Opinião
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Árbitro de vídeo: isso é muito ‘Black Mirror’

Mistura de tecnologia e imediatismo pode corromper essência do futebol a partir do VAR

Árbitro recorre ao vídeo para revisar jogada.
Árbitro recorre ao vídeo para revisar jogada.

Para início de conversa, não sou desses que achincalham o árbitro de vídeo, mundialmente conhecido como VAR, por achar que ele acabará com as polêmicas do futebol na roda de bar. Mas também não sou desses que encaram a tecnologia como recurso irremediável para a evolução de um jogo, sobretudo quando se trata do esporte mais popular do planeta. Minhas primeiras impressões a respeito do VAR, que, por decisão do Conselho da FIFA, será utilizado pela primeira vez em uma Copa do Mundo este ano, se resumem à expressão derivada da série de televisão britânica que faz sucesso por mostrar que o avanço tecnológico esconde um lado obscuro: “Isso é muito Black Mirror”.

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Em Black Mirror, cada episódio retrata uma solução genial ou sacada brilhante da tecnologia que, a princípio, revoluciona a vida das pessoas. Com o passar do tempo, moldadas pela ganância, a mania de perfeccionismo e o egoísmo do ser humano, os aparatos acabam potencializando o que temos de pior. Um dos teasers produzidos pela Netflix dá uma noção da mensagem que a série tenta passar: “O futuro não é uma faísca distante, mas uma luz forte queimando seus olhos. Este é o futuro onde estamos agora. Onde nossos telefones são a primeira coisa que tocamos ao acordar e a última que tocamos antes de dormir. Radiantes telas sedutoras que não cansamos de contemplar. Bem-vindo ao futuro onde o nosso verdadeiro reflexo só se revela quando a tela fica escura. Bem-vindo à escuridão. Espero que ela seja esclarecedora”.

Obviamente que, por se tratar de obra de ficção, há exageros e uma viagem futurística em alguns episódios. Mas, sem pregar moralismos, Black Mirror é um convite à reflexão sobre os novos tempos, ressaltando que a tecnologia está mais para faca de dois gumes do que para via de mão única, como nos habituamos a absorvê-la. A implementação a toque de caixa do árbitro de vídeo, na base da canetada, como se o recurso eletrônico fosse algo obrigatório para a sobrevivência do futebol, deve, sim, ser questionada. O VAR é um mergulho na escuridão. Ninguém é capaz de mensurar o que o futebol se tornará após sua adoção. Melhor ou pior? É preciso sair um pouco do gramado e analisar o jogo, e todas as jogadas possíveis, de forma mais ampla.

O avanço tecnológico, cedo ou tarde, cobra seu preço. A internet nos deu mais informação, mas tem dilapidado nossa capacidade de memória; aplicativos de comunicação encurtaram distâncias, mas também o contato olho no olho. Estamos perdendo a habilidade de interação pessoal, a essência humana abduzida por tablets e smartphones. Redes sociais deveriam estimular debates, mas têm se tornado ambientes frutíferos para discursos de ódio e notícias falsas. Evidentemente que a evolução científica, cujos progressos são inquestionáveis, não representa por si só uma ameaça, mas sim o que fazemos com ela. Na medicina, por exemplo, as terapias gênicas sinalizam para a cura de doenças até então incuráveis, mas, ao mesmo tempo, abriram espaço para aproveitadores introduzirem o doping genético no esporte, que pode melhorar o desempenho de atletas com alterações de DNA.

Do futebol à medicina, debates sobre novas tecnologias deveriam ser mais aprofundados e transparentes. Há quem diga que a espera do futebol já foi longa demais, tendo em vista que outras modalidades como tênis e futebol americano instituíram a arbitragem eletrônica há um bom tempo. Mas por que o futebol, com seu caráter singular, não poderia ser uma zona de respiro, onde desligamos celulares e apreciamos um jogo em que as interpretações e emoções humanas sobressaem? Um lugar onde todos admitem que o árbitro jamais será perfeito. “Poxa, mas vários times desembolsam milhões e arriscam perder seu investimento por um erro de arbitragem”, diriam os tecnocratas mais apressados. Dinheiro, aliás, é um bom ponto para a discussão.

