracongeladores, não disponíveis no sistema sanitário brasileiro, mas o Governo afirma estar trabalhando na aquisição de freezers, seringas e agulhas.

México

✍️ Por Elías Camhaji

O México tem acordos de intenção de compra para 198 milhões de vacinas, embora neste mês só deva receber 250.000 doses da Pfizer. O objetivo inicial era imunizar 2,6 milhões de pessoas em uma primeira onda de vacinação, entre dezembro e janeiro, mas o fluxo levará mais tempo, com envios de um milhão de doses por mês durante o primeiro trimestre de 2021. Por sua vez, o presidente Andrés Manuel López Obrador prometeu que a vacina será gratuita e universal para os 127 milhões de mexicanos.

Espera-se que o produto da Pfizer seja aprovado em meados deste mês, dias depois de os reguladores norte-americanos o autorizarem, e que a vacina chinesa da CanSino também receba sinal verde nas próximas semanas. O México negociou em outubro a compra de até 34,4 milhões de doses da Pfizer; 77,4 milhões da Oxford/AstraZeneca, 35 milhões da CanSino e 51,5 milhões através da iniciativa Covax, com o que poderá ter acesso à vacina de Moderna, a mais cara entre as disponíveis. A Rússia quer mandar até 32 milhões de doses para o país, embora conversas formais para a aquisição ainda não tenham acontecido. Além disso, o laboratório Jansen já começou ensaios de fase 3 do seu protótipo no México, enquanto a Novavax e a Curevac também estão em trâmites no país.

América Central

✍️ Por Wilfredo Miranda

Na América Central, a Costa Rica e o Panamá são os países mais avançados na busca por imunizar a população contra a pandemia. O governo do presidente costa-riquenho, Carlos Alvarado, assinou um contrato de fabricação da vacina contra a covid-19 com o consórcio Pfizer/BioNTech. Prevê-se o fornecimento de três milhões de doses dessa vacina, o que permitiria proteger 1,5 milhão dos 4,9 milhões de habitantes do país. Já o panamenho Laurentino Cortizo anunciou em novembro um acordo com a Pfizer para adquirir 4 milhões de dose da vacina, num país de 4,2 milhões de habitantes.

Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele anunciou um acordo com o laboratório AstraZeneca para a compra de dois milhões de doses de uma vacina contra a covid-19 a partir do primeiro semestre de 2021.

A Guatemala, o país mais povoado do istmo centro-americano, com mais de 17 milhões de habitantes, tem 3,3 milhões de vacinas garantidas graças ao mecanismo Covax.

Honduras e Nicarágua, considerados os dois países mais pobres da região, não têm um plano claro para obter o antídoto contra o coronavírus, mas centram suas esperanças em que a comunidade internacional os subvencione. Até hoje, a principal aposta da América Central, recentemente golpeada com dureza pelos furacões Eta e Iota, é a proposta da iniciativa Covax, da OMS. Na Nicarágua, a incerteza sobre as vacinas é maior, devido ao obscurantismo do regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo.

Região andina

✍️ Por Santiago Torrado, Florantonia Singer, Sara España e Jacqueline Fowks

Na Colômbia, as autoridades optaram por combinar uma estratégia multilateral e várias bilaterais – das quais não foram revelados os detalhes. O país, de quase 50 milhões de habitantes, é parte do Covax, um mecanismo pelo qual 10 milhões de pessoas terão vacinadas asseguradas, provavelmente no segundo semestre de 2021. Além disso, Bogotá mantém negociações bilaterais confidenciais com seis laboratórios cujas vacinas estão pelo menos na fase 3 de desenvolvimento (Pfizer, AstraZeneca, Janssen, Sinopharm, CanSino e o Serum Institute da Índia). Nesses casos, esperam obter mais cinco milhões para o primeiro semestre do 2021, com o que completariam a primeira fase de vacinação contra a covid-19.

Na Venezuela, Nicolás Maduro planeja iniciar uma vacinação maciça contra a covid-19 a partir de abril e assegurou a imunização de pelo menos 10 milhões de pessoas. O governo venezuelano apostou no produto desenvolvido por seus aliados russos, a Sputnik V, da qual desde outubro foram trazidas doses de teste para 2.000 voluntários venezuelanos. Assim, a Venezuela foi o primeiro país da América Latina a provar esse medicamento questionado no mundo científico pela falta de transparência e inconsistência nos dados das primeiras duas fases do desenvolvimento do Centro Nacional Gamaleya, publicadas na revista científica The Lancet. Não se conhecem os resultados desta fase nem quem as recebeu.

