Futebol

O futebol se prepara para ficar ‘órfão’ de Messi

Houve um Pelé branco, um Maradona dos Alpes e inclusive um Messi tailandês. As listas de sucessores existem desde que o futebol é futebol, e quase sempre são uma maldição para os eleitos. A dura derrota do Barcelona para o Bayern acelerou a busca de um herdeiro para o argentino

Lionel Messi depois de perder para o Bayern de Munique, em 14 de agosto, em Lisboa.
Lionel Messi depois de perder para o Bayern de Munique, em 14 de agosto, em Lisboa.

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As listas de sucessores existem desde que o futebol é futebol. Zico ficou marcado depois que falaram dele como o ‘Pelé branco’, o rosto pálido de classe média ao qual exigiam que estivesse à altura da lenda de pele negra surgida nas favelas. E aquele Brasil que tentou restaurar o jogo bonito no início dos anos 80 também teve um ‘Pelé vermelho’, o esquerdista e muito comprometido Sócrates. Pablo Aimar e Javier Saviola desfilaram ao lado de muitos outros – e muito contra a sua vontade – pela passarela dos novos Maradona quando ainda estava fresca a lembrança de substitutos do barrilete cósmico (“pipa cósmica”) como o Maradona dos Cárpatos (Gica Hagi), o Maradona dos Alpes (o austríaco Andreas Herzog), o Maradona húngaro (Lajos Détári), o Maradona inglês (John Barnes) e o Maradona francês (houve vários, mas nenhum tão digno quanto Alain Giresse). Inclusive os holandeses ficaram obcecados com a busca de um novo Johan Cruyff (já não um jogador revolucionário, e sim um líder galvanizador e emissário do novo futebol) até que entenderam que era uma missão impossível e optaram por deixá-lo jogar tranquilo, e não amargar sua vida com comparações injustas com nenhuma jovem promessa.

Lionel Messi acaba de viver com o Barcelona a pior derrota de sua carreira. Embora ainda seja difícil questionar que seja dele a coroa de melhor jogador do mundo, o argentino já tem 33 anos, podendo-se intuir que o início de seu declínio biológico e futebolístico seja iminente. Para o jornalista Aitor Lagunas, diretor da revista Panenka e comentarista da Gol Televisión, “o mundo está se preparando para a inevitável sensação de orfandade que Messi deixará quando se aposentar. E, até certo ponto, é lógico que analistas e fãs já estejam pensando no seu sucessor, que se esforcem em descobrir o mais cedo possível como será a próxima página livro do futebol.”

Heranças envenenadas

Para Lagunas, não haverá sucessão se a entendermos necessariamente como “a consagração imediata de um jogador idêntico ou muito parecido com Messi, um canhoto virtuoso que jogue em todos os cantos, faça mais gols e dê mais assistências que nenhum outro e que tenha um impacto superlativo, quase abusivo, no jogo de sua equipe”. E completa: “O futuro é, por definição, imprevisível, mas não acho que seja sensato esperar que apareça logo um segundo Messi.” Mas o esporte seguirá seu curso, “e já nos próximos anos falaremos um pouco menos de Messi (ou de Cristiano Ronaldo) e muito mais de Neymar, Kylian Mbappé ou Erling Haaland”.

Os dois últimos são, segundo o analista, os que mais se encaixam no paradigma de grande estrela do futuro imediato que se vislumbra no horizonte. “Messi foi uma espécie de elo intermediário entre Maradona, o virtuoso anárquico que aparece do nada e abre caminho com base no talento e na personalidade, e essa espécie de atleta universal, fruto da tecnologia aplicada, da dieta, da medicina e dos centros de alto rendimento, que é Mbappé.” Entre o futebol canalha, romântico e visceral de “El Pelusa” e o esporte ciência representado pelo atacante do PSG, Messi reuniu “parte do melhor desses dois mundos.” Leo é “fruto da globalização futebolística dos anos noventa, uma flor exótica que foi transplantada para a Europa e chegou aqui para continuar crescendo, mas quando chegou já tinha começado a florescer.” A combinação dos campinhos de Rosario e essa “excepcional escola de futebol que é La Masía [celeiro de jogadores do Barcelona]” tornou possível “algo tão raro e tão maravilhoso quanto Messi”.

