Governo Bolsonaro

Ameaça de apagão, inflação e crise política: o campo minado para a retomada econômica do Brasil

País encara obstáculos, como o fim da alta dos commodities e a crise energética, que projetam um crescimento pífio em 2022 e já impactam o setor produtivo

Homem passa diante de cartazes do ministro da Economia, Paulo Guedes, em São Paulo no dia 30 de agosto.
Homem passa diante de cartazes do ministro da Economia, Paulo Guedes, em São Paulo no dia 30 de agosto.AMANDA PEROBELLI / Reuters

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A economia brasileira se recupera do tombo de 2020 com a pandemia de covid-19 e registra um crescimento de 12,4% neste trimestre, em comparação ao mesmo período de 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas os dados divulgados nesta quarta revelaram um desempenho pífio no segundo trimestre, com um recuo de 0,1% da atividade econômica entre abril e junho em comparação o trimestre anterior. A expectativa é fechar este ano com um PIB na casa de 5%, mas de 1,5% a 2% no ano que vem, muito baixo para recuperar as perdas durante a crise da covid-19.

“Foi o trimestre mais trágico, quando a pandemia abateu mais brasileiros”, classificou nesta quarta o ministro da Economia, Paulo Guedes. “Foi abril, maio e junho deste ano, com a segunda onda. Foi justamente quando entrou de novo o auxílio emergencial, a expansão dos programas de assistência. Nós mantivemos a responsabilidade fiscal de um lado e o compromisso da saúde dos brasileiros de outro lado”, declarou, segundo o jornal O Globo.

Os resultados revelam que o Brasil já esbarra em muitas pedras no caminho, impondo um desafio grande ao Governo de Jair Bolsonaro. A pouco mais de um ano das eleições presidenciais de 2022 e com a popularidade cada vez mais baixa —na última pesquisa XP, 54% consideram a gestão bolsonarista ruim ou péssima— , a economia se tornou um campo minado para o presidente. A recuperação acontece, puxada pela alta do preço das commodities, mas é desigual e não contempla os mais pobres. No horizonte estão a inflação, puxada pela alta do preço dos alimentos e da energia, o desemprego, uma crise hídrica que pode levar a um apagão energético e as ameaças golpistas que geram ainda mais incertezas na economia.

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Inflação

De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, a inflação nos últimos 12 meses ficou em 8,99%. Essa alta começou no setor de alimentos, com a o aumento da demanda por commodities e o real desvalorizado pressionando os preços para cima. “A inflação acaba tirando o poder de compra daquela renda que a família está acostumada a receber. Essas pessoas consomem menos e a atividade econômica fica mais fraca”, explica Julia Braga, economista da Universidade Federal Fluminense.

Com a alta do dólar, explica a economista, produtos da cadeia produtiva e bens intermediários que são importados acabam ficando mais caros. Há também aqueles produzidos no Brasil e que são exportados, como é o caso das commodities, cujos preços são determinados nos mercados internacionais. “Então o produtor só vai vender no mercado interno a um preço que é o equivalente ao que ele poderia ganhar lá fora”, explica. As famílias viram alimentos como arroz, feijão e carne bovina ficarem até 50% mais caros nos supermercados. “Tem esse efeito cascata que vai tirando bastante o poder de compra das famílias”, acrescenta.

Apagão

O Brasil está também sob o risco de uma nova crise energética, que traz de volta o medo de um apagão e a possibilidade de racionamento de energia. O forte período de seca desabasteceu as reservas das usinas hidrelétricas, ampliando a geração por meio das termoelétricas e a necessidade de importação de energia. O resultado foi uma alta nos preços da conta de luz, que já vem sendo sentida há alguns meses e deve piorar já neste mês. Nesta terça-feira, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez um pronunciamento oficial em cadeia nacional pedindo um esforço “inadiável” na redução do consumo, o que certamente vai impactar as empresas.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou ainda uma nova bandeira tarifária, chamada Escassez Hídrica. A taxa extra será de 14,20 reais a cada 100 kWh consumido e valerá de 1º de setembro até 30 de abril de 2022. “Essa alta acaba afetando também toda cadeia produtiva”, explica Júlia Braga.

