Rodrigo Amarante: “Já não sou tão desconhecido fora do Brasil, mas ainda deliciosamente incógnito”

‘Drama’, segundo álbum solo do compositor carioca, encerra hiato de oito anos desde o lançamento de Cavalo. Ao EL PAÍS, ex-Los Hermanos fala sobre sentimentos, machismo e política

O artista Rodrigo Amarante.
O artista Rodrigo Amarante.Eliot Lee Hazel
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Rodrigo Amarante tinha uma intenção definida quando começou a projetar seu segundo álbum solo. “Queria fazer um disco mais objetivo, sem muitas harmonias ou firulas”, disse o compositor carioca ao EL PAÍS em uma entrevista por vídeo na última quinta-feira. Ao mesmo tempo, sentia vontade de escrever baladas e dar vazão a alguns sentimentos. “Resolvi me perguntar e investigar o porquê desse dilema”, completa. A investigação resultou no nome do álbum, Drama, feito na ponte entre Los Angeles, onde vive atualmente, e o Rio de Janeiro, sua base afetiva. O trabalho encerra um hiato de oito anos desde o lançamento do aclamado Cavalo, seu primeiro disco solo após uma trajetória dedicada a bandas no Brasil e no exterior: Los Hermanos, Orquestra Imperial e Little Joy.

A devassa que Amarante promoveu nos próprios sentimentos o colocou em confronto com aquilo que ele sequer imaginava, mas que de alguma maneira moldava seu inconsciente. “Fui levado a pensar na minha infância e na transição de menino para homem, como nós imitamos uma forma de ser adulto, e, de certa maneira, nunca largamos essas máscaras que inventamos para fingir”. O carioca deixou-se levar pelas descobertas que ia fazendo, partilhando o processo com a namorada, a cantora britânica Cornelia Murr. “Estava dizendo para ela que nós somos ecos de outras vozes, um teatro, e que era libertador abraçar o que tentamos esconder. Fui ensinado a controlar emoções e acreditar nessa falácia de que mulheres são ineficientes porque são suscetíveis aos sentimentos. Essa noção do patriarcado. Mesmo dizendo que não sou machista, via ecos disso em mim, na minha vergonha de querer cantar sobre o meu desespero e a minha confusão”, explica. Cornelia Murr ouviu o relato pacientemente e, em tom de brincadeira, sentenciou: “chame o disco de drama”. “Foi uma piada, mas eu gostei”, brinca Amarante.

O compositor afirma que a fórmula para o seu segundo álbum precisava mudar. “Cavalo foi o meu primeiro disco solo, a primeira vez que fiz uma coisa com meu nome, como se aquilo fosse eu. De todo modo, sei que o trabalho está inundado de intenções, conscientes e inconscientes. Cria-se um duplo de mim. Entre um e outro, é como se eu estivesse mordendo a própria cauda, em busca de uma voz própria, uma expressão genuína e pura”. Em Drama, diz Amarante, isso caiu por terra. “É uma ideia que ficou meio boba, narcisista e ingênua enquanto método criativo. Entendi que minha voz é uma amálgama de outras vozes, que me ensinaram a falar e gesticular. É um exercício que entendo de amor a si mesmo”, afirma.

Essa amálgama, que é sentimental e também musical, encontra influência em referências que Amarante cultiva e que estão dispersas no disco. “São como máscaras da identidade musical brasileira, como a Bossa Nova, uma produção musical feita ali pelos anos 1930, o carimbó, entre outras coisas”. Um artigo publicado pela conceituada revista britânica Uncut define o disco de Amarante como uma espécie de continuidade em uma linha evolutiva da canção brasileira que contempla a Bossa Nova e a Tropicália. “Bom, isso é algo que só um gringo poderia dizer”, brinca. “Não tenho pretensão nenhuma em resgatar nada, isso é afetivo. Sou brasileiro e minha música é brasileira. O meu afeto determina que lado vai se expressar e não há plano nesse sentido”, completa.

Drama começou a ser feito em Los Angeles no fim de 2018, quando Amarante gravou quatro das onze faixas que compõe o disco, em sessões no estúdio do produtor brasileiro Mario Caldato Jr., que já trabalhou com nomes como Beastie Boys, Beck, Jack Johnson, Manu Chao e Marisa Monte. Em 2019, Amarante veio ao Brasil para uma turnê especial de 20 anos dos Los Hermanos, que passou por diversas capitais e com shows em estádios de futebol, incluindo o Maracanã. Quando se preparava para retomar a produção do trabalho, veio a pandemia e tudo mudou de rota. O isolamento serviu para que Amarante pudesse recalibrar o álbum. A crítica tem dito que o trabalho é profundo. Ele se esquiva. “Não posso dizer [se o disco é profundo]. Tem quem ache raso e uma bosta, e tem quem ache maravilhoso. Não me importo. Eu não espero que todos os meus amigos gostem da minha música. Quero ser amigo de gente que não gosta do que eu canto também. No fim, é só música”, comenta.

