Maré chilena puxa protestos e milhões de mulheres mostram sua força nas ruas da América Latina

No dia 8 de março, Chile, México e Argentina lideraram protestos pelo fim da violência machista, igualdade de oportunidades e o direito ao aborto

Manifestação em Santiago no dia 8 de março de 2020.
Manifestação em Santiago no dia 8 de março de 2020.JAVIER TORRES / AFP
Cidade do México / Santiago / Buenos Aires / Lima / Bogotá / Guayaquil / Caracas / São Paulo - 09 mar 2020 - 14:29 UTC

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A luta pela igualdade entre mulheres e homens levou no dia 8 de março milhões de mulheres a protestar nas principais cidades da América Latina. A mobilização de 2020 foi das maiores dos últimos anos na região pela exacerbação das condições que deixaram historicamente em segundo plano a população feminina. O Chile, o México e a Argentina lideraram os protestos para exigir o fim da violência machista, igualdade de oportunidades e o direito ao aborto. A situação política e social da América Latina durante os últimos anos levou à organização das mulheres para pedir seus direitos.

As ruas se pintaram de verde e roxo e os gritos de “A América Latina será toda feminista” ecoaram nas principais capitais da região. As manifestações foram marcadas dessa vez por um crescente descontentamento e o pedido aos Governos latino-americanos para que melhorem as condições de vida da metade da população. As exigências são cada vez mais fortes diante da denúncia de que os Estados pouco fizeram para aumentar a qualidade de vida das mulheres. A maioria dos presidentes latino-americanos não possui perspectiva de gênero para criar seus programas de Governo e poucas vezes se interessaram em legislar a favor delas.

Os protestos no Chile contra o Governo de Sebastián Piñera, que causaram uma revolta popular no final do ano que ainda se mantém viva, mostraram o poder das mulheres que levam adiante significativamente as mobilizações da explosão social. O rosto mais visível do esforço das chilenas e sua contribuição às manifestações mundiais foi a difusão de Um Estuprador em Seu Caminho, um canto que denuncia a violência sexual sofrida pelas mulheres e a responsabilidade de diversas figuras da sociedade pelo machismo sistêmico. Desde então, as chilenas têm sido referência ao restante das latino-americanas que replicam algumas de suas consignas em suas cidades.

No México o aumento dos feminicídios acabou com a paciência das mexicanas. Milhares de mulheres ocuparam as ruas do país em uma manifestação histórica. Por dia, em média, 10 mulheres são assassinadas por motivo de gênero. A mobilização das mulheres nesse país foi aumentando nos últimos meses pela permanente impunidade nos casos de feminicídio. A crueldade dos casos indignou as mexicanas e após tornarem-se públicas as histórias das mulheres assassinadas, as manifestações foram mais numerosas. O Governo mexicano apoiou os protestos através das secretárias [ministras] de Estado, mas o presidente Andrés Manuel López Obrador se recusou a posicionar-se sobre as mobilizações feministas.

Além do protesto, as mexicanas convocaram uma paralisação nacional de mulheres na segunda 9 de março. Sendo 40% da força de trabalho e com uma brecha salarial de 34% também pedem igualdade de oportunidades, em um país em que metade da população vive em condição de pobreza.

Uma maré de chilenas protestam no 8-M

Uma maré de chilenas saiu no domingo para marchar: dois milhões de pessoas, de acordo com a Coordenadora 8-M, e 125.000 somente em Santiago, de acordo com os números oficiais dos Carabineiros, no país de 18 milhões de pessoas. Foi uma marcha familiar, em que vieram mulheres de todas as gerações, mas principalmente jovens, que se deu majoritariamente de forma pacífica. Foi convocada para o meio-dia com início na região da Praça Itália da capital – o epicentro dos protestos sociais desde 1 de outubro, rebatizada pelas pessoas como Praça Dignidade –, em que as mulheres começaram a chegar de manhã cedo. Foram com símbolos como o lenço verde que a Argentina exportou ao mundo, vestidas de roxo – a cor tradicional das lutas feministas –, os capuzes roxos que as chilenas confeccionaram como símbolo de seu protesto pela igualdade e com centenas de cartazes. “Juntas fazendo história. É preciso continuar. Queremos mais!”, lia-se em uma faixa.

