Futebol feminino

América Latina mantém acesa a chama do futebol feminino, apesar da pandemia

Brasil, Chile e México, mesmo com o machismo e a disparidade salarial arraigados nos clubes, mostram maior solidez em seus projetos na região

Cidade do México / Lima / Bogotá / São Paulo - 12 mar 2021 - 02:41 UTC
As jogadoras do Boca Juniors depois de vencer o campeonato, em janeiro.
As jogadoras do Boca Juniors depois de vencer o campeonato, em janeiro.Juan Roncoroni / AP

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Eles jogam nos grandes estádios, elas, nos campos de treino. Eles ganham milhares de dólares, elas precisam ter um segundo emprego para sobreviver. O futebol feminino na América Latina está decolando lentamente em alguns países. A desigualdade prejudica o crescimento do esporte na região e a pandemia de covid-19 tem sido um duro golpe, mas as jogadoras de futebol mantêm a chama acesa.

“Os clubes têm que fazer a sua parte pelo futebol feminino. Quem joga futebol no Peru é porque realmente gosta muito, porque não é para ganhar dinheiro”, disse a EL PAÍS Miryam Tristán, a grande artilheira da seleção peruana. Na região, as jogadoras de futebol enfrentam o desafio dos salários. “Na Argentina, uma jogadora da Primeira Divisão recebe o mesmo que um jogador da quarta (o equivalente a 1950 reais). E nem todas ganham”, diz a jornalista argentina Ayelén Pujol.

México, Chile e Brasil estão na vanguarda do futebol feminino na região, embora ainda apresentem sérios problemas, como o machismo dentro dos clubes e a disparidade salarial. A FIFA ofereceu apoio de 500.000 dólares (2,77 milhões de reais) a cada país para promover o esporte em face do fechamento de estádios e da crise econômica.

A terra de Marta ainda não derruba suas barreiras

O Brasil foi um dos países mais radicais contra o futebol feminino. Proibiu as mulheres de praticarem o esporte entre 1941 e 1979. Um dos primeiros times se chamava Radar FC, que serviu de base para a seleção feminina brasileira na década de 1980 e que participou da primeira Copa do Mundo em 1991. Depois veio a fabulosa geração de Marta e Cristiane. A canarinha foi campeã americana em 2003 e 2007, duas vezes conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos e foi vice-campeã mundial em 2007.

Em 2013, a Federação Brasileira de Futebol criou oficialmente o Campeonato Feminino para substituir os torneios semiprofissionais. As primeiras campeãs foram as jogadoras do Centro Olímpico, num torneio disputado por 20 equipes e com apenas um clube masculino envolvido, o Vasco da Gama.

O campeonato brasileiro cresceu em popularidade. Desde 2019, a federação brasileira exige que os clubes masculinos tenham uma equipe feminina e uma de base. O torneio conta com oito grandes equipes do Brasil liderados pelo Corinthians, time que viu lotar seu estádio com 28.862 torcedores. No entanto, as equipes femininas não jogam normalmente nos mesmos estádios que as masculinas.

As jogadoras do Santa Fé, durante jogo da Copa Libertadores feminina.
As jogadoras do Santa Fé, durante jogo da Copa Libertadores feminina.Twitter: @SantaFe / Twitter

Colômbia, a luta contra a precariedade

As jogadoras de futebol colombianas têm resultados de sobra para que possam ser apoiadas. Na última década, a seleção da Colômbia conquistou dois vice-campeonatos da Copa América, em 2010 e 2014, a classificação para as Copas do Mundo em 2011 e 2015 e os Jogos Olímpicos de 2012 e 2016. Nos Jogos Pan-americanos de 2019 conquistou a medalha de ouro.

Na final do primeiro campeonato profissional feminino, em 2017, o Independiente Santa Fe saiu vencedor no jogo contra o Atlético Huila, no estádio El Campín, em Bogotá, diante de mais de 30.000 espectadores. O Huila venceu o torneio de 2018 e também a Copa Libertadores feminina. Mas fora do gramado as jogadoras enfrentavam condições de trabalho indignas e um ambiente hostil.