Além das inéditas, como Tango, Eu com você e Tanto, o álbum é composto de canções que Amarante tem cantado esporadicamente em shows e apresentações desde 2015, como I Can’t Wait e Tara. “A última [The End], que canto ao piano, comecei a compor há dez anos, mas larguei. Sou assim. Muitas vezes, deixo a música apodrecendo um pouco, para ver se ela fermenta, ganha um buquê e desenvolve uma colônia mais agradável, com outros pensamentos agregados e aí a canção demora pra nascer, vai um pouco ao acaso”, explica.

Amarante diz gostar do acaso, mas sabe também que projeta seus passos, ainda que inconscientemente. Um ano após a pausa anunciada pelos Los Hermanos, em 2008, ele passou a estar cada vez mais nos EUA. Trabalhou com o músico e artista plástico Devendra Banhart, norte-americano com ascendência venezuelana, e também formou a banda Little Joy, ao lado de Fabrizio Moretti, baterista do The Strokes, e da cantora Binki Shapiro. Apesar das visitas esporádicas ao Brasil, Amarante tem se fixado como um artista do mundo. Como nos versos de Maré: em cada porto um cais. “Isso reflete um pouco as minhas mudanças na infância, meus amores e desamores, os ciclos, os erros que me vejo cometendo sem conseguir desviar. Maré é sobre escolher caminhos. Pode ser muito romântico e bonito dizer que estou apenas flanando em meio às sugestões do acaso, como já me senti, mas que em última instância não é tomar responsabilidade sobre o meu próprio destino”, afirma.

O carioca já afirmou em entrevistas ter sido criticado por amigos e familiares quando deixou o Brasil, por não entenderem os motivos que o fizeram abandonar uma carreira consolidada no país. As coisas mudaram um pouco após o lançamento de Cavalo e a turnê por cidades da Europa, mas nada que se compare ao sucesso de Tuyo, música composta para a abertura da série Narcos, da Netflix, que estreou em 2015 e narra a vida do narcotraficante colombiano Pablo Escobar. “A chegada ao exterior foi uma riqueza, um barato, mas muito dolorosa e com traumas. É complicado ser estrangeiro, aprender a língua, não entender tudo o que está acontecendo e não conseguir se expressar de forma eloquente. Ao mesmo tempo, pode-se cantar uma música em espanhol e um sujeito na Turquia entender o significado daquilo e espelhar aquele sentimento na vida dele. A perspectiva da arte é essa. Com sorte, eu já não sou mais tão desconhecido fora do Brasil. Mas ainda deliciosamente incógnito para fazer o que me dá na telha”, ressalta.

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Ainda que a carga política não seja a tônica dos seus trabalhos, Amarante dá pistas. Em Um Milhão, por exemplo, diz que “pra cada um com um milhão/um milhão sem um sequer”. “Tenho pulsão pelo diálogo, na ingenuidade de fazer parte da discussão etérea sobre o que precisamos fazer para acabar com a desigualdade, a pobreza e a miséria, esse conjunto de absurdo que nós normalizamos. A ideia de que estamos aqui para competir um com o outro, uma espécie de perversão da ideia de Darwin aplicada aos preceitos econômicos. O neoliberalismo misturado com essa nova onda fascista, que desaguam no ultraliberalismo e formam uma destruição completa”. A defesa de uma sociedade mais igualitária já o fez ter a pecha de romântico, algo que ele assumiu, mas que agora relativiza. “Hoje em dia não diria a mesma coisa, porque não acho que seja romantismo. A gente tem muita superfície, aparência e eu gosto de profundidade. Acho divertido cair dentro, correr risco. Isso pode ser romântico para alguém”, afirma.

As críticas não cessam quando o assunto é Brasil, sobretudo no que diz respeito ao Governo atual. “Sou do Rio de Janeiro, conheço Jair Bolsonaro desde os 12 anos. É um palhaço, uma criança birrenta. É o clichê do bully: morre de medo dos outros e do próprio sentimento. Fica com essa coisa de arma, moto... É uma criança malcriada. Ele sempre foi assim, mas as consequências agora são terríveis, porque ele não está só fazendo palhaçada na televisão”. A eleição de 2018 gerou brigas e discussões familiares, algo que segundo ele já passou. “A pior coisa é ver amigos, gente que você ama, partindo para essa abordagem, que é a loucura do ódio. Nada de positivo sai disso. É preciso buscar a luz. O complicado é que chegar a ela é um outro papo”, finaliza.


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