Muitos príncipes e poucos reis

O novo Messi? Luka Romero é a última promessa do futebol à qual quiseram conferir esse rótulo tão hiperbólico e pegajoso. E ele tentou se resistir à descrição com uma maturidade e um senso comum que parecem não condizer com seus 15 anos. Em sua primeira entrevista de certa importância, para o programa 90 Minutos (Fox Sports), o garoto do Mallorca insistia semanas atrás que Messi é Messi, um talento único e “irrepetível”, e que ele almeja construir seu próprio caminho e não quer ser nada diferente de Luka Romero.

Luka é ainda adolescente, mas também um formidável projeto de jogador de futebol. Canhoto, rápido e franzino, joga como meia-atacante, faz diabruras com a bola costurada no pé, leva o time nas costas e o gol no sangue. Além disso, embora alguns se refiram a ele como o ‘Messi mexicano’ ou o ‘Messi balear’ – porque nasceu em Durango, México, e foi criado na Espanha, primeiro na localidade de Villanueva de Córdoba (Andaluzia) e depois na ilha de Formentera –, tem nacionalidade e raízes argentinas, passa suas férias na cidade de Quilmes (província de Buenos Aires) e escolheu jogar com a celeste e branca.

Acima de tudo, Luka é muito precoce. Inclusive mais do que Messi em sua época. Em 24 de julho passado, jogou alguns minutos com o Real Mallorca no Santiago Bernabéu, transformando-se, aos 15 anos e 29 dias, no estreante mais jovem da história da Primeira Divisão espanhola. Superou assim a lenda nacional da precocidade, Francisco Bao Rodríguez, ‘Sansón’, um jogador de Pontevedra que estreou no Celta de Vigo em dezembro de 1939, poucos meses depois do final da Guerra Civil. Quando um atleta mira tão alto e chega tão cedo na elite como Luka, é lógico se perguntar qual o seu limite. E o limite do futebol mundial continua hoje sendo marcado por Leo Messi.

Carne argentina

Talvez Romero jogue na celeste e branca do futuro com outro ‘novo Messi’ em formação, Thiago Ezequiel Almada, meio-campista ofensivo do Vélez Sarsfield que acaba de fazer 19 anos. Javier Alfaro, redator de El Mundo Deportivo, descrevia o jovem semanas atrás como um “pequenino mago da bola a ponto de atravessar o oceano, já mais uma realidade que uma promessa”. Alfaro vê nele um talento “irreverente”, desses jogadores “que nascem com um dom”. “Destro, rápido, escorregadio e muito vertical”, cresceu no bairro de Fuerte Apache, na Grande Buenos Aires, esse celeiro de jogadores virtuosos e raciais onde também surgiu Carlos Tévez.

Almada, chamado de ‘El Guayo’, pode chegar muito em breve a um dos grandes times da Europa. Se nada der errado, será muito bom, mas talvez não excepcional. E, claro, apesar de sua irreverência e verticalidade, não será como Messi, como tampouco foram outros “substitutos” do camisa 10 que a imprensa e os fãs acreditam encontrar na Argentina de vez em quando. Foi o caso de Diego Buonanotte (também de Santa Fe e apenas um ano mais novo que Leo), Erik Lamela, Juan Manuel Iturbe e Leandro Depetris. Também parece ser o caso do formidável Paulo Dybala e dos promissores Lautaro Martínez, Matías Zaracho e Agustín Almendra. Mas é justo reconhecer que a maioria deles não sentiu o peso do rótulo de novo Messi por não cometer o grosseiro erro de levá-lo tão a sério.

Entornos delirantes e pais tóxicos

Para Santi Giménez, redator do jornal As e autor de livros como Cuando Fuimos los Mejores, Pero No Ganamos Nunca, a insistência em encontrar sucessores para Messi (seja na Argentina, em Barcelona ou em Sebastopol) é, em duas palavras, “uma merda”. Giménez lembra que “pelo menos o Maradona dos Cárpatos e o dos Alpes eram jogadores consolidados e com uma trajetória, capitães de suas seleções e máximos goleadores de suas ligas. Estão agora comparando com Messi garotos cuja progressão é uma incógnita. É uma vergonha, um engano que pode afetar injustamente as carreiras desses rapazes.”

