FINAL DA CHAMPIONS LEAGUE

Neymar e Mbappé, uma estranha dupla em busca de afinação

Melhora da relação entre o brasileiro e o francês é colocada à prova no jogo que justificou sua contratação

Mbappé e Neymar riem durante o treinamento anterior à final.
Mbappé e Neymar riem durante o treinamento anterior à final.Miguel A. Lopes / POOL / EFE

Uma sala decorada com máquinas de fliperama, bilhar e pingue-pongue com vista ao estuário do Tejo ameniza a concentração do Paris Saint-Germain. Entre as paredes da sala recreativa Kylian Mbappé e Neymar encenam uma relação mais estreita e menos ególatra do que a que mantinham quando rivalizavam para demonstrar qual dos dois reinava no campo e nos vestiários. Existe o convencimento no clube parisiense de que as duas estrelas decidiram unir forças nessa temporada para o ataque final ao único objetivo pelo qual os investidores catarianos realizaram suas milionárias contratações: a conquista da primeira Champions League como símbolo do poderio do Catar. Os proprietários se felicitam por vencer, na corrida de xeiques para chegar à final da Champions, o Manchester City, administrado pelo capital dos Emirados Árabes Unidos.

Esse novo idílio entre Mbappé e Neymar fez com que seus armários sejam um ao lado do outro, conversas e brincadeiras em inglês e que o atacante francês admitisse ao jornal Le Figaro, ao final da semifinal contra o Leipzig, que “já não somos tão egoístas”. Mbappé parece aceitar a liderança festiva que Neymar difunde através da enorme caixa de som que portava no caminho ao hotel após a vitória nas semifinais contra o Leipzig (3x0). O aparelho sonoro cospe igualmente as ácidas rimas que alimentam o flow dos rappers das favelas como faz seus colegas dançarem ao ritmo do argentino Dipy Papá e seu insinuante Par-tusa.

A primeira vez que Neymar fez uso de seu inseparável baffle portátil, trilha sonora da Champions, foi após a virada das oitavas contra o Borussia Dortmund (2x0). A derrota na partida de ida (2x1) é apontada pelo clube como o ponto de inflexão que fortaleceu a relação entre Neymar e Mbappé e do vestiário em geral. Alguns jogadores como Ander Herrera ficaram impactados pelas fortes críticas recebidas por parte da imprensa francesa.

Aquilo desembocou em um jantar conjunto na casa de Neymar e outro posterior no restaurante italiano de propriedade de Marco Verratti antes da partida de volta contra o Dortmund. A frase divulgada por Haaland nas redes sociais – “Paris é minha cidade” –, após marcar os dois gols da vitória incentivou os jogadores do PSG. Consumada a passagem às quartas, quase todo o time fez a pose de Lótus, a posição de ioga com a qual o goleador norueguês comemora seus tentos.

Superado o Dortmund e liquidados nessa fase final com oito equipes em Lisboa o Atalanta e o Leipzig, a dupla de astros enfrenta seu jogo mais importante dos últimos anos contra um rival com mais pedigree competitivo. Com a Eurocopa e a Copa América adiadas, a final se transformou na partida mais importante. Desde a Copa do Mundo de 2018 Mbappé não estava na primeira linha da vitrine em que os grandes títulos são disputados. E Neymar não via outra igual desde que disputou a final de Berlim em 2015 com o Barcelona.

Apontados como os herdeiros mais firmes de Messi, nessa nova relação também é possível apreciar uma adaptação estilística. Neymar agora joga com a determinação e a praticidade de seu novo colega. Contra o Atalanta, o brasileiro finalizou com sucesso 15 de suas 20 tentativas de drible. Contra o Leipzig, jogando como falso nove, recuou ao meio de campo para receber a bola quando o ataque do PSG não ia bem. A única crítica a Neymar foram as claras chances de gol que desperdiçou. Mbappé, por sua vez, foi decisivo contra o Atalanta quando entrou com o PSG atrás no placar. Seu arranque contra os italianos e o Leipzig desequilibrou. Sua vontade é demonstrar que pode ser tão espetacular e rebuscado como Neymar.

A estelar dupla espera explorar os espaços que a adiantada defesa do rival propicia. “Nós nos caracterizamos por defender em bloco alto, o importante é que consigamos pressionar a bola. Quando nos superarem é importante recompor e fechar o caminho dos passes”, disse no sábado Hans-Dieter Flick, o técnico do Bayern.