Após resistir, futebol brasileiro se blinda contra coronavírus e suspende campeonatos

Mesmo diante da paralisação em várias ligas pelo mundo, rodadas dos Estaduais foram mantidas no fim de semana. Dirigentes param torneios em recuo depois dos protestos de jogadores

Jogadores do Grêmio entram em campo com máscaras como forma de protesto.
Jogadores do Grêmio entram em campo com máscaras como forma de protesto.Richard Ducker

O sistema de som da Arena Corinthians simulava o barulho de torcedores nas arquibancadas, que estavam vazias. Uma tentativa, em vão, de disfarçar o clima nada propício para a prática do futebol. Com essa atmosfera artificial, o jogo entre o time da casa e o Ituano terminou empatado e foi disputado sem torcida, assim como boa parte dos embates válidos pelos campeonatos estaduais em todo o país, devido à epidemia do coronavírus. Em São Paulo, a medida dos estádios vazios só valeu em partidas realizadas na capital, onde há registro de transmissão sustentada (quando não é possível identificar a origem da infecção pelo vírus), e no clássico entre Guarani e Ponte Preta, nesta segunda-feira, em Campinas, pelo Campeonato Paulista.

A Federação Paulista de Futebol (FPF) resistiu em promover a rodada sem torcida até receber a recomendação do Ministério da Saúde na manhã da última sexta-feira. Porém, nesta segunda, em reunião com os representantes dos clubes, a Federação se viu forçada a paralisar o Campeonato Paulista por tempo indeterminado. Na quinta, a Conmebol havia suspendido as próximas rodadas da Copa Libertadores e Sul-Americana, além da abertura das Eliminatórias para a Copa do Mundo. No domingo, foi a vez da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciar a paralisação de todas as competições nacionais em andamento.

Tal qual a FPF, mais federações, como as do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, também decidiram nesta segunda pela suspensão de seus campeonatos. Os anúncios surgem após um fim de semana de constrangimentos, protestos e pressão dos jogadores. Pelo Campeonato Carioca, no sábado, jogadores da Portuguesa foram orientados a evitar contato físico com profissionais do Flamengo. Um dos vice-presidentes do clube rubro-negro, Maurício Gomes de Mattos, testou positivo para o coronavírus.

Depois da partida, o técnico português Jorge Jesus criticou a realização do confronto no Maracanã. “Isso não é uma brincadeira. É um vírus que aparece facilmente por todo lado. A gente tem que defender os jogadores, não são super-homens”, disse o treinador, que relatou ter um amigo infectado pela doença. Nesta segunda, o Governo de Portugal confirmou que Mário Veríssimo, que trabalhou como massagista em comissões técnicas lideradas por Jesus, se tornou o primeiro caso de vítima fatal do coronavírus no país. O Flamengo informou que o teste de seu técnico também deu “positivo fraco ou inconclusivo” para o Covid-19 e solicitou a contraprova.

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Pelo mundo, vários campeonatos, como ligas nacionais europeias e a Champions League, foram suspensos por causa do avanço do coronavírus. Na Espanha, o técnico de uma equipe infantil, que tratava de uma leucemia, morreu aos 21 anos por complicações da nova gripe. O River Plate, na Argentina, se recusou a disputar uma partida da Copa da Superliga depois de isolar o zagueiro Thomas Gutierrez com sintomas da doença. Apesar das paralisações de torneios em escala global, o presidente Jair Bolsonaro utilizou o futebol como argumento para seguir menosprezando os impactos e a dimensão da pandemia. Em entrevista à CNN Brasil neste domingo, e para o jornalista José Luiz Datena nesta segunda, o presidente afirmou discordar do cancelamento de jogos, o que chamou de histeria prejudicial à economia do país.

“Você cancelar jogos de futebol contribui para o histerismo”, disse Bolsonaro, que, neste domingo, contrariou recomendação de seu próprio Ministério ao deixar o Palácio do Planalto e cumprimentar integrantes de manifestação favorável ao Governo em Brasília. “A CBF poderia pensar em vender uma carga de ingressos de acordo com a capacidade dos estádios, porque cancelar não vai conter o vírus. A economia não pode parar. Vai gerar desemprego.” De acordo com a CBF, a interrupção das disputas em campo salienta “a responsabilidade do futebol na luta contra a expansão da Covid-19 no Brasil”.

Apesar da orientação do Ministério da Saúde para cancelamento de atividades com aglomeração de público ou portões fechados em eventos esportivos, alguns jogos ainda tiveram a presença de torcidas no fim de semana. Em Recife, mais de 4.000 torcedores acompanharam a derrota do Náutico para o Fortaleza pela Copa do Nordeste. Durante a partida, o Governo de Pernambuco emitiu um decreto determinando portões fechados em todos os outros jogos realizados no Estado, que já confirmou sete casos da doença.

Ainda na sexta-feira, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, revoltou jogadores ao declarar que “aí o risco é deles”, ao ser questionado se a manutenção de partidas com portões fechados não colocaria em risco a saúde dos protagonistas do espetáculo. “Risco é nosso, grande resposta, grande governador, obrigado pelo respeito com os atletas”, ironizou o zagueiro do Vasco, Leandro Castán. Além do elenco vascaíno, jogadores de Botafogo e Fluminense protestaram contra a realização dos jogos ao entrar em campo. Em Porto Alegre, na Arena do Grêmio, atletas do tricolor gaúcho usaram máscaras em gesto de descontentamento. “Não estamos imunes. Não adianta nada fechar os portões. A torcida fica protegida e dane-se quem trabalha no futebol?”, questionou o técnico Renato Portaluppi, que cogitou até uma greve caso a continuidade do Estadual não fosse revista.

Rival do Grêmio, o Internacional também se posicionou criticamente em relação à continuidade das competições. Os argentinos Damián Musto e Andrés D’alessandro alfinetaram cartolas nas redes sociais. “O que estão esperando? Parem tudo, f…” Jogam com a vida da gente como se fosse um videogame. Parem antes que seja tarde”, postou Musto. O capitão do time, por sua vez, foi mais direto. “Protejam vidas”, escreveu D’alessandro. Antes da goleada sobre o São José, ele já havia manifestado sua opinião em entrevista coletiva. “Acho que tem que suspender tudo. Não tem que jogar. Como já fizeram na Europa, em outros lugares e outros esportes.” O Rio Grande do Sul tem oito casos confirmados de Covid-19. Marcelo Medeiros, presidente do Inter, realizou um teste após suspeita de contrair a doença e aguarda o resultado do exame em quarentena.

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