Bolsonaro rompe isolamento e vai a atos contra o Congresso em meio à crise do coronavírus

Dias após recomendar, ao lado do ministro da Saúde, que protestos fossem adiados para frear o vírus, presidente tira selfies com manifestantes, mas atitude gerou críticas

O presidente Jair Bolsonaro, em frente ao Palácio do Planalto neste domingo, com apoiadores que protestavam contra o Congresso e o Judiciário.
O presidente Jair Bolsonaro, em frente ao Palácio do Planalto neste domingo, com apoiadores que protestavam contra o Congresso e o Judiciário.SERGIO LIMA / AFP

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Orientado a ficar isolado, mesmo que seu teste para o coronavírus tenha dado negativo, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ignorou o pedido da equipe médica e entrou em contato com parte da multidão que participou de um ato contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal neste domingo, em Brasília. Fazendo uma transmissão ao vivo na sua página do Facebook, o presidente desceu a rampa do Palácio do Planalto tocou nas mãos de dezenas de militantes, pegou os celulares deles para tirar selfies, balançou bandeiras e faixas dadas pelos seus apoiadores. Tudo isso sem nenhuma proteção individual, como máscara ou luvas. A aparição dele foi de surpresa. Não avisou os organizadores do protesto.

Na semana passada, o presidente foi submetido a um exame para saber se ele havia sido infectado com o coronavírus, depois de ao menos três pessoas que estavam na comitiva presidencial que viajou aos Estados Unidos foram diagnosticadas com Covid-19 (alguns veículos, como a Folha de S.Paulo, falam em ao menos seis pessoas infectadas). Seguindo os conselhos de parte de seu staff, na quinta-feira ele fez um pronunciamento oficial em rede de rádio e TV, além de uma transmissão na sua página do Facebook ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pedindo a suspensão dos atos. “Os movimentos espontâneos e legítimos marcados para 15 de março atendem aos interesses da nação, balizados pela lei e pela ordem. (...) Precisam, no entanto, diante dos fatos recentes, ser repensados. Nossa saúde e a de nossos familiares devem ser preservadas. O momento é de união, seriedade e bom senso”, afirmou, no pronunciamento.

Neste domingo, entretanto, por cerca de uma hora, Bolsonaro promoveu um ato político em que demonstrou estar mais preocupado com sua imagem que com a pandemia da doença. Perguntava para o cinegrafista quantas pessoas estavam assistindo sua transmissão ao vivo, pedia que traduzissem o que estava escrito em um dos bonés da plateia que vestiu (Make Brasil Empire Again – faça o Brasil império de novo), ajeitava o cabelo para as selfies e fazia gestos calculados, como nos momentos em que apontava para o Palácio do Planalto e depois para o público, como se dissesse que o prédio pertencia ao povo. Ou quando elevou as mãos aos céus como se estivesse agradecendo a Deus. Teve ainda acenos de Bolsonaro a seus apoiadores enquanto eles dizia “Fora Maia”, em alusão ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e quando os militantes gritavam a favor de um novo AI-5 (o ato institucional da ditadura militar que fechou o Congresso e cassou direitos políticos). O presidente ainda fez uma paradinha na rampa para ouvir o público cantar o hino nacional, pouco antes de ele entrar no Planalto de novo.

Em mais de uma vez Bolsonaro disse seu cinegrafista que esse apoio popular que ele recebia “não tinha preço”. Não faltaram as críticas à imprensa, como de costume. “Não tem preço o que esse povo está fazendo aqui nesse dia de hoje. Apesar de eu ter sugerido, não posso mandar, a manifestação não é minha, o adiamento dado a esse vírus. Que se eu falar que está superdimensionado vai dar manchete nesse lixo chamado Folha de S. Paulo, entre outros jornais.” Entre o público que caminhou ou dirigiu pelas Esplanada dos Ministérios (também houve uma carreata), havia dezenas de faixas pedindo intervenção militar. Mas em sua transmissão pelas redes sociais, o presidente negou o que estava vendo pelas ruas. Falou que seus apoiadores não pediram o fechamento do Legislativo ou Judiciário. “Eles não estão lutando contra poder nenhum. Estão lutando pelo Brasil”, afirmou. Em outro momento, completou: “Com tudo contra, imprensa, vírus, manifestações, o povo foi pra rua”.

Horas antes de cumprimentar seus apoiadores, o mandatário já havia compartilhado vídeos e fotos das manifestações realizadas em algumas cidades brasileiras, contrariando a determinação das principais autoridades mundiais de saúde de que se evite aglomerações. Horas depois, o ministro da Saúde frisou à rede de TV CNN Brasil que fazer manifestações em pleno enfrentamento doo novo coronavírus é contra o bom senso: “é completamente equivocado fazer aglomeração”. Já o presidente da Câmara foi ao Twitter criticar o presidente, reforçando a seriedade da crise mundial.