Crise política insuflada pelo presidente

É consenso entre especialistas que as ameaças à democracia promovidas por Bolsonaro têm contribuindo de forma decisiva para alimentar a desconfiança dos agentes econômicos. O anúncio de protestos contra o Supremo no dia 7 de setembro, insuflados pelo presidente, mobilizou diversos setores da economia para repudiar qualquer gesto que ultrapasse limites democráticos. A escalada da crise política promovida pelo presidente pressionam o dólar e a inflação para cima e afugenta investimentos —e, consequentemente, mais crescimento econômico. Como resultado, o Banco Central começou a elevar as taxas de juros de modo a oferecer uma recompensa maior para quem comprar títulos da dívida pública e ao mesmo tempo controlar a inflação. A taxa Selic, que ficou em 2% entre agosto do ano passado e janeiro deste ano, agora se encontra em 5,25%.

Desemprego

Apesar da recuperação de 12,4% do PIB em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o desemprego segue alto e ficou em 14,1% no segundo trimestre deste ano, atingindo 14,4 milhões de brasileiros, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE. Na amostra anterior, a taxa era de 14,6%. Apesar do recuo, o número ainda é muito alto. A população subutilizada —aquela que está desempregada, que trabalha menos do que poderia, que não procurou emprego apesar de disponível para trabalhar ou que procurou emprego mas não estava disponível para a vaga— somou 32,2 milhões de pessoas.

De acordo com o economista Samuel Pessôa, da FGV, a recuperação da economia brasileira atinge sobretudo os setores mais escolarizados e formalizados que estão na agropecuária, no setor financeiro, nas seguradoras, no varejo... Mas fora dessa recuperação está toda uma gama de serviços que responde por 15% do PIB e 30% do emprego, metade dele informal. “Esse setor está 10% abaixo do nível pré-crise ainda”, explica. Assim como a inflação, o desemprego diminui o poder de compra da população e faz a roda da economia girar menos.

Desigualdade social crescente

Essa combinação de recuperação desigual, inflação alta e desemprego empobrece o Brasil e trouxe novamente o fantasma da fome. “A desigualdade crescente, no curto e médio prazo, limita o mercado interno, de modo que gera desincentivo ao investimento produtivo, já que parte importante da sociedade vê sua capacidade de consumo deteriorada, diminuindo a demanda”, explica a economista Débora Freire, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela explica que as empresas precisam ter boas perspectivas de retorno para tomar suas decisões de investimento. Por isso, as perspectivas de demanda são fundamentais.

”O aumento da desigualdade hoje é bastante danoso para a recuperação econômica. No longo prazo, os efeitos são de tendência de especialização produtiva, já que, com um mercado interno restrito, as atividades de exportação de commodities, no nosso caso, tornam-se, cada vez mais, a opção mais atrativa”, explica a economista. “O problema é que essas atividades dependem fundamentalmente de ciclos internacionais e são bastante concentradoras de renda”, completa. A desigualdade também traz “desperdício de talentos por falta de oportunidades, o que limita o crescimento da produtividade do país e a coesão social”, além de violência e instabilidade democrática, todo um cenário que também afugenta investimentos produtivos.


Contas públicas

Além das turbulências políticas, Bolsonaro e sua equipe econômica não conseguem dar garantias de que as regras fiscais serão respeitadas. Isso, mais uma vez, aumenta as incertezas com relação à economia brasileira e diminui expectativas e a confiança de investidores. “O equilíbrio das contas públicas e a sinalização a respeito da responsabilidade fiscal e do compromisso com o teto de gastos é fundamental para garantir um ambiente de taxa de câmbio, inflação e juros controlados”, explica o economista Felipe Salto, diretor-executivo do Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal. “Sem isso, a tendência de juros mais elevados persistirá, prejudicando o crescimento econômico já em 2022. O quadro de riscos elevados também afeta a qualidade do capital externo que entra no país e dificulta iniciativas ligadas à expansão dos investimentos e da produção”, complementa.

Fim da alta das commodities

Ainda que a recuperação econômica seja puxada pela alta das commodities, não está claro se os preços seguirão elevados até o fim do ano. A China já começa a ajustar sua demanda. “Com o alto preço dos fretes, Pequim passou a controlar os preços das commodities”, explica Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Entra nessa equação, mais uma vez, o período de seca no Brasil e o risco de um apagão, o que compromete duplamente o setor agropecuário, que representa cerca de 27% do PIB brasileiro. Existe uma enorme dependência nas exportações que pode custar ainda mais caro. Os investimentos públicos e privados atravessam seus piores anos e, sem a confiança de investidores, sem uma política fiscal clara, com mercado consumidor empobrecido pela inflação alta e pelo desemprego, restam poucas alternativas para o Brasil crescer.

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