América Latina se divide em dois ritmos de recuperação econômica

Chile e Brasil, países em que programas de ajuda estatal foram substanciais, lideram em atividade econômica, enquanto o México e a Argentina ficam para trás

Um homem de 63 anos se senta na cozinha de sua casa no acampamento Pedro del Río Zanartu em Concepción, Chile.
Um homem de 63 anos se senta na cozinha de sua casa no acampamento Pedro del Río Zanartu em Concepción, Chile.

De rígidos confinamentos, os países da América Latina passaram às restrições intermitentes, forçando a passagem de uma nova normalidade econômica. A região sofreu a morte de um milhão e meio de pessoas pela covid-19, enquanto a pobreza aumentou, a inflação subiu, o trabalho mudou e, com ele, a perspectiva do futuro. É nesse contexto em que ocorre a recuperação econômica, diferente em cada país, mas com um denominador comum: o impacto positivo dos estímulos fiscais implementados pelos governos.

Setembro trouxe os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre do ano e que permite retratar a recuperação das economias em comparação aos seus níveis pré-pandemia. Os resultados evidenciam: aqueles que investiram em estímulos fiscais para ajudar a população desempregada estão na dianteira. Os que não o fizeram, porém, não só ficaram para trás, como, também, perderam crescimento potencial no futuro, dizem especialistas consultados.

“Estamos exatamente um ano após do começo do processo de recuperação”, diz Alfredo Coutino, analista especializado na região da Moody’s Analytics. A maioria dos países latino-americanos iniciou a ascensão econômica no terceiro trimestre do ano passado e, em julho, a maioria da região deu o sinal verde à reabertura das economias. “E o que vemos é que existem dois grupos de países: no primeiro estão o Chile, o Brasil e o Peru, já com nível de PIB próximo ao que tinham antes da pandemia. No segundo grupo estão os países mais atrasados, entre eles o México e a Colômbia”. O PIB do Brasil, do Chile, do México e da Argentina, combinado, representa 66% do PIB total da região.

O que os três países ganhadores têm em comum, diz Eugenio Sánchez, economista e analista de dados, é que investiram uma grande quantidade de recursos em estímulos fiscais. Elementos que foram gastos por meio de uma combinação de programas, transferências diretas às famílias mais pobres, empréstimos a empresas, isenções de impostos e subsídios ao desemprego —este, em particular, uma estratégia que permitiu que os funcionários voltassem a trabalhar normalmente durante a reabertura, preservando a relação empresa-empregado.

“Vale a pena entender quais são as determinantes do crescimento a longo prazo, que nesse caso é a força de trabalho”, diz Sánchez por telefone, de Londres. “As pessoas incorporadas ao mercado de trabalho e o capital acumulado, em conjunto, determinam a capacidade instalada de produção de um país e, portanto, seu crescimento a longo prazo. Então, quando há alguma situação como a da pandemia, em que obrigamos a economia a parar para conseguir o distanciamento social e forçamos as pessoas a ficar em casa, é possível ver a destruição de capital”.

Entre as maiores economias da América Latina, o México é o país que menos destinou medidas de gasto adicional como porcentagem do PIB. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o México gastou 0,7% do PIB em medidas adicionais para conter o dano da pandemia e se negou a fazer isenções de impostos. Enquanto isso, o Chile destinou 14%, o Brasil 9,2%, o Peru 7,8%, a Colômbia 4,7% e a Argentina 4,5%. O Chile, por exemplo, gastou muitos recursos em seguro-desemprego e subsidiou parcialmente a folha de pagamento para evitar que as empresas quebrassem e os empregos não se perdessem. O Brasil também aumentou o gasto público. O resultado disso é uma recuperação mais rápida.

Cautela ‘em excesso’

“O México tem sorte de ter uma economia tão grande e ter, ao lado, os Estados Unidos implementando um estímulo tão grande. No entanto, o México estaria melhor se o Governo tivesse implementado um estímulo fiscal maior”, opina Luciano Rostagno, estrategista de mercados para a América Latina do Banco Mizuho do Brasil. Autoridades norte-americanas diminuíram durante a semana prognóstico de crescimento para este ano de 7% para 5,9%. “O México foi cauteloso demais em seus gastos, e por isso a economia está sofrendo pela pandemia”.

As consequências dessa decisão já são vistas nos dados recentes, mas também serão vistas futuramente. “O país perdeu crescimento potencial”, acrescenta Rostagno, se referindo à estimativa de quanto uma economia pode crescer sem sofrer problemas de inflação, “e a razão para isso é que não agiu para amortecer o choque da pandemia. Isso afetou o sentimento de negócios, o adiamento de investimentos e a perda da taxa potencial de crescimento”.

Protestos e inflação

O programa de apoios estatais na Colômbia impulsionou a economia até o surgimento de protestos maciços que se tornaram violentos e custaram dezenas de vidas. As rupturas geradas, considerando que os protestos duraram meses, impactaram a economia do país, dizem os especialistas. A Argentina, por sua vez, tem uma inflação acima de 50% nos últimos 12 meses, o que limitou o crescimento do país.

“A Argentina continua tendo os mesmos problemas estruturais há 3 anos”, diz Coutino, “estiveram em recessão desde então e o país começou um processo de recuperação após a pandemia, no terceiro trimestre do ano passado, mas foi mais por um ricocheteio aritmético que ocorreu em praticamente todas as economias do mundo”.

O futuro

É evidente que há um crescimento positivo importante na América Latina neste ano, diz Coutino. “Agora, para aonde se move? Nossas projeções nos permitem antecipar que após a retomada econômica de 2021, a América Latina já se encaminha a uma fase de expansão econômica”. O Chile, o Brasil e o Peru continuarão crescendo neste ano acima de onde estava seu nível do PIB antes da pandemia, enquanto as outras economias, como o México e a Colômbia, poderão se expandir além do nível pré-pandemia em 2022.

As expectativas de inflação alta em todo o mundo fizeram com que alguns bancos centrais elevassem suas taxas de juros. “Esperamos que isso dê suporte às moedas da região em curto prazo”, diz Rostagno, “mas em uma perspectiva a longo prazo, a política continuará sendo um vento contrário”. A região enfrenta uma intensa temporada eleitoral neste e no próximo ano e a pandemia aumentou o descontentamento com os governos. “Isso aumenta o risco de políticas populistas”, opina Rostagno, “a Argentina, o Chile e a Colômbia são os próximos a ter eleições desafiadoras pela frente. No Brasil, ainda falta um ano às eleições gerais, o que dá tempo para melhorar” em termos de incerteza política.

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