O 8-M encontrou um país em um intenso processo de mobilização social que se prepara para um plebiscito sobre a Constituição em 26 de abril. “Não somos princesas. Somos constituintes”, lia-se em um cartaz de uma mulher. No pedido por bens sociais de maior igualdade e com as instituições democráticas no chão – os partidos políticos de todos os setores, o Congresso, o Governo, o Ministério Público –, o movimento feminista foi protagonista nas mudanças no Chile. A maciça marcha de março de 2019 foi, segundo muitas mulheres, o primeiro antecedente da explosão social de outubro. Em novembro, o coletivo feminista Lastesis conseguiu dar um novo ar aos protestos com sua instalação artística O Estuprador é você, um grito contra o patriarcado que ultrapassou as fronteiras, dedicada especialmente aos carabineiros [o corpo de polícia ostensiva do Chile]. Nesse dia de marchas, as autoridades chilenas decidiram levar às ruas principalmente mulheres policiais.

A nova onda feminista chilena, protagonizada pelas jovens na casa dos vinte anos, é um movimento diversificado, múltiplo e, algumas vezes, inclassificável. As mulheres se organizam em agrupações de dança, artes visuais e cênicas, música, bordados, o ciclismo e a patinação, em um exercício coletivo de criatividade que no domingo foi exibido nas ruas de Santiago e de outras cidades do país. Com inequidades em todas as frentes – nas aposentadorias, os salários, a saúde –, nessa convulsão social as chilenas utilizaram imagens de mulheres fundamentais na história de seu país, como a poeta Gabriela Mistral. A imagem da escritora que obteve o Prêmio Nobel de Literatura em 1945, quando no Chile ainda não tinham direito a votar, foi vista nesse dia em muitos cartazes das manifestantes.

La Alameda, a principal avenida de Santiago, ficou lotada de mulheres, em um dia especialmente quente, de 30 graus em pleno verão. Em frente ao Palácio de La Moneda ocorreram incidentes menores entre manifestantes e a polícia, que utilizou seu carro lança-águas para dissolver um pequeno grupo que tentava ultrapassar as grades de proteção à sede do Governo. Foi no histórico edifício em que o presidente Sebastián Piñera, mas de manhã cedo, liderou as comemorações do Executivo pelo Dia Internacional da Mulher. Após pedir um minuto de silêncio pelas seis mulheres vítimas de feminicídio em 2020, anunciou que dará máxima urgência ao projeto de lei que acaba com as discriminações entre homens e mulheres na administração da sociedade conjugal e o que elimina “a injustificada” espera de 270 dias que afeta as mulheres que querem se casar de novo após um divórcio.

Argentina e a luta por uma lei de prazos

A Argentina deixou os protestos para segunda-feira 9 de março sob o lema Pela autonomia de nossos corpos e contra os fundamentalismos religiosos. No domingo, entretanto, o movimento feminista convocou uma manifestação em frente à catedral de Buenos Aires a favor do aborto legal, seguro e gratuito para contestar a missa convocada contra o movimento pela Igreja católica argentina no principal santuário do país, a basílica de Luján. Em 2020, a reivindicação central dos movimentos feministas é conseguir uma lei de prazos à interrupção voluntária da gravidez que transformaria a Argentina no primeiro grande país da América Latina a legalizar o aborto, como já o fizeram o Uruguai, Cuba, Guiana e a capital mexicana.

O presidente argentino, Alberto Fernández, enviará nessa semana o projeto de lei que será debatido pelos legisladores das duas câmaras. Será a nona tentativa de mudar o Código Penal vigente, que pode dar penas de até quatro anos à mulher que aborta com exceção de caso de estupro e de risco à saúde, mas é a primeira vez que a iniciativa parte do Poder Executivo e não da sociedade civil.

As mulheres argentinas também sairão às ruas em 9 de março para exigir medidas contra os feminicídios. Apesar da mobilização social desde a maior intensidade do Ni Una Menos, em 2015, esses crimes não diminuíram. Ainda sem dados oficiais, a ONG Casa do Encontro informou que 299 mulheres foram assassinadas no ano passado pelo fato de ser mulheres, o que significa um aumento de quase 10% em relação a 2018. Em 2020 foram registrados 68 feminicídios, entre eles alguns que chocaram a opinião pública por sua crueldade, como o de Brenda Micaela Gordillo, assassinada e depois esquartejada e queimada supostamente por seu namorado, de 19 anos.

