The Strokes

Como o rock renasceu, triunfou e morreu de tanto sucesso com o The Strokes

Há 20 anos o rock se tornou relevante pela última vez, com o lançamento de ‘Is this it’. Os executivos que estavam lá para ver (e ouvir) recordam aquela cena efervescente que chegou ao mundo da moda

Retrato dos Strokes nos camarins do The Fillmore, em San Francisco, em 16 de outubro de 2001. Da esquerda para a direita: Fabrizio Moretti, Albert Hammond Jr., Nick Valensi, Julian Casablancas e Nikolai Fraiture.
Retrato dos Strokes nos camarins do The Fillmore, em San Francisco, em 16 de outubro de 2001. Da esquerda para a direita: Fabrizio Moretti, Albert Hammond Jr., Nick Valensi, Julian Casablancas e Nikolai Fraiture.Anthony Pidgeon / Redferns

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Surgiram, aparentemente do nada, em 2001, um momento em que o rock passava por uma de seus épocas mais chatas, e lhe deram um último sopro de vida. Entre 2001 e 2011, uma nova fornada de bandas guitarreiras invadiu as paradas em busca da canção perfeita de três minutos —e, de passagem, conquistaram o mundo da moda, a fama e o glamour em geral. Em 31 de julho se completam 20 anos do lançamento do álbum que marcou o começo daquilo: Is this it, a estreia de um quinteto de Manhattan que usava o nome de The Strokes. Eram cinco garotos de famílias acomodadas, liderados pelo vocalista Julian Casablancas, filho do fundador da agência Elite. Com ele, Albert Hammond Jr, filho do famoso autor de It never rains in southern California, Nikolai Fraiture, Nick Valensi e o brasileiro Fabrizio Moretti. Tinham todos cerca de 20 anos e frequentavam o Lower East Side e o East Village de Nova York.

Depois deles viriam muitos outros. Primeiro nos Estados Unidos: bandas novas como Interpol e Vampire Weekend. Ou veteranos que souberam pegar o bonde, como The White Stripes e LCD Soundsystem. Depois no Reino Unido: The Libertines, Bloc Party, Kaiser Chiefs e Franz Ferdinand, cujo líder, Alex Kapranos, expressou em uma só frase as pretensões de toda aquela cena: “Queremos fazer discos para que as garotas dancem outra vez”.

Visto da perspectiva atual, não parece um objetivo muito ambicioso. Hoje em dia, o som latino é a força dominante, e até os seminaristas rebolam com esses ritmos, mas no começo do século a coisa era bem diferente. O final dos anos noventa foi marcado pela cena do rap metal para jovens muito machos nos Estados Unidos, e por bandas de pop lânguido pós-Radiohead para a garotada melancólica do Reino Unido. “Uma era música para adolescentes, e a outra para velhos”, sentencia Mark Kitcatt, diretor da Everlasting Records, o selo que lançou na Espanha o primeiro single do The Strokes. O eletrônico havia voltado às catacumbas, e o R’n’B ainda não havia erguido a cabeça. A ilusão de que o rock mandava, como havia ocorrido durante 40 anos, permanecia viva. Mas o fato é que na época, uma década depois da chegada do grunge, não havia nada de excitante no horizonte, e se houvesse não seria exatamente em Manhattan, que desde os gloriosos tempos do punk e da new wave havia perdido peso. “Entre 1994 e 1999, quando você pensa em grupos saídos de Nova York, só lhe ocorrem grupos de hardcore”, diz a jornalista Jenny Eliscu.

O Vampire Weekend posa para a câmera durante o festival Coachella de abril de 2008, na Califórnia.
O Vampire Weekend posa para a câmera durante o festival Coachella de abril de 2008, na Califórnia. Frazer Harrison / Getty Images

A cidade despertava tão poucas esperanças que o The Strokes só seria descoberto a 5.567 quilômetros de lá, no escritório londrino da Rough Trade, o selo independente criado por Geoff Travis e Jeanette Lee que nos anos oitenta havia contratado os Smiths. Quem conta isso, da capital britânica, é James Endeacott, que na época trabalhava como diretor artístico da gravadora: “A música era muito chata na época, nada de interessante acontecia no rock. Só bandas norte-americanas de adultos com cavanhaques e shorts, que faziam rap-rock. Em Nova York havia uma casa de shows, a Mercury Lounge, e conhecíamos um promotor de lá. Dissemos a ele: ‘Se em algum momento acontecer alguma coisa, qualquer coisa, medianamente interessante, nos avise’. Uma segunda-feira pela manhã, em dezembro de 2000, entrei nos escritórios da Rough Trade. Eram nove horas, mas Geoff estava muito contente. ‘James, James, venha ao meu escritório, corra’. Nosso contato em Nova York havia lhe mandado uma gravação com três músicas. A primeira era The modern age, depois tocaram Last nite e Barely legal. Quando aqueles 10 minutos terminaram, estávamos os dois aos pulos. Era isso que estávamos procurando”. Eram os Strokes.