Fora o lobby econômico de empresas interessadas em faturar com a tecnologia da arbitragem no futebol, o VAR tem sido utilizado como instrumento político pela FIFA e suas federações. Basta lembrar que a entidade, a mesma que dá as cartas na International Board – órgão que regulamenta as regras do futebol –, só abraçou a causa do árbitro de vídeo depois do escândalo de corrupção que levou parte de seus cartolas mais influentes à prisão, em 2015. Agora, comandada por Gianni Infantino, no esforço de vender uma imagem de modernidade e página virada, a FIFA apela ao VAR como cortina de fumaça para despistar aqueles que preferem enxergar o futebol somente como um jogo jogado no campo, e não como um intrincado fenômeno social. Qual é a legitimidade de uma instituição afundada em denúncias de corrupção para empurrar o árbitro de vídeo sob a bandeira da justiça e da meritocracia?

Árbitros de vídeo conferem todos os lances em cabine no estádio.
Árbitros de vídeo conferem todos os lances em cabine no estádio.AFP

Tachar os poucos que questionam a apressada e conturbada adoção do VAR como refratários à mudança, retrógrados, inimigos da modernidade, faz parte do roteiro. Há cegueira também em quem acusa de cegos os que se recusam a engolir goela abaixo mais uma cartada da FIFA. A entidade quer mesmo levar lisura e justiça aos jogos de futebol? Que comece estabelecendo mecanismos eficazes para reduzir o abismo financeiro criado pelos supertimes que competem em ligas desiguais, em que os clubes mais ricos tendem a consagrar sua hegemonia independentemente dos erros de arbitragem. A Confederação Brasileira de Futebol copia o cinismo da nave-mãe. No Brasil, mais de 80% dos jogadores profissionais ganham menos de 1.000 reais e a maioria dos clubes conta com calendário inferior a um semestre. Cansamos de ver duelos entre atletas de time grande e boleiros semiamadores que mal, mal conseguem fazer uma boa refeição por dia. No país do futebol, cinco equipes da Série A faturam praticamente o mesmo montante das outras 15 com direitos de televisão. E a CBF, que se mostra insensível diante de tanta desigualdade e injustiça, o que faz? Pretende usar o árbitro de vídeo como verniz de vanguarda e solução para os problemas estruturais do nosso futebol, desde que os clubes paguem a conta.

Com ou sem VAR, jamais existirá meritocracia em condições tão desiguais. A lógica vigente no futebol é cruel. Aos grandes, tudo. Aos pequenos, o que sobrar. A exemplo do Campeonato Gaúcho, que chancelou o árbitro de vídeo apenas para o clássico entre Grêmio e Internacional. Não houve qualquer mobilização dos que defendem um jogo mais justo contra o desequilíbrio técnico que decisões desse tipo geram em uma competição. Ignorando todas as variáveis que fazem do futebol um terreno distante da igualdade, criou-se a ilusão de que o árbitro de vídeo, enfim, agregará ao esporte o conceito de isonomia – a ponto de um deputado federal protocolar projeto de lei no Congresso Nacional para tornar o VAR obrigatório em campeonatos profissionais no país sob a justificativa de “garantir a lisura, transparência e justiça”.

O árbitro de vídeo no futebol ainda está em fase de operacionalização, teste e aprimoramento. Implementá-lo na Copa do Mundo da Rússia, nessas circunstâncias, é mais uma jogada oportunista e populista orquestrada pela FIFA. Usa seu maior torneio como experimento, pois o VAR chega à Copa sem um protocolo rígido, consolidado, muito menos comunicado. Enquanto os próprios árbitros batem cabeça para se entender, a regra do jogo, antes tão simples, se transforma em um campo sombrio para os torcedores. Embora o manual indique que apenas quatro situações de jogo são passíveis de conferência pelo vídeo (gol, pênalti, cartão vermelho e identificação equivocada de atleta), o uso da tecnologia nas quatro linhas ainda é uma ciência imprecisa. No ano passado, Kaká, quando ainda jogava pelo Orlando City, foi expulso depois de o árbitro interpretar, com o auxílio do replay, uma brincadeira com um rival como agressão. É só um dos casos insólitos de trapalhadas.

Na França, a liga rescindiu contrato com a empresa responsável pelos aparelhos após vários problemas de funcionamento. Na Alemanha, boa parte dos técnicos e jogadores rejeita o VAR. Em Portugal, os ataques se direcionam a uma suposta seletividade do árbitro de vídeo. Mesmo com o recurso a todo vapor, clubes se dizem prejudicados pelo critério dos juízes, que seguem determinando quando e como recorrer à ajuda eletrônica. Há quase um consenso universal de que o nível da arbitragem precisa melhorar, principalmente na realidade brasileira. Esses árbitros, tão questionados, já estão preparados para operar um recurso simples no papel, mas complexo na prática? A falta de qualificação adequada dos árbitros, obrigados a assimilar a nova realidade aos trancos e barrancos, é um problema que reforça a inconsistência do protocolo.

