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Domènec Torrent, novo treinador do Flamengo: “Se você perde o estilo, quando é derrotado não sobra nada”

Auxiliar de Guardiola entre 2008 e 2018, contratado na semana passada pelo Flamengo, analisa aspectos do jogo do City, do Bayern e do Barça a uma semana do reinício da Champions

Domenec Torrent ao lado de Guardiola no banco do Manchester City em janeiro de 2017.
Domenec Torrent ao lado de Guardiola no banco do Manchester City em janeiro de 2017.Andrew Yates / Reuters

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Entre 2008 e 2018, Domènec Torrent Font (Santa Coloma de Farners, Espanha, 1962) foi uma peça fundamental na equipe técnica de Pep Guardiola. Primeiro como analista no Barcelona e depois como auxiliar técnico no Bayern de Munique e no Manchester City, até que decidiu assumir o comando de um time, o New York City, nos Estados Unidos. Na semana passada, foi contratado pelo Flamengo. Antes de viajar para o Rio, sentou-se no jardim de sua casa para falar por videochamada sobre futebol e as equipes que mais conhece.

Pergunta. Como vê o Barcelona?

Resposta. Os times que marcaram época sempre tiveram um mesmo treinador durante pelo menos quatro anos. Isto quer dizer que o sistema é o mesmo, e é mais fácil para os jogadores. No caso dos jogadores que podem fazer diferença, é preciso criar um ecossistema para que se sintam à vontade. Messi é o melhor jogador da história, e nesta temporada ele desequilibrou, mas não pode pegar uma bola na sua defesa e fazer tudo sozinho. O problema do Barcelona é que cede muita vantagem por não ter um projeto sólido, com um técnico que esteja há três ou quatro anos, por muitas razões. Primeiro, porque assim você sabe o tipo de jogador que pode contratar. Há jogadores muito bons, mas não são os ideais para o seu sistema. Xavi disse algo que assino embaixo: ‘Não é a mesma coisa jogar com o Barça, em que normalmente você joga com poucos espaços, que com outros clubes onde você tem mais espaço.’ No Barça é importantíssimo contratar jogadores que saibam jogar onde há poucos espaços. Xavi pensa na situação que enfrentávamos: que você pressionava no campo adversário, roubávamos a bola no campo adversário, o rival te fechava e você tinha poucos espaços. E jogadores excelentes com os espaços no Barcelona continuavam sendo tão bons quanto, mas com esse estilo tinham mais dificuldade. Olhando este Barcelona, o que posso intuir é que você deve ter um estilo claro: quer jogar com passes longos? Jogue com passes longos. Quer jogar no contra-ataque? Jogue no contra-ataque. Mas se em quatro anos você tem dois ou três técnicos diferentes, quase sem nada a ver um com o outro, querendo ou não os automatismos se perdem porque um deles quer uma coisa e o outro quer outra; um quer apertar na saída de bola e o outro quer jogar um pouco mais atrás. E tudo é legítimo e bom. Pode-se ganhar de qualquer maneira. Mas é preciso criar um estilo. Porque você pode perder com todos os estilos, mas se além disso perder o estilo, então quando perde não sobra nada, só a contratação de jogadores para ver se eles mesmos resolvem. Dito isso, o Barça pode ganhar a Champions League, como outros quatro clubes da Europa que podem ganhar qualquer coisa pela qualidade do elenco.

P. Tem uma coisa que Ernesto Valverde, ex-treinador do Barcelona, nunca fazia, que era soltar o Busquets para que pressionasse os volantes quando o rival armava a jogada. Por que há treinadores que nunca liberam seu primeiro volante do dever de proteger os zagueiros, enquanto outros fazem isso?

R. Com Pep, toda semana treinávamos uma pressão diferente. Depende do adversário: se jogava com uma formação 4-2-3-1 e nosso volante saía da posição, o meia adversário ficava sozinho. Então não saía. Se o esquema era 4-4-2, como os dois atacantes já estão com os dois zagueiros, então o volante podia sair. Quando o rival joga no ataque com formação em losango e um meia-atacante ―Messi ou Hazard―, se você sai da posição tem um problema. Se o esquema do adversário é 4-3-3, aberto com dois pontas e um atacante, seu volante pode sair porque ficam quatro defensores contra três. Quando dizem que o City joga 4-3-3 não é verdade. Em 80% dos jogos, se o lateral vai por dentro, no final o time joga com um 3-2-2-3 e defende com cinco.