Isabella Echeverri e Melissa Ortiz romperam o silêncio com um vídeo em que denunciaram no início de 2019 irregularidades na gestão da seleção feminina: a federação não lhes pagava, elas tinham que arcar com as próprias passagens e despesas médicas, seus uniformes eram velhos ou usados e as jogadoras que ousassem se queixar eram vetadas. Suas reclamações ressoaram com força, embora também tenham causado um embate com os dirigentes que perdura até hoje.

Várias colombianas jogam no exterior: Echeverri e Natalia Gaitán são companheiras de equipe no Sevilla, Leicy Santos joga no Atlético de Madri. O campeonato feminino tem sido marcado pela luta das jogadoras contra a precariedade no trabalho. Desde 2018, a duração do torneio e o número de equipes foram reduzidos.

O América de Cali venceu a terceira edição disputada por 20 times durante menos de três meses em 2019, e o Santa Fé repetiu o título no ano passado, quando já havia estourado a pandemia, em um torneio de 13 seleções que durou 58 dias. A edição de 2021 está prevista para apenas 45 dias e ainda não se sabe o número de participantes.

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Argentina: levar o futebol para fora de Buenos Aires

Embora o futebol seja praticado na Argentina desde 5 de outubro de 1913, só em 1991 o Campeonato de Futebol Feminino foi oficialmente estabelecido e apenas em 2019 se tornou um pouco mais profissional. A Associação Argentina de Futebol (AFA) obriga os clubes a terem pelo menos oito jogadoras assalariadas, ou seja, há jogadoras que não ganham. “Há muitas jogadoras que têm outro trabalho além do futebol. As jogadoras decidem ir para o exterior para se dedicar ao futebol, embora não recebam muito na Europa, mas lá podem se desenvolver melhor”, diz Ayelén Pujol, autora do livro ¡Qué jugadora!: un siglo de fútbol femenino en Argentina (Que jogadora! Um século de futebol feminino na Argentina).

Os principais clubes são o Boca Juniors, o River Plate e o UAI Urquiza e em todo o campeonato jogam equipes de Buenos Aires. “Uma das principais reivindicações é que o torneio seja mais federal porque o futebol está crescendo muito”, acrescenta Pujol. Nem todos os clubes cedem seus estádios para o futebol feminino e alguns dos principais canais transmitem os jogos.

“As jogadoras têm mais seguidoras, por isso a opinião pública está pedindo mais partidas”, diz Pujol. A classificação da seleção argentina para a Copa do Mundo 2019 despertou interesse e, com isso, os nomes de Aldana Cometti, Mariana Larroquette e Soledad Jaimes começaram a ressoar. A pandemia frustrou o torneio há um ano e neste 2021, como no restante do continente, impediu a ida do público às arquibancadas.

Stephany Mayor disputa a bola com Dania Padilla, numa partida entre as equipes femininas do Tigres e do Pumas, na Cidade do México.
Stephany Mayor disputa a bola com Dania Padilla, numa partida entre as equipes femininas do Tigres e do Pumas, na Cidade do México.Cortesía Liga MX / Imago 7 / Liga MX

México se volta para o futebol feminino

O México demorou muito para apoiar o esporte. O país se organizou e participou de uma Copa do Mundo em 1971 mesmo sem o aval da FIFA e, apesar da grande euforia que despertou, o futebol feminino foi marginalizado. Os circuitos não profissionais mantiveram vivo o desejo de gerações de mulheres de se dedicarem ao futebol. Assim como na América do Sul, as melhores jogadoras tiveram que deixar o país em busca de uma oportunidade, como Charlyn Corral e Stephany Mayor, hoje grandes esportistas.

Em 2017 foi fundado o primeiro campeonato feminino profissional, com 17 clubes. A partir daí o país passou a levá-lo mais a sério. A equiparação salarial, a desigualdade de tratamento, um contrato coletivo e um seguro saúde digno continuam a ser as principais pendências. As autoridades do campeonato afirmam que a competição ainda não consegue se estabelecer como um grande negócio.