O jornalista diz que o próprio Messi só começou a ser considerado o sucessor de Maradona “quando tinha 22 ou 23 anos, e isso que já jogava com um nível excepcional desde que era juvenil e teve um impacto imediato quando entrou na primeira equipe”. Mas naquela época, brinca Lagunas, ainda não vivíamos num mundo “onde há centenas de olhos examinando cada canto do planeta futebol para ver se aparece um jovem turco ou canadense capaz de fazer 200 embaixadinhas com uma laranja”. Segundo Giménez, “a culpa de todo esse delírio é de alguns pais de supostas promessas, que deveriam perder a custódia, porque estão se transformando no câncer do futebol”. Ele se entristece ao “ver garotos de 11 anos exibidos em vídeos no YouTube como se fossem macacos de feira e torneios sub-14 com as arquibancadas lotadas de representantes que aproveitam o descanso para tentar captar novos clientes com falsas promessas”. Por culpa de alguns, o futebol de formação se tornou um “esporte de risco” no qual há cada vez mais delirantes buscando “uma ilusão”.

Certo é que não se pode reproduzir o excepcional. Nem sequer em condições ideais de laboratório. Semanas atrás, o The Sun publicou uma exaustiva lista de jogadores do mundo todo que haviam sido considerados os novos Messi em algum momento. “Que destino tiveram?”, perguntava-se com um sarcasmo cruel o autor do artigo, Tom Sheen. Apenas Mohamed Salah, o ‘Messi egípcio’, mostrou-se até certo ponto à altura de tão exigente comparação, embora Sheen afirme que o faraó do Liverpool seja, talvez, “um dos jogadores da lista que menos se parecem com Messi.”

O certo é que lá estava o (suposto) Messi inglês, Patrick Roberts. E também o Messi alemão Marko Marin. E o Messi suíço, Xherdan Shaqiri. O Messi norueguês, Martin Odegaard. O Messi peruano, Raúl Ruidíaz. O Messi japonês, Take Kubo. O Messi croata, Allen Halilovic. Havia até mesmo um Messi tailandês, nigeriano, indonésio, sul-africano e malaio, todos jogadores esforçados com nomes difíceis de reproduzir e carreiras francamente inéditas, pelo menos até agora.

Curvas de aprendizagem truncadas

Talvez por respeito a uma das rivalidades mais nobres e duradouras da história do futebol, o tabloide inglês não citou nenhum suposto Messi brasileiro. Quanto ao (falso) Messi espanhol, apostava em Gerard Deulofeu, ponta catalão criado na Masía e que agora integra o elenco do recentemente rebaixado Watford FC. Na opinião de Sheen, Deulofeu é pouco menos que um brinquedo quebrado, “com talento suficiente para merecer quase qualquer comparação com os melhores, mas sem a consistência nem a capacidade de trabalho necessárias para se estabelecer na verdadeira elite”. Um bom jogador que ficou bastante aquém das expectativas e que, além disso, teve a sorte ou a desgraça de dividir o vestiário com o Messi argentino, o único, o autêntico, e comprovar de perto qual é a diferença.

Para Aitor Lagunas, que considera a lista do The Sun “um divertimento curioso que não pode ser levado muito a sério”, o caso de Deulofeu demonstra “como é difícil prever quais jogadores de 10 ou 11 anos terão uma carreira profissional, quais serão estrelas”, para que “não digamos quem tem chances de se transformar no melhor do mundo.” A classe, o talento e as condições físicas e técnicas são “imprescindíveis, mas não suficientes”. O analista repara em Messi “uma determinação, uma ambição, uma fortaleza mental e de personalidade excepcionais que já começavam a se manifestar quando, aos 14 anos, ele disse ao pai que não queria voltar a Rosario e estava até disposto a ficar sozinho em Barcelona se a família decidisse ir embora.”

Para Santi Giménez, Deulofeu foi a provável vítima de “uma mudança de mentalidade dos técnicos das categorias de base, que antes formavam jogadores e hoje se preocupam só em engordar seu currículo pessoal ganhando o máximo possível de partidas.” Em sua opinião, “ninguém se incomodou em ensinar futebol para Gerard. Ele fazia a mesma jogada desde os 12 anos, e chegou o momento em que ela deixou de sair. Entre os 12 e os 17, ele fazia cinco ou seis gols por jogo, permitindo que seu clube ganhasse uma e outra vez com placares escandalosos, mas não lhe ensinaram os fundamentos do jogo nem a importância de defender, de se posicionar bem, de se associar...”. Deulofeu e outras promessas da Masía, como Xavi Simons e até mesmo Take Kubo, sofreram as consequências de “uma miragem”: a obsessão do Barcelona em “encontrar um novo Messi de 13 anos ou um novo Iniesta de 15, que é como pretender ganhar na loteria duas vezes. Isso cria uma notável histeria no entorno e uma pressão absurda para os jogadores”.