P. O 4-3-3 é o melhor sistema para dividir os espaços?

R. Se eu fosse professor de tática numa escola de treinadores, não suspenderia ninguém: nenhum sistema supera os outros. Depende do comportamento dos jogadores. Quando o adversário segura a bola por mais de 10 segundos eu já fico nervoso. O principal é que o técnico sinta uma coisa e convença seus jogadores disso. Para mim, Maurício Pochettino [treinador argentino] é muito completo porque varia muito entre os sistemas e os domina. Ou seja, convence os jogadores de aplicá-los. Você nunca sabia como Poche jogaria. Se seria com um 3-4-3, um 4-4-2 em losango... Eu gostava porque complicava nossa vida. Isso te obrigava a pensar de outra maneira e a dar soluções para seus jogadores. O treinador não ganha nunca. Dá soluções. E isso é o que te motiva para treinar.

P. Por que às vezes o City joga com dois volantes?

R. Em algumas ocasiões já jogamos com dois volantes, como no campo do Chelsea do Conte, porque Hazard vinha buscar dentro e criava superioridade. E se roubava a bola ao lado do seu volante, que era Fernandinho, podia ser fatal. Às vezes é melhor que o meia central espere, e outras que avance. Particularmente, gosto que avance se estiver organizado, quando o rival tem problemas na saída e você já fez três pressões. Não é bom esperar atrás porque, no final, sempre há espaços ao lado do volante.

P. Quando se começa um jogo com 4-3-3, normalmente o volante central tem linhas de passe claras para os meias interiores. Como se observa essa clareza quando se recua um meia interior para usá-lo no esquema de dois volantes?

R. Se você joga com dois volantes e quer ter as mesmas opções de passe, pode escalonar a saída jogando com os pontas por dentro e soltando algum lateral. Assim você encontra um passe rápido. Depende muito dos homens: não é o mesmo jogar com Fernandinho que com Rodri ou Gundogan, ou De Bruyne. Porque De Bruyne e Gundogan são de menos recuperação, mas têm mais controle de chegada. Então você precisa equilibrar. Por isso, às vezes os laterais do City se juntam ao volante e formam dois volantes. O importante é o sentido que você dá ao jogo. Por exemplo: se Rodri joga e Zinchenko vai por dentro, você fica com três atrás e dois volantes. Se você tem no seu time o melhor Romário e o melhor Ronaldo, não pode ser tão bobo a ponto de colocar um aberto para um lado porque quer fazer um 4-3-3. Você tem que se reinventar. Com Pep, jogamos com Sterling e De Bruyne como pontas por dentro, deixando que Mendy e Walker fossem por fora.

P. Uma das coisas que Guardiola desenvolveu melhor no City é essa troca contínua entre os laterais e os pontas. O que se busca com isso?

R. Muita gente se confunde com o jogo de posições. Trata-se de ocupar a posição, não importa com quem. Com o Bayern tínhamos Ribéry e Alaba na esquerda. Pep dizia: dá no mesmo quem for o lateral. Se Ribéry queria vir buscar a bola com o lateral, Thiago jogava como ponta e Alaba ia para dentro como meia. Dava no mesmo. Mas quando perdiam a bola, a responsabilidade de cada um era diferente: Ribéry era lateral enquanto não recuperássemos a bola. Isso vai junto das qualidades individuais: há jogadores que não vão se sentir confortáveis trocando de lugar com o ponta, mas Gundogan pode fazer isso, De Bruyne já jogou como ala, Sterling joga muito bem por dentro e Sané tem dificuldade porque é ponta puro. Quando os defensores fecham tanto seu espaço e são muito fortes, é muito importante ter pontas que desequilibram porque um ponta quando dribla uma linha realmente dribla cinco. Sem pontas puros, você corre o risco de passar a bola sem aprofundar.