A Liga Feminina Mexicana tem 33,5 milhões de torcedores, segundo dados oficiais. O envolvimento com os fãs tem sido fundamental. Em quase quatro anos, a categoria deu um impulso significativo ao conseguir a transmissão por emissoras de televisão e o acesso a grande parte dos estádios ocupados por homens. O Rayadas e o Tigres, que jogam na cidade de Monterrey, no norte, são duas das seleções com maior investimento e melhores resultados. Um jogo entre os dois clubes atingiu um marco mundial: mais de 51.000 torcedores nas arquibancadas, só superado pelos mais de 60.000 espectadores no Atlético de Madrid-Barça de 2019.

Se alguém simboliza o progresso do futebol feminino, é Mónica Vergara. Ela fez parte da primeira equipe feminina a disputar uma Copa do Mundo em 1999 e teve que encontrar uma maneira de jogar em um país sem campeonato. Tornou-se treinadora e alcançou uma das maiores conquistas do México: chegar a uma final mundial com a seleção Sub-17. Em 2021 conseguiu o cargo na seleção principal, controlada durante mais de 20 anos por homens e com poucos êxitos.

O campeonato peruano, entre as sombras e campos perigosos

A liga feminina no Peru começou em 1999. Os clubes masculinos criaram suas categorias femininas, mas, com o passar dos anos, as condições foram piorando. “Os campeonatos não eram bons porque os clubes não eram punidos por não apresentarem equipes de mulheres”, explica Miryam Tristán, referência da seleção nacional. Tristán lembra que quando começou a jogar no Sporting Cristal naquela época, com 13 anos, tinham de tudo: campo para treinar, uniforme limpo, vestiários, mas as condições depois se deterioraram. Em 2019, foi transmitido pela primeira vez o clássico entre o Alianza e o Universitario, mas os jogos nem sempre são exibidas pela televisão. Os jogos geralmente são realizados em estádios diferentes dos masculinos, e onde nem mesmo há vestiários. “Às vezes há partes de terra e grama, ou os canos de irrigação ficam na superfície, e é perigoso”, afirma. “Ter um campo específico para o futebol feminino seria um privilégio”, acrescenta. As jogadoras não recebem remuneração, somente um pagamento para reembolso das despesas de transporte.

O Campeonato Peruano é classificado como amador, mas compete pela Copa Libertadores, um dos grandes projetos do futebol feminino no cone sul da América. A pandemia da covid-19 limitou, em todo o mundo, a concentração das equipes femininas bem como a participação em partidas amistosas. Ao longo de 2020, a equipe peruana teve alguns dias de treinamento entre novembro e dezembro.

Equipe feminina do Colo Colo, em imagem de dezembro passado.
Equipe feminina do Colo Colo, em imagem de dezembro passado. Twitter: ColoColoFem / Twitter

Chile, o triunfo do sindicato

As chilenas não querem parar de vencer. Em 2016, o esporte feminino viveu seu pior momento ao ser rebaixado na agenda de sua federação. O apoio que tinham desde a fundação do campeonato em 2008 parecia ter se evaporado e os clubes masculinos estavam começavam a vacilar. As jogadoras chilenas se uniram em bloco para fundar a Associação Nacional das Jogadoras de Futebol Feminino, uma espécie de sindicato para lutar por seus direitos como jogadoras e passar um recado: uma mulher pode viver do futebol com dignidade.

La Roja ganhou impulso. Classificou-se para a Copa do Mundo 2019, depois de terminar em segundo lugar na Copa América. Em termos de campeonato, o Colo Colo foi o clube que não teve receio de apoiar o futebol feminino e isso significou vencer o campeonato 13 vezes e também a Copa Libertadores em 2012. A pandemia cancelou a disputa do ano passado, mas os dirigentes conseguiram organizar outro torneio com sucesso.

“Muitos dirigentes não entendem que o futebol é um espaço tanto para mulheres como para homens e que merecemos as mesmas condições. Eles também não entendem que é um bom negócio. Seu machismo é tão arraigado que mesmo algo de que gostam tanto, como dinheiro e negócios, não conseguem enxergar”, disse Iona Rothfeld, uma histórica jogadora de futebol chilena, ao portal Contragolpe. As jogadoras chilenas foram mais uma vez pioneiras ao apresentar, há poucos dias, um protocolo contra o assédio e o abuso sexual no esporte para erradicar qualquer forma de discriminação.

O frenesi pelo futebol feminino na América Latina não quer parar.

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