Clamor pelo aborto livre na Colômbia

Também na Colômbia, milhares de pessoas, em sua imensa maioria mulheres jovens, marcharam pelas ruas do centro de Bogotá com um marcado protagonismo do clamor pelo direito ao aborto livre e seguro. Abundavam os lenços verdes, o símbolo que popularizou o movimento na Argentina, e roxos, a cor tradicional das lutas feministas, entre uma colorida multidão salpicada por algumas mulheres mascaradas e outras com os seios descobertos. No percurso, com evidentes ecos da reavivada discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez, junto com o animado ritmo das percussões retumbavam cânticos e lemas como “é preciso abortar esse sistema patriarcal”, “tirem seus rosários de nossos ovários, tirem suas doutrinas de nossas vaginas”, “venham ver, eles não são pró-vida são somente antimulher” e “os fornecedores de aborto seguro são heróis!”.

“Estou marchando por quero me sentir segura em qualquer lugar em que esteja, uma mulher livre, forte e segura de mim”, disse Fernanda Chacón, uma joalheira e futura ourives de 26 anos, enquanto segura em sua mão, com um lenço verde amarrado no pulso, um cartaz que diz “nascemos para transformar”. Ainda que não pertença a nenhum coletivo, participou no final do ano passado da onda de protestos contra o Governo de Iván Duque que abalaram o país. Nesse amplo amálgama de pedidos também estiveram presentes algumas reivindicações feministas, mas essa mobilização social arrefeceu com o começo do novo ano.

Em um episódio muito mais fresco na memória das manifestantes, a Corte Constitucional retomou nesse ano o intenso debate sobre o aborto, que na Colômbia é legal há 14 anos em três circunstâncias: se a gravidez é um perigo para a vida e a saúde da mulher, exista grave má-formação do feto e a gravidez é resultado de estupro. Ainda que um pedido exigisse a volta de sua penalização, e várias vozes a consideravam uma oportunidade para legalizá-lo sem restrições, a Corte decidiu no começo do mês deixar as coisas como estavam ao se declarar impedida.

“É um símbolo que adotamos”, diz María Vallejo, uma antropóloga de 33 anos, sobre o lenço verde em seu pescoço. “Temos mais direitos do que nossas mães e avós tiveram, mas continuamos marchando porque acreditamos que é preciso conquistar outros lugares, que a sociedade ainda precisa aprender e se transformar. Parte disso tem a ver com colocar as questões em cima da mesa. Em termos de direitos precisamos de um aborto livre. Mais do que uma luta pró-aborto, como a chamam, é pelo direito de decidir, para que os que nascem sejam desejados”, acrescenta enquanto leva pelas mãos sua filha de 10 anos.

Marcha jovem no Peru

O Peru se antecipou ao dia e aproximadamente 10.000 pessoas se manifestaram no sábado em Lima. Apesar de a manifestação ter como lema Trabalhadoras, sim; exploradas e estupradas, não, a maioria dos cantos e cartazes pedia diretamente o fim da violência de gênero. “Tenho mais possibilidades de morrer por ser mulher do que pelo coronavírus”, era uma das mensagens. No primeiro bloco da caminhada, participaram a fotojornalista peruana Beatriz Suárez e familiares de mulheres vítimas de feminicídio e desaparecidas, como Rosario Aybar, mãe da ativista feminista Solsiret Rodriguez desaparecida em 2016.

Edward Alvarado López participou pela primeira vez de uma manifestação do 8-M. Caminhava com sua esposa e seus dois bebês. Em agosto desapareceu sua irmã, Karin, de 40 anos, e a única resposta da Promotoria é que “o caso está em investigação”. Como em outras dezenas de casos, Alvarado se queixa de que a própria família está investigando por sua conta.

A marcha do 8-M foi nesse ano predominantemente jovem e adolescente. A congressista eleita e advogada Arlette Contreras disse ao EL PAÍS que as medidas tomadas pelo Executivo até agora para abordar os problemas de violência de gênero “não tiveram maior impacto”. “Pedimos ao presidente, Martín Vizcarra, uma declaração de emergência para que os três poderes do Estado trabalhem articuladamente contra a violência de gênero”. Contreras também é ativista e uma vítima da violência machista.

Equador contra a desigualdade

Sem ser tão barulhentas e numerosas como as marchas de outros países da América Latina, as manifestações do Equador têm as mesmas reivindicações. Não só é preciso materializar essa igualdade de gênero que está nas leis, como combater de verdade a violência machista, garantir as mesmas oportunidades de trabalho, educacionais e a saúde sexual e, principalmente, fazer com que o Estado utilize políticas e recursos para reduzir a desigualdade.

