Pandemia de coronavírus

Na Alemanha, um coquetel extremista e conspirador contra uma suposta nova ordem mundial

Negacionistas, conspiracionistas, a ultradireita e cidadãos comuns se unem nos protestos contra as restrições pelo coronavírus no país europeu

Manifestantes radicais durante um confronto com a polícia no centro de Berlim, em 9 de maio.
Manifestantes radicais durante um confronto com a polícia no centro de Berlim, em 9 de maio.FILIP SINGER / EFE

Estão unidos por seus inimigos. São multidões de pessoas heterogêneas e irritadas, que compartilham a sensação de serem vítimas das elites globais, que estariam utilizando a irrupção de um novo vírus como pretexto para enriquecer e reduzir as liberdades “do povo”. Milhares de pessoas saem às ruas nas cidades alemãs contra a “ditadura do corona”, num amálgama ideológico que transcende com sobra a divisão esquerda/direita. Representam uma exígua minoria, mas fazem um ruído que já é ouvido com preocupação dentro das paredes do Bundestag, o Parlamento. Ameaçam se tornar um novo tipo de movimento populista, enfrentado os partidos tradicionais. A extrema direita, desconcertada com a pandemia, vê no descontentamento popular uma oportunidade política que não pretende desperdiçar.

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Georg Gierasch, um motorista de 43 anos, recém-desempregado, chega a uma das manifestações convocadas em Berlim carregando nas costas um cartaz que diz “Widerstand [resistência] 2020”, o nome de um novo grupo que aglutina parte do descontentamento, junto a um lema: “Deixem sermos diferentes, chegou a hora”. Gierasch conta por que se manifesta os fins de semana na praça Rosa Luxemburg, em Berlim. “Cortam nossos direitos e nossa liberdade de movimento por causa de uma gripe. Tampouco temos liberdade para pensar. Só se pode pensar o que diz o Governo, e isso nos dá medo.” Ao fundo, a polícia grita em vão pelo alto-falante: “Distância, distância!”.

Gierasch compartilha um temor adicional com muitos que levam sua irritação à rua nos últimos dias. “O Governo trabalha em uma vacina com Bill Gates e depois obrigará todos a usarmos. Quem não tiver será discriminado para tudo na sua vida profissional, para viajar…”. Gates é, para os adeptos das teorias da conspiração, o rosto visível do mal, o homem a quem alguns acusam inclusive de criar a covid-19 para vender milhões de vacinas. Que a vacina em questão não exista não parece ser um impedimento para que as teorias conspirativas ganhem terreno.

A crescente presença de mensagens antissemitas é outro dos ingredientes desse coquetel conspirador que fez soar os alarmes. Alguns manifestantes aparecem com uma estrela amarela na lapela, a insígnia com que os nazistas assinalavam os judeus, com mensagens impressas como “sem vacinar”. “Qualquer um que participe de uma manifestação contra a restrição de direitos fundamentais deve estar consciente ao lado de quem o faz e que tipo de mensagens é propagada ali”, afirmou Josef Schuster, presidente do Conselho Judaico na Alemanha, advertindo contra tentativas de banalizar o Holocausto.

Alguns metros adiante, um casal de jeito hippie, com seus filhos, declaram ser contra as vacinas. “Achamos que as medidas são só uma desculpa para fazer o que querem, para implantar uma ditadura sanitária e um Estado policial em que as vacinas sejam obrigatórias”, diz ela. “O coronavírus não é mais perigoso que qualquer outra gripe. Isto é tudo um grande teatro”, acrescenta ele, que tampouco quer que seu nome apareça. É a terceira vez que participam do protesto semanal. Saíram de Mecklemburgo-Pomerania Ocidental, no norte do país, carregados com bolachas em forma de Constituição alemã e nas quais se podem ler o artigo 5º, sobre liberdade de opinião, e o artigo 20, que inclui o direito à resistência contra tentativas de abolir a ordem constitucional. No próximo sábado, contam, não pretendem viajar até Berlim, porque na sua região já há gente suficiente para convocar um protesto local. Junto com militantes de causas mais ou menos estrambóticas, há simples cidadãos comuns que manifestam sua frustração perante a nova realidade.

