Colômbia volta ser o país mais perigoso para ambientalistas

Sessenta e cinco dos 227 assassinatos de ambientalistas registrados em todo o mundo em 2020 ocorreram no país andino, de acordo com o relatório anual da Global Witness

Funeral do líder indígena Edwin Dagua no município de Caloto, assassinado por tentar proteger a reserva ecológica Huellas, na Colômbia.
Funeral do líder indígena Edwin Dagua no município de Caloto, assassinado por tentar proteger a reserva ecológica Huellas, na Colômbia.LUIS ROBAYO (AFP)
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A Colômbia foi classificada pelo segundo ano consecutivo como o pior país do mundo para ambientalistas. Pelo menos 65 deles foram mortos no país andino durante 2020, um ano marcado pela pandemia de coronavírus. A violência contra os defensores da terra ceifou a vida de 227 pessoas em todo o mundo, contra 212 em 2019. México e Filipinas encabeçam, depois da Colômbia, a lista elaborada a cada ano pela organização ambientalista Global Witness.

O país que assinou a paz com os guerrilheiros das FARC há quase cinco anos ainda vive com violência em parte do território. Banhada por dois oceanos, a Colômbia abriga metade dos pântanos do planeta e 30% de seu território é coberto pela floresta amazônica, o que a torna um dos países com maior biodiversidade do mundo. Ambientalistas levantaram suas vozes diante do violento cerco que sofrem e da impunidade dos crimes, que o Governo de Iván Duque não conseguiu conter. “Existe uma ligação entre a violência armada e o modelo de desenvolvimento econômico, que faz da Colômbia o país com os líderes ambientais mais assassinados. Não há possibilidade de acesso à justiça e, quando o fazemos, é lento e ineficaz “, denunciou ao EL PAÍS em fevereiro deste ano a ambientalista Francia Márquez, que lançou sua candidatura à presidência do país nas eleições de 2022.

O relatório fala com particular dureza da Colômbia, onde considera que os ataques contra defensores da terra e líderes sociais ocorrem em todo o país e representam “violência endêmica”, apesar do acordo assinado em 2016. O documento atribui a situação a uma “implementação infeliz” de o processo de paz pelo Governo. “Em muitas das áreas mais remotas, paramilitares e criminosos aumentaram seu controle por meio da violência contra as comunidades rurais e da falta de ação do Estado para protegê-las. Aqueles que buscam proteger sua terra e o meio ambiente estão cada vez mais amarrados“, acrescenta. Pelo menos 17 assassinatos ocorreram no âmbito de programas destinados a promover a transição dos agricultores do cultivo da coca para o cultivo legal, incluídos em um dos pontos do acordo de paz.

A Global Witness destaca que os povos indígenas colombianos são os mais afetados pela violência, situação que se agravou durante a pandemia. “Os fechamentos oficiais [confinamentos] fizeram com que os defensores da terra fossem atacados em suas casas, e as medidas de proteção do Governo foram cortadas”, disse ele. A Fundação Ideias pela Paz já havia alertado em relatório de abril de 2020 que, além dos desafios impostos pela covid-19, “somam-se os riscos gerados pelas ameaças recebidas por funcionários dos Parques Nacionais da Amazônia por parte de estruturas dissidentes das FARC“.

Em meio ao gotejamento de mortes, mais de uma por semana, o Governo de Iván Duque tem procurado se apresentar ao mundo como defensor do meio ambiente. O país foi escolhido em 2020 para sediar o Dia Mundial do Meio Ambiente, evento promovido pelas Nações Unidas que aconteceu virtualmente em setembro do ano passado. O presidente destacou o combate ao desmatamento e garantiu que “a defesa do meio ambiente foi incluída como propósito de segurança nacional”. O Governo designou 22.000 membros das Forças Militares para proteger a terra. No entanto, o desmatamento significou a perda de 171.685 hectares de floresta em 2020, principalmente na Amazônia, 8% a mais do que em 2019, segundo dados oficiais.

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O México foi em 2020 o segundo pior país do mundo para defensores da terra, com 30 assassinatos. O número representa um crescimento de 67% em relação ao ano anterior. O relatório da Global Witness indica que a exploração madeireira está ligada a quase um terço desses ataques e que metade de todos os crimes no país foram dirigidos contra comunidades indígenas. Além disso, destaca que a impunidade para crimes contra ambientalistas “continua surpreendentemente alta: até 95% dos assassinatos não levam a processo”.

A América Latina segue sendo responsável pelo maior número de mortes de ambientalistas no mundo. No Brasil morreram 20 ambientalistas, em Honduras 17, na Guatemala 13, na Nicarágua 12 e no Peru seis. O relatório observa que, no Brasil e no Peru, quase três quartos dos ataques registrados ocorreram na região amazônica de cada país.

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