A Venezuela informou que não só vacinará como também participará de sua produção em uma fábrica em Caracas. Embora o mandatário se mostre otimista com a chegada das vacinas russas, o esquema básico de imunizações está em xeque. O país ficou fora do programa Covax por causa das dívidas que acumula com o organismo, 11 milhões de dólares desde 2017. Este poderia ser um entrave adicional para obter linhas de crédito para a aquisição de vacinas contra a covid-19.

O Governo do Equador afirma que começará a vacinar em janeiro os profissionais sanitários que estão na linha de frente e os idosos que vivem em asilos. Segundo o planejamento do ministro da Saúde, Juan Carlos Zevallos, a distribuição de vacinas de forma maciça para o resto da população só começará em março. As primeiras 50.000 doses que chegarão ao país andino serão do consórcio Pfizer/BioNTech. As autoridades afirmam, além disso, que houve negociações com quatro distribuidores para ter acesso à vacina: a Covax da OMS, a AstraZeneca, a Moderna e a Covaxx (divisão da americana United Biomedical).

O Peru adquiriu as primeiras vacinas da Pfizer/BioNtech e espera a entrega, no final de dezembro ou em janeiro, de um primeiro lote para administrar duas doses a 25.000 pessoas em março ou abril, informou a ministra da Saúde, Pilar Mazzetti, a uma comissão do Congresso nesta terça-feira. Além disso, o Governo peruano negocia a compra de outras 26,8 milhões de doses com a Gamaleya, Covaxx, Astra Zeneca, Janssen e Sinopharma – as duas últimas fazem ensaios clínicos de fase 3 no país sul-americano.

A Bolívia é um dos países que terão acesso prioritário e gratuito ao plano da Covax, e até o momento não há notícia sobre outros acordos. No mês passado, o ministro da Saúde, Edgar Pozo, disse que tinha desenvolvido “contatos frutíferos” com organismos internacionais para aplicar gratuitamente a vacina contra o novo coronavírus no primeiro trimestre de 2021, e que o pessoal sanitário e os grupos vulneráveis teriam prioridade. Além disso, afirmou que o país tinha “duas ou três alternativas interessantes”, entre elas as vacinas de Oxford e a russa Sputnik V.


Cone Sul

✍️ Por Federico Rivas Molina y Rocío Montes

A Argentina adquiriu 47 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 (22 milhões compradas da AstraZeneca e 25 milhões da Sputnik V, do Instituto Gamaleya), suficientes para imunizar 60% da sua população. O Governo de Alberto Fernández mantém, além disso, negociações com a Pfizer e a Janssen, duas empresas que já fizeram ensaios clínicos no país sul-americano, o primeiro desde agosto, e o segundo a partir de novembro.

Em agosto passado, a AstraZeneca e a Universidade de Oxford anunciaram um acordo com a Casa Rosada para produzir no laboratório argentino mAbxience o princípio ativo de sua vacina, um passo prévio à sua embalagem no México e distribuição na América Latina. Espera-se que as entregas comecem no início do ano que vem. O Executivo peronista anunciou dias atrás o início de um plano de vacinação de grupos de risco durante a primeira quinzena de janeiro. Alberto Fernández disse que esperava que até março estejam vacinadas 10 milhões de pessoas, numa população total de 44 milhões.

O Chile pretende começar a vacinação contra a covid-19 no primeiro semestre de 2021, conforme anunciou o presidente Sebastián Piñera, no marco de um plano que contempla a imunização de 15,2 milhões de chilenos. Perto de Natal desembarcarão as primeiras 25.000 doses do laboratório norte-americano Pfizer, seguidas imediatamente por outras 25.000. Além disso, antes de 15 de janeiro chegarão mais 2 milhões de doses do laboratório chinês Sinovac. Ao todo, serão algo mais de 2 milhões de vacinas na etapa inicial. A imunização será voluntária e gratuita, e haverá três grupos prioritários: os trabalhadores da saúde, do transporte e das Forças Armadas e policiais.

“Obtivemos acordos ou assinamos contratos com muitos laboratórios entre os mais promissores do mundo, como por exemplo Pfizer, Sinovac, Johnson & Johnson, AstraZeneca e outros. Adicionalmente, há meses fazemos parte do Covax”, disse Piñera, que no sábado foi visto numa praia, na companhia de outras pessoas e sem máscara, e diante da polêmica optou por se autodenunciar à Justiça. Se o plano de vacinação funcionar de acordo com o previsto pelo Governo, no primeiro trimestre de 2021 haverá 5,8 milhões de pessoas vacinadas.

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