Tudo o que foi preciso para que Messi fosse Messi

As circunstâncias também têm muito peso na hora de produzir resultados excepcionais. “Messi teve a sorte de cair num grupo esportivo e humano extraordinário”, diz Lagunas. “Essa geração de 1987, que foi um terreno fértil para seu talento, porque o obrigou a se exigir muito desde pequeno. Depois cresceu um ano à sombra de Ronaldinho e, em seguida, viu-se cercado de companheiros do nível de Xavi e Iniesta e concentrado nessa formidável rivalidade com Cristiano Ronaldo que tanto o obrigou a se superar”. O jornalista explica que “Messi, reconhecido até pelos madridistas mais recalcitrantes como o melhor jogador da nossa época, quando não de toda a história, é quem se beneficiou de todas essas circunstâncias no Barcelona. Se só tivéssemos conhecido o Messi da Argentina, falaríamos de um jogador muito, muito bom, mas não de uma lenda do futebol desse calibre.”

Paradoxalmente, isso explica por que a lista de novos Messi seja menos urgente e peremptória na Argentina que no resto do mundo. “Eles buscam desde 1994 o novo Maradona, um molde no qual nem sequer Messi conseguiu se ajustar totalmente, embora tenha feito também seu gol do século e sua mão de Deus. O escritor argentino Martin Caparrós me disse, certa vez, que Maradona é uma síntese do gênio argentino, da argentinidade. Reúne o melhor e o pior do caráter nacional, da beleza dos versos de Borges e da esperteza e da falta de escrúpulos”. “El Pelusa” foi um personagem “genial e excessivo”, fascinante em suas contradições, “e Messi, que é uma pessoa até certo ponto comum e um produto da globalização express, um nômade do futebol, por mais que goste de ‘asado’ e conserve sotaque de Rosario, pode estar à altura do jogador, mas não do personagem”.

Onde de fato haverá um sentimento de orfandade “profundo e duradouro”, diz Lagunas, é no Barça. “O clube terá dificuldade para gerir a nova normalidade após a ausência de Messi. E acho que não deveria cair na ilusão de tentar encontrar um Messi o quanto antes, ou um sucessor de Messi, e voltar a criar uma estrutura competitiva ao seu redor. Seria mais sensato trabalhar na construção de uma equipe com raízes sólidas e uma ideia de jogo – e, a partir daí, se surgir um talento que volte a fazer a diferença, tanto melhor.” O futuro imediato não oferece clones de Messi, mas talentos suficientes para que o futebol continue evoluindo e entusiasmando os fãs.

Voltando à lista do The Sun, Lagunas reconhece que existem nela dois jogadores para os quais o rótulo de novo Messi não ficaria tão grande. “Vejo Martin Odegaard já bastante definido. Fez uma temporada muito boa no Real Sociedad”, diz. “E Take Kubo – e digo isso com a devida cautela – é um dos jogadores jovens que mais me fazem lembrar de Messi ou que mais se aproximam de seu rastro, embora certamente seja cedo para saber aonde pode chegar. Vejo nele um canhoto diferente, que avança para dentro com talento e personalidade, capaz de levar luz inclusive a um time que fez uma temporada tão cinza como o Mallorca”.

Para Santi Giménez, Kubo é “um dos grandes erros do futebol de formação do Barcelona, que deixou escapar um jogador extraordinário, com características que lembram tanto Messi como Andrés Iniesta”. Giménez explica que, “ao contrário de projetos de estrela fracassados como Deulofeu e Jonatan Valle, o jogador do Racing de Santander que meia Europa disputou há alguns anos, Kubo é, como bom asiático, um jogador disciplinado e com capacidade de aprendizagem”. Agora será aproveitado pelo Real Madrid.

Resta ao Barcelona o consolo de Ansu Fati, “um talento natural que tem tudo para marcar uma época”. Giménez valoriza o fato de que, “aos 17 anos, ele já tenha jogado várias partidas com Messi, se entenda bem com ele e não pareça coibido ao seu lado”. Além disso, diz o analista antes de se despedir (“tenho que cobrir a apresentação de Petri, o novo Iniesta”, explica com uma pitada de ironia), “ele começou a bater recordes de precocidade” e a ter uma incidência “instantânea” no jogo da equipe. “Só espero que o deixem crescer tranquilo. E, por favor, que se esqueçam de compará-lo com Messi.”

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