P. O passe tem sentido se o movimento dos jogadores não for constante?

R. As pessoas falam de tiki-taka em termos pejorativos: aqui não se trata de passar a bola, mas de mover as pessoas, fazer as linhas de defesa do adversário avançarem duas ou três vezes tentando recuperar a bola ―e assim encontrar o espaço. Pep sempre fez isso. No Barça nem tanto. No Bayern, muitíssimo. O lado esquerdo do Bayern era um espetáculo, e todas as posições estavam sempre ocupadas. Que vantagens isso tem? Uma delas é que você, como meia central, quando tiver complicações sempre terá um companheiro em cada posição e, sem olhar, poderá mandar a bola e lá estará algum deles. Se não for o ponta, será o lateral. Por isso é possível jogar tão rápido.

P. Hoje em dia, é possível desequilibrar só com um toque essas defesas tão organizadas e bem preparadas fisicamente, ou é imprescindível que os jogadores mudem de posição na mesma jogada?

R. Quando os pontas e os laterais trocam de posição, geram dúvidas no adversário. Porque quando um ponta vai por dentro, se o lateral não treinou ou viu muitas vezes essa equipe não saberá se deve segui-lo ou não. Se o lateral o seguir, você cria um espaço para o seu lateral subir. Se ele não seguir, e o ponta se mover por dentro e por trás do lateral contrário, ficará sozinho. E se for um jogador como Sterling, com um bom “um contra um”, o adversário terá um problema. Muitos treinadores consideram que, quando um ponta vai por dentro, já não é para o lateral, mas para o jogador que está em sua zona. Eu prefiro que o lateral não o siga. Agora o conceito é mais por zona. Não significa que cada um dentro de sua zona fique parado: você se move dentro de um raio de 10 metros. Depois disso você pode sair ou não, dependendo dos homens cobertos. Quando os times cobrem mais todas as zonas do campo, talvez você receba a bola mas depois não terá espaço. Quando o comportamento é mais de marcação homem a homem, é mais difícil receber, mas você pode arrastar seu homem, não para receber a bola, e sim para que um companheiro a receba.

P. O que De Bruyne tem?

R. Ele jogou bem com dois volantes. Jogou bem como ponta, estando aberto na direita, na esquerda indo para dentro. Jogou bem como meia ofensivo pela direita e como atacante. Tecnicamente é muito bom, é muito generoso no campo, excepcional com a bola parada. E muito inteligente: no Bernabéu jogou muito bem como falso nove. É jovem, tem muita chegada, é o jogador com mais assistências em cada temporada. Nunca reclama.

P. Alaba se transformou num dos zagueiros mais importantes da Europa. Como foi sua passagem de lateral para o meio da defesa?

R. Alaba passou um pouco despercebido no futebol mundial, apesar de suas qualidades impressionantes. Se for contratado por uma equipe que defende esperando atrás, para deixar a intermediária mais vazia, é melhor que o coloquem como lateral. Mas para defender na frente ele é perfeito porque é rapidíssimo. Por isso, agora o Bayern está apertando na frente, e o Alaba está funcionando tão bem como zagueiro.

P. Laporte também tem essas qualidades?

R. Laporte também é um zagueiro para jogar assim. É impressionante: rápido, com poderio, saída de bola, deslocamento em passes curtos e longos. É ideal apesar de ter 1,90m, porque nos primeiros metros da volta, para correr para trás, é rapidíssimo. Por isso Pep no Barça colocou Abidal como zagueiro. Ele era igual ao Alaba nisso. Quando os rivais percebem que você tem 70% da [posse de] bola e é agressivo na pressão jogando no campo de ataque, todos procuram jogar nas suas costas. São incontáveis as vezes em que Abidal cruzou por trás do outro zagueiro para evitar uma jogada com perigo de gol. Por isso Pep escalou Mascherano como zagueiro. Que treinador coloca um jogador de 1,70m nessa posição? Na Premier League dizem que você está louco. Mas Mascherano era rapidíssimo e sempre solucionou muitíssimos problemas.

P. Por que os zagueiros sofrem tanto no sistema de Guardiola?

R. Se você tem a bola, o que precisa num zagueiro? Não apenas que seja atrevido para sair jogando com a bola controlada. Você tem que está muito atento a todos os detalhes do jogo. Ser rápido para girar e muito intuitivo para sair 20 metros para buscar o resultado.

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