O futebol vive um momento de pressão pela necessidade de encaixotar tudo em uma redoma de perfeição

Antes de entrar em cena numa Copa do Mundo, o árbitro de vídeo carecia, no mínimo, de um período de testes maior, até que haja um manual respeitável e melhor compreendido pela comunidade do futebol. Mas vivemos um momento de histeria e ansiedade coletivas. Em nome dos milagres prometidos pela tecnologia, deixamos de acreditar e investir nas pessoas. Árbitros continuarão sendo tratados por dirigentes e confederações como profissionais de segunda categoria, subvalorizados, colocados na geladeira ao primeiro sinal de erro. Até o momento, nenhum cartola cogitou alocar o mesmo dinheiro despendido pelo árbitro de vídeo na formação e capacitação de árbitros humanos. Porque “ser humano” já não basta mais.

Somos pautados pela lógica da urgência, queremos o controle da vida em tempo real. Repare. Todo técnico que chega a um clube já amarga altas taxas de reprovação. Ninguém serve mais. O mesmo vale para os árbitros. Todos “não prestam” ou “são despreparados”. A tecnologia nos deixou mais rigorosos e imediatistas, vide as filas gigantescas formadas em frente às lojas a cada lançamento da Apple, como se o aparelho da vez representasse a cura para uma doença terminal. Tratamos meros avanços tecnológicos como a descoberta da pólvora, santidades inquestionáveis. Quando, na verdade, eles têm desembocado cada vez mais em sistemas e dispositivos efêmeros, fadados à obsolescência precoce. Ninguém mais se lembra do ICQ, que há alguns anos viveu seus dias de Whatsapp. O Orkut deu lugar ao Facebook, tão rápido quanto a câmera dos celulares atropelou a máquina digital.

Há sempre a necessidade de mais e mais, pois a tecnologia se retroalimenta da própria insuficiência diante dos anseios humanos. No caso do futebol, primeiro vem o árbitro de vídeo, prometendo “mais justiça ao jogo” em lances tidos como “capitais”. E depois, que os torcedores, ansiosos pelo personagem justiceiro encarnado pelo VAR, descobrirem que a tecnologia não elimina todos os erros? Depois que perceberem que árbitros com síndrome de protagonismo seguirão se esforçando para aparecer mais que os jogadores? Depois que entenderem que a concepção de justiça no esporte vai muito além dos equívocos de arbitragem? Certamente vão querer mais. Mais tecnologia, mais lances passíveis de análise, mais burocratização. Da forma atropelada como vem sendo disseminado e manipulado por federações especialistas em ilícitos às escuras, o VAR corre risco de esbarrar, no futuro, em um ponto de inflexão semelhante ao das arenas modernas. Antes, estádios padronizados e gourmetizados pareciam o caminho inevitável para todos os clubes. Hoje, já há um movimento que rejeita a elitização e torcidas que se assemelham a plateias, algo que tende a se acentuar com a crescente mecanização do jogo.

O futebol vive um momento de pressão pela necessidade de encaixotar tudo em uma redoma de perfeição. Sendo que sua imprevisibilidade ímpar, em alguma medida, se deve à imperfeição do crivo humano. Defensores incondicionais do VAR apontam a suposta distopia de o futebol ainda admitir erros, enquanto a tecnologia potencializada por replays e tira-teimas escancara a falibilidade dos árbitros, como fundamento para a adoção imediata do vídeo. Existe uma tendência, natural em um meio que move tanta paixão, de potencializar e dar dimensão exagerada a erros do apito, como se a maioria dos jogos fosse decidida por equívocos dos árbitros. Não é verdade. Assim como é inegável o alto índice de acertos em jogos submetidos ao VAR, que, ao contrário do que se imaginava, não parou os jogos por tanto tempo. O protocolo também pode evoluir com mais testes.

Porém, dar sinal verde para a tecnologia em um momento de total falta de credibilidade das instituições que regem o futebol não é a mesma coisa que adaptar regras mais condizentes com a evolução da modalidade, como a quarta substituição em prorrogações. Levar em conta apenas os números satisfatórios de testes iniciais do VAR para legitimar o mergulho às escuras é ignorar que há muito mais coisa em jogo. E a principal delas, talvez, seja a essência do esporte que configura um universo popular, democrático, dinâmico e de fácil entendimento. O futebol é o espelho do que somos como humanidade. E se há alguém plenamente satisfeito com o que nos tornamos depois da banalização da tecnologia em nossas vidas, bem-vindo à escuridão. Espero que ela seja esclarecedora.