O que precisa diminuir não são as traves, mas o preconceito contra o futebol feminino

Há 40 anos, as mulheres ainda eram proibidas de jogar bola. Isso diz muito sobre as críticas desproporcionais à modalidade e às jogadoras da seleção

Goleira Bárbara faz defesa no jogo entre Brasil e Itália pela Copa feminina.
Goleira Bárbara faz defesa no jogo entre Brasil e Itália pela Copa feminina. (AFP)

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Visibilidade, audiência recorde, bons jogos e repercussão global. O sucesso da Copa do Mundo feminina é indiscutível. Mas, mesmo diante de números expressivos, há quem ainda olhe torto para a modalidade e se esforce em depreciá-la. Geralmente, as mesmas pessoas que só prestam atenção no futebol feminino em época de Olimpíada ou Mundial. Entre as teorias que costumam brotar de maneira tão sazonal quanto oportunista sempre há espaço, especialmente entre os homens, para debater uma possível redução das medidas do campo, do tempo de jogo e das traves, como se essa fosse a solução mágica para reparar o histórico descaso com as mulheres que tentam viver da bola.

É verdade que outros esportes, como vôlei e basquete, utilizam adaptações em suas categorias femininas com base nos distintos padrões físicos de homens e mulheres. Também procede que a estatura média de goleiros é maior no futebol masculino. O que não serve, entretanto, para comprovar nenhuma tese. Pilar da defesa venezuelana na Copa América, independentemente da falha contra a Argentina, o goleiro Wuilker Fariñez tem 1,81 metro. Considerado baixo para a posição, mas dono de técnica apurada e muita agilidade, está na mira de clubes europeus. No mesmo torneio já se destacaram nomes como o do mexicano Jorge Campos (1,68 m) e do colombiano René Higuita (1,73 m), além dos brasileiros Waldir Peres e Taffarel, que mediam 1,82 m e se consagraram entre os melhores do país.

Sarah Bouhaddi, goleira da França, que derrotou o Brasil nas oitavas de final, tem 1,75 m. Ainda assim, o tamanho não a impossibilitou de ser uma das jogadoras mais eficientes do Mundial, superando colegas quase 10 centímetros mais altas. Como um esporte democrático e abrangente, o futebol admite variações de biotipo que fogem aos parâmetros convencionais. Exatamente por seu caráter popular, não deve adaptar medidas para mulheres, porque os espaços reservados a elas já são bastante restritos. Um campo com dimensões e traves reduzidas significaria impor uma limitação a mais às atletas que batalham pelo devido reconhecimento na modalidade.

No Brasil, os clubes só começaram a “investir" —assim, entre aspas, já que alguns apenas agregaram equipes de aluguel— no futebol feminino por imposição da Conmebol a partir deste ano. Torneios em categorias de base são incipientes. Via de regra, a estrutura oferecida é amadora, inclusive em campeonatos ditos profissionais. Há 40 anos, as mulheres ainda eram proibidas por lei de jogar bola. Isso diz muito sobre as críticas desproporcionais à modalidade e às jogadoras da seleção. A tentativa de atrelar um improcedente baixo nível de jogo praticado por elas à estatura das goleiras ou ao tamanho dos gols simplesmente ignora as privações que as atletas precisam passar antes de provar seu valor em campo.

Boa parte das jogadoras que defenderam o Brasil na Copa relata ter sido impedida de jogar ou até apanhado de pais e irmãos por perseverar no sonho. Embora a proibição oficial tenha caído no fim de 1979, muitas garotas ainda continuam impedidas, seja pelo machismo enraizado nas estruturas familiares, seja pela repulsa a meninas no ambiente da iniciação futebolística. Exigir delas o mesmo desempenho dos homens é não ter o mínimo de empatia por suas trajetórias de luta contra a discriminação. A cobrança excessiva sobre a performance também deixa de reconhecer a notória evolução da modalidade nos aspectos físico, tático e técnico. Com valorização, incentivo à prática desde a infância, investimento em categorias de base e profissionalização, a tendência é que o nível siga progredindo a passos largos.

Nada impede que jogadoras sejam questionadas por suas atuações. No entanto, a crítica deve ser justa, levando em consideração os diferentes contextos de formação, desenvolvimento e estabilidade entre homens e mulheres. As atletas em início de carreira, embora cobradas como profissionais, se veem obrigadas a conciliar a rotina de treinos e jogos com uma atividade paralela para se sustentar. Assim como no Brasil, essa é a realidade do futebol feminino em várias partes do mundo. Apesar das dificuldades, as exibições na Copa mostram equipes maduras e taticamente preparadas, em que goleadas como o 13 a 0 dos Estados Unidos sobre a Tailândia —que disputou seu segundo Mundial, torneio para o qual a seleção masculina jamais conseguiu se classificar— são uma exceção. A média de gols é de 2,9 por partida, contra 2,6 da última edição envolvendo os homens.

O desnível técnico sugerido pela tese que prega a diminuição das traves não se verifica, na prática, de forma tão acentuada. Por outro lado, é fácil identificar os gargalos que atravancam uma maior evolução do futebol feminino. Nas periferias, garotas ainda têm de disputar espaço para jogar em terrenos historicamente reservado a atletas do sexo masculino. No alto rendimento, não podem se dedicar com exclusividade ao esporte porque a maioria dos clubes nem sequer lhes garantem vínculo de trabalho com carteira assinada. Todavia, não se vê goleiras pedindo para reduzir o tamanho dos gols, tampouco atacantes reivindicando campos mais curtos. A única exigência é pelo fim do preconceito que insiste em rebaixá-las a uma condição de inferioridade.

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