O Brasil tinha, até este domingo, 200 casos confirmados do novo coronavírus, inclusive por transmissão comunitária, ou seja, quando não é possível detectar onde ocorreu a contaminação. Na última semana, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou que a crise se tornou uma pandemia mundial, o Ministério da Saúde passou a orientar o endurecimento das medidas de combate à propagação do vírus, entre elas a suspensão de eventos para evitar aglomerações de pessoas. Em Brasília, os organizadores estimaram em 8.000 o número de manifestantes que participaram da marcha a pé, além da carreata.

A reportagem questionou a Secretaria de Comunicação da Presidência por qual razão o presidente havia contrariado a orientação de sua equipe médica ou se houve alguma mudança de direcionamento. Mas até a publicação desta reportagem, o órgão não havia respondido. Bolsonaro estava acompanhado do presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico Antonio Barra Torres.

Pedidos de intervenção e aplausos ao AI-5

Nas ruas de Brasília e de São Paulo, duas das principais cidades que registraram atos, era comum ouvir manifestantes pedindo o fechamento do Legislativo ou do STF. “A intervenção militar é o meio mais fácil e mais rápido do país se livrar dessa maldição que é a corrupção”, disse o mestre de obras Valmir Ribeiro, de 45 anos.

Entre os manifestantes havia pessoas como o militar da reserva e médico Vitório Campos, 65, que eram mais radicais. Ele segurava uma faixa com os dizeres: “Contra os vírus do STF e do Congresso, álcool e fogo! Fodam-se”. Indagado por qual razão defendia incendiar outros poderes, assim respondeu Campos: “O povo brasileiro já está cansado de estar há 30 anos ou mais sob o jugo desses bandidos, de poucos bandidos, talvez uma centena ou mais que estão no comando desta nação”.

Na ala mais moderada dos manifestantes, estavam o casal formado pelo empresário Luiz Pereira, 58, e pela dona de casa Liliane Melo, 52. Eles são contra o fechamento de poderes. “Temos visto e ouvido que ele [Bolsonaro] está sendo sabotado. Estamos aqui para apoiá-lo”.

Ao contrário do presidente, havia um pequeno grupo de manifestantes que demonstrou preocupação com a disseminação do coronavírus. “Vim aqui por patriotismo, pelo presidente, mas viemos prevenidas”, disse a aposentada Maria de Fátima Souza, 65, anos, vestida com uma máscara cirúrgica. Também mascarada, a sua irmã, a faxineira Margarida Aleixo, 59, disse que desconfiava das orientações para que a manifestação fosse suspensa. “Pô, na segunda-feira vou trabalhar no metrô cheio. Por que as escolas fecham e o metrô não?”, disse. E completou: “Para mim houve uma certa manipulação para que não estivéssemos aqui”.

“Vírus da corrupção"

Na página no Facebook do movimento NasRuas, a manifestação marcada para 13h em São Paulo aparecia como “adiada”. Isso não impediu, contudo, que centenas de pessoas vestidas de verde e amarelo se concentrassem no centro da avenida Paulista, a via mais icônica da maior cidade do Brasil, com uma enorme bandeira deixava claro em sua mensagem: “Congresso inimigo do Brasil”. O comando do ato ficou por conta do Movimento Direita Conservadora. Os organizadores gritavam do alto de carro de som palavras de ordem a favor do presidente Bolsonaro e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Em São Paulo, a maioria dos cartazes e bandeiras continha mensagens contra as instituições ou pediam uma intervenção militar e um novo Ato Institucional de número 5 (AI-5). “Cabe às Forças Armadas não permitir que sejam frustradas as aspirações de paz”, dizia um cartaz de um senhor. “AI-5 para defender o Brasil dos terroristas. Morte aos ladrões”, pedia uma faixa pendurada em postes. Outra mensagem aparecia entre os manifestantes: “Artigo 142 [da Constituição], leia-se AI-5”.

Os alvos preferenciais foram Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente. Ministros do STF, sobretudo o presidente Antônio Dias Toffoli e Gilmar Mendes, também estavam entre aqueles que sofreram ataques dos manifestantes. “Esse rato deve ser cassado por conspirar contra o Brasil”, pedia um casal, em referência a Maia. O governador João Dória e o prefeito Bruno Covas também se tornaram alvos, uma vez que, segundo os organizadores, não foi permitida a entrada do veículo na Paulista -ele permaneceu parado na Pamplona ao longo do protesto.

Os manifestantes eram em sua maioria pessoas mais velhas e sem máscaras de proteção contra o coronavírus. Havia inclusive alguns cartazes ironizando o risco de contágio. "O vírus que mata brasileiros há muitos anos é a corrupção”, dizia um deles. “CorruptosVírus, esse mata”, anunciava outro.

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