Em Quito, três colunas com centenas de mulheres se mobilizaram na manhã de domingo pelas ruas da cidade para confluir na central praça de Santo Domingo. Mas a polícia colocou agentes mulheres para custodiar e impedir o acesso à Praça Grande, onde está o Palácio do Governo, diante da chegada das manifestantes que traziam tantos cartazes como reivindicações por conquistas. “Não importa quem governe, a operária sempre perde”, dizia um dos cartazes, cercado de outros que falavam das mulheres assassinadas por seus companheiros e da falta de reconhecimento do trabalho não remunerado do lar e a sensação de insegurança e assédio.

Guayaquil passou à frente de tarde sob o lema Greve de cuidados que critica a falta de reconhecimento e remuneração das tarefas de casa. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, essa força de trabalho representaria 14,5% do Produto Interno Bruto se fosse incluída como atividade produtiva nacional: mais de 15 bilhões de dólares (70 bilhões de reais).

Venezuelanas contra o feminicídio

Em Caracas, as mulheres estavam vestidas de preto e exibindo cartazes em formatos de lápides. Yuleimar, Sonia, Alicia, Romina, Katherine, Belkys, menina, mulher anônima, Gabriela, Rosario, Luisanny, Rosbeilys e outras até nomear as 44 vítimas de feminicídio de 2020, por quem pediram justiça no 8-M na Venezuela. Os epitáfios se transformaram em consignas para mostrar o feminismo não como uma tendência, e sim como uma urgência.

“O Estado não cuida de mim, minhas amigas cuidam”, “Em um Estado feminicida, estar vivas é rebeldia”, “O silêncio estimula o carrasco”, “Ontem era amor, hoje é feminicídio”, “Não é um crime passional, é um feminicídio”, “As mulheres são mortas diante de nosso olhos”, foram algumas das mensagens gritadas por dezenas de mulheres e alguns homens pela movimentada avenida de Sabana Grande, no centro da capital.

Sua passagem trazia o silêncio, as fotos, poucos aplausos, algumas brincadeiras que foram deixadas para trás e a cuidadosa vigilância de policiais, que insistiram em esclarecer se era um protesto político e obrigaram a conter o protesto nas calçadas. “Veio mais gente, há mais mulheres comprometidas e conseguimos o objetivo de visibilizar as mortes de todas as que nos faltam, porque ainda há gente que não sabe o que significa o feminicídio”, disse Nohelia Urbina, de 23 anos, fundadora da rede feminista Uquira, uma das organizadoras da caminhada feminista.

Brasileiras protestam contra Bolsonaro

As mobilizações feministas marcaram o Dia Internacional da Mulher no Brasil, um país com mais de 210 milhões de habitantes e no qual mais da metade são mulheres. As brasileiras protestaram contra o feminicídio. O gigante sul-americano é o quinto país com mais assassinatos de mulheres no mundo. O protesto também foi dirigido contra o Governo de Jair Bolsonaro, que tem caprichado em declarações machistas e na perseguição a mulheres jornalistas, sob a concordância da ministra e pastora Damares Alves, que, em tese, representa a todas as mulheres à frente da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Em São Paulo, a chuva desencorajou muitas mulheres a protestar e o número de manifestantes foi menor do que em 2019, informaram os organizadores. Os primeiros números mostraram que 10.000 mulheres marcharam neste domingo em comparação com quase 60.000 no ano passado. “Eu não pararia de vir por causa da chuva”, disse Natalia, uma jovem professora que usava uma camisa que dizia “Lute como Marielle Franco”, referindo-se à vereadora negra e lésbica, assassinada há dois anos.

Duas artistas chilenas com os corpos pintados com a bandeira do seu país chamavam a atenção. Violeta Molinet e Natalia Ahumada decidiram viajar ao Brasil neste #8M para denunciar a violência contra as mulheres no seu país, governado pelo presidente Sebastián Piñera. Estranhavam o fato de homens participarem da marcha, diferente do seu país, onde só mulheres se juntam à marcha. “A gente nunca sabe se está caminhando ao lado de alguém que violenta mulheres, ou abusa de uma amiga sua”, refletia Violeta.

As mulheres em São Paulo marcharam por quatro horas com bandeiras contra a violência contra as mulheres e em prol de maior visibilidade das mulheres negras, que representam 23,4% da população brasileira. Se o machismo afeta mulheres brancas, é muito pior com mulheres negras.


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