Brasileirão feminino

Ferroviária, o clube pioneiro no futebol feminino que desafia o Corinthians na final do Brasileirão

Em menos de 20 anos de projeto, a equipe feminina do clube de Araraquara já venceu campeonato brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. Equipes se enfrentam neste domingo às 14h

Aline Milene comemora o gol da Ferroviária no primeiro jogo da final.
Aline Milene comemora o gol da Ferroviária no primeiro jogo da final.FELIPE BLANCO (FERROVIÁRIA SA)

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Ferroviária e Corinthians se enfrentam neste domingo, às 14h (horário de Brasília), pelo segundo jogo da final do Brasileirão feminino de 2019, no Parque São Jorge, em São Paulo. Depois de empatar por 1 a 1 em Araraquara, o Corinthians perdeu a sequência recorde de 34 vitórias seguidas em torneios oficiais, mas ainda chega como favorito para conquistar o bicampeonato nacional em casa, coroando uma campanha de apenas uma derrota em 20 partidas. Do outro lado, a Ferroviária chega sem a pompa corinthiana, mas carrega um histórico que vai além da reputação de um time do interior paulista: no futebol feminino, a equipe tem títulos continentais, jogadoras de seleção brasileira e quase 20 anos de investimento. A partida terá a transmissão da Band na televisão aberta.

Fundado em 1950, o time masculino da Ferroviária nunca teve expressão além da regional; levantou algumas taças em divisões de acesso do campeonato paulista e foi vice-campeã da série C nacional em 1994. O feminino acumula mais glórias em menos tempo. O projeto, que surgiu em 2001, foi campeão paulista no ano seguinte. Ainda chegaria ao lugar mais alto do torneio estadual em 2004, 2005 e 2013. Entre 2014 e 2015, ganhou um Brasileirão, uma Copa do Brasil e uma Libertadores. Na Copa do Mundo feminina deste ano, oito jogadoras do elenco da seleção brasileira passaram pela equipe: Aline, Camila, Mônica, Tayla, Thaisa, Andressa Alves, Raquel e Bia Zaneratto. No time atual, a meia Aline Milene tem figurado nas convocações recentes de Pia Sundhage.

Ana Lorena Marche, coordenadora de futebol feminino da Ferroviária, conta que o investimento na categoria dentro do clube só foi possibilitado graças a uma parceria com a Prefeitura. Na época, o prefeito do município era Edinho Silva, que governou Araraquara por dois mandatos, de 2001 a 2008, e voltou ao posto em 2016. Somente em 2019, 18 anos após a Ferroviária criar um time feminino, a CBF impôs uma obrigatoriedade para forçar os principais clubes do país a montarem uma equipe de mulheres. "O momento é positivo porque o futebol feminino virou um mercado", avalia a coordenadora do clube pioneiro. "A visibilidade traz exposição e patrocínios, que fazem com que a modalidade possa crescer e se profissionalizar".

Aos 34 anos, Lorena chegou ao clube em 2017 sem experiência nos gramados, mas com um histórico acadêmico em educação física, gestão e análise de desempenho. Ela também ressalta que o projeto da Ferroviária trouxe categorias de base desde o primeiro ano, o que facilitou a captação de jogadoras para a equipe principal e possibilitou quase 20 anos ininterruptos de trabalho do clube no futebol feminino. "Todo ano temos jogadoras prontas para entrar no time de cima e isso ajuda na permanência em alto nível do trabalho. 40% do elenco atual veio das categorias de base", afirma ela, que também comemora a gestão compartilhada, uma prática que permite a delegação das mulheres utilizar a estrutura disponibilizada para os jogadores.

Apesar do histórico muito mais vitorioso do que a equipe masculina, Lorena revela que o orçamento do time feminino ainda é menor do que o dos homens. A coordenadora justifica ao dizer que a Ferroviária, estando na primeira divisão do campeonato paulista masculino, precisa competir com elencos milionários de grandes clubes do país, como Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo. "Enquanto isso, não existe um investimento tão grande no futebol feminino da parte desses grandes clubes. Não temos tanta competição", diz. Segundo Lorena, o dinheiro investido pela Ferroviária no feminino é mais próximo do investido no masculino em comparação com qualquer outro grande paulista. "Neles, o orçamento feminino é em torno de 1% do orçamento da equipe masculina. Proporcionalmente, o nosso é muito maior, ainda que menor em valores absolutos", pontua.

Com 23 pontos em 15 jogos, a Ferroviária foi a sétima colocada entre os oito times que se classificaram na primeira fase do Brasileirão. Perdeu para o favorito Santos em casa por 2 a 1 nas quartas de final, mas devolveu o placar como visitante e levou a vaga nos pênaltis. O confronto marcou a demissão da treinadora Emily Lima do clube santista. Na semifinal, dois resultados de 1 a 1 com o Avaí/Kindermann, da goleira Bárbara, e outra vitória nas penalidades. Jogando em Araraquara, Aline Milene abriu o placar na partida de ida da final logo no primeiro minuto, mas Erika empatou para o Corinthians ainda no primeiro tempo e trouxe a vantagem para São Paulo. 

Simultaneamente, as mesmas equipes se enfrentaram pela semifinal do campeonato paulista e o confronto foi bem menos equilibrado. Em dois jogos, o Corinthians goleou a Ferroviária por 4 a 0 e 5 a 1, aumentando sua invencibilidade para 36 jogos na temporada. "Não temos um elenco tão grande e optamos por focar no campeonato brasileiro", defende Lorena, que afirma conhecer muito bem o adversário devido ao número de vezes que se enfrentaram. Só em 2019, foram seis jogos entre as equipes, com cinco vitórias do Corinthians e um empate. "Também temos jogadoras com títulos expressivos e vamos encarar essa final com muita seriedade. Não vamos deixar de acreditar", reforça a coordenadora.

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