Não havia tempo a perder. No dia seguinte, os donos da Rough Trade pegaram um avião para Nova York. “Quando voltaram, eu perguntei: ‘Como eles são?’”, recorda Endeacott. “A Jeanette me respondeu: ‘São a banda mais perfeita que já vi na vida. São cinco homens lindíssimos que tocaram 30 minutos, e todas as canções eram perfeitas’. Eles tinham tudo. Aquele som que recordava o que se fazia em Nova York no final dos anos setenta, misturado com o The Velvet Underground, era muito cool. Geoff convenceu o empresário da banda a lançar um single com aquelas três canções. E nós a passamos à revista NME. Adoraram. Depois mandamos uma foto deles. Estavam sentados num bar com uma aparência incrível. A revista saía às quartas, e naquela tarde os telefones não pararam de tocar. Todo mundo perguntava: ‘Quem são esses caras?’.”

Pete Doherty e Carl Barat, dos Libertines, compartilham cama com amigos no hotel Albion, em 2002.
Pete Doherty e Carl Barat, dos Libertines, compartilham cama com amigos no hotel Albion, em 2002. Patrick Ford / Redferns

Endeacott foi o responsável pela banda quando foram às ilhas para sua primeira turnê britânica, em janeiro de 2001. “Eram simplesmente perfeitos. O sonho de todos os que trabalhamos nesta indústria é descobrir um grupo assim pelo menos uma vez na vida. Dizem que se você está no olho de um furacão, o que há é silêncio. Nosso pequeno escritório em West London era o olho do furacão. Estávamos tranquilos enquanto toda a indústria enlouquecia pelos Strokes. Não eram originais, claro que não, mas eram revigorantes.”

E bem vestidos. Depois de conquistar Londres, Paris se rendeu. A indústria da moda se entregou a eles. O primeiro foi Hedi Slimane, então diretor criativo da Dior Homme, que desenvolveu a roupa hoje associada àquela cena. Jaquetas de couro e ternos estreitos que só ficavam bem em roqueiros muito magros. Tão próxima foi a relação que em algum momento aquele movimento ganhou o nome de Fashion Rock.

Aconteceu o que sempre acontece. Primeiro, a guerra para ver quem contratava os Strokes, vencida pela multinacional RCA. Is this it foi lançado em 31 de julho de 2001 na Austrália; depois chegaram sucessivas versões internacionais até o final de setembro, quando finalmente foi possível comprar o CD nos Estados Unidos: os atentados do 11 de Setembro haviam causado um atraso no adiamento, para que fosse possível retirar a faixa New York City cops (“policiais de NY”). Não queriam ferir suscetibilidades. Em seu primeiro ano, vendeu dois milhões de cópias.

Mais tarde chegou a caça a grupos que se parecessem com o The Strokes. Em Nova York surgiram de baciada, e as gravadoras se estapeavam por eles. Gordon Raphael, o produtor de Is this it, se mudou em 2002 para Londres e logo depois começaram a surgir por lá bandas que se moviam nas mesmas coordenadas. Entre eles The Libertines, o quarteto liderado por Carl Barat e Pete Doherty, que tinham aberto o show para os Strokes naquela primeira turnê, e cuja estreia foi produzida por Raphael. “Já fazia um tempo que eles davam voltas na frente dos Strokes”, recorda Endeacott. “Mas é verdade que mudaram quando foram vistos. Embora sempre tenham tido um espírito muito britânico, suas letras só podiam ser escritas por um inglês.”

Os Strokes e seus acólitos foram relevantes durante uns 10 anos. As drogas, o desgaste da ascensão meteórica e a mudança de gosto do público acabaram relegando-os a um lugar menor. Hoje em dia muitos deles, inclusive o The Strokes, que em 2022 atuará no festival Primavera Sound em Barcelona, continuam rodando por aí, mas são quase uma nostalgia para quarentões. Não são mais, definitivamente, o grupo que marcava o passo dos demais. Mas o atrativo de Is this it continua intacto. “Sempre disse que era o disco da década”, recordava em 2018 James Murphy, líder do LCD Soundsystem e o músico que melhor soube aproveitar aquele momento falando de Is this it. “Eles não estavam totalmente satisfeitos, diziam que tinha saído regular. Mas eu dizia a eles: ‘Daqui a 10 anos alguém vai colocar esse disco para tocar num churrasco, e vocês vão dizer: ‘Como é legal essa merda!’. Eu tinha razão. Foi exatamente assim.”

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