Os que saem à rua são uma clara minoria em um país onde em geral os cidadãos vêm apoiando a gestão governamental. As pesquisas começam a mostrar, entretanto, certa fadiga no apoio às restrições. E isso apesar de na Alemanha não haver quarentena oficial e ser permitido sair à rua a qualquer momento. O controle alemão da pandemia é percebido em muitos países como exemplar: o sistema de saúde não se paralisou em nenhum momento, e o número de mortos, 7.634, é comparativamente muito menor que em outros da Europa. Em parte por isso, a vivência de uma pandemia, que muitos percebem como algo longínquo, que não tem a ver nem com si nem com sua família, poderia acabar transformando a Alemanha em vítima de seu próprio sucesso.

A extrema direita, que não acaba de encontrar um rumo político numa crise que reforçou os partidos tradicionais, também está muito presente nos protestos. Podem ser concentrações, mas também passeios em grandes grupos que se multiplicam pelo país, desafiando as regras da manutenção da distância. Às vezes como organizadores, e outras como simples participantes, sem ocultar sua simpatia pelos protestos que alimenta. Apresentam-se como guardiães das essências democráticas e do respeito à vontade popular, frente ao que consideram um rumo autoritário do Governo de Angela Merkel. Oferecem, além disso, um ombro amigo capaz de empatia com as preocupações do cidadão comum.

Gunnar Lindemann, deputado do Alternativa para a Alemanha (Afd) no Parlamento regional do Berlim, já participou de três manifestações. “Vou para conversar com as pessoas. Agradecem muito que haja um deputado que vá escutá-los e as leve a sério”, diz Lindemann por telefone. Esse político acredita que as medidas para frear a propagação do vírus “destroem a economia” e considera que “é preciso olhar para a Suécia”, país que, sem confinamento e com escolas e bares abertos, se tornou a meca dos negacionistas do coronavírus.

A Afd não quer perder esse trem de descontentamento popular, depois de ter se desinflado nas pesquisas. A exploração da crise dos refugiados perdeu tração, e a oposição às políticas climáticas não ganhou a força esperada. A própria Alice Weidel, colíder da bancada da Afd, esclarecia a linha partidária na quinta-feira, em um comunicado em que acusava o Governo de querer implantar uma “carteirinha de imunidade, que, uma vez introduzida, também abrirá caminho para a discriminação arbitrária em muitas outras áreas”. E acrescentava: "A crise do coronavírus não deve ser usada para criar gradualmente um estado de vigilância”.

Populismo de manual

Além das motivações de cada um, os protestos alemães emanam populismo clássico no fundo e na forma. Os que saem à rua professam um desprezo pelas elites e em geral por tudo que cheire a establishment, incluindo cientistas e os meios de comunicação tradicionais, vistos como cooperadores necessários para criar um estado de medo que justifique as medidas.

“É perigoso, porque estão tratando de implantar uma nova narrativa através de teorias da conspiração que dizem que gente como Bill Gates quer implantar uma nova ordem mundial. As pessoas estão passando mais tempo em casa, conectadas ao computador, e a rede nesta crise está muito mais cheia de fake news”, diz Sandro Witt, pesquisador da associação Mobit, especializada em estudar o extremismo de direita.

Fóruns alternativos da Internet são a correia de transmissão da informação falsa. Facebook, Telegram e YouTube são os principais canais onde se repetem argumentos voltados contra o Governo alemão, mas com vocação global. A conspiração é global, e os poderosos, dizem, esmagarão ainda mais os de baixo. São muito evidentes quais as fontes de onde bebem ao falar com as pessoas nas ruas, porque muitos repetem os argumentos que circulam pela rede de forma quase literal.

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