Nirvana

O bebê da capa de ‘Nevermind’ está ressentido: todos ficaram ricos menos ele 30 anos depois

Em 1991, com apenas quatro meses de vida, Spencer Elden posou para o álbum do Nirvana. Seus pais receberam só 200 dólares pela sessão, um valor ridículo para uma imagem que virou icônica

A capa do 'Nevermind', em tamanho gigante, na porta da londrinense Loading Bay Gallery, que em setembro de 2011 dedicou uma exposição ao Nirvana.
A capa do 'Nevermind', em tamanho gigante, na porta da londrinense Loading Bay Gallery, que em setembro de 2011 dedicou uma exposição ao Nirvana.Samir Hussein / Getty Images

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O norte-americano Spencer Elden não foi uma criança qualquer. Há 30 anos, quando tinha apenas quatro meses e sem estar consciente disso, estrelou uma das capas mais famosas da história da música: Nevermind, o álbum que catapultou o Nirvana para a fama e pôs o grunge no radar internacional. “É estranho fazer parte de uma imagem tão icônica culturalmente porque, na verdade, não tive nada a ver com isso. Minha mãe tem uma história maluca. Diz que, quando era jovem, teve uma espécie de visão de que seu bebê estaria em todos os lugares”, contou ele às páginas do The Guardian em 2015.

Assim foi. Levando em consideração que o segundo álbum da extinta banda comandada por Kurt Cobain vendeu mais de 30 milhões de cópias desde seu lançamento, e que a capa foi reproduzida ad nauseam em todos os tipos de produtos de merchandising, seu rosto é tudo menos desconhecido, e ele está, literalmente, em milhões de lares, locais de entretenimento e salas de exposições em todo o mundo.

Inicialmente, tanto o grupo como Robert Fisher, o diretor de arte da gravadora Geffen Records, pensaram em um conceito visual muito mais explícito para ilustrar Nevermind. “Kurt queria um bebê que estivesse nascendo embaixo d’água. Naquela época, antes que a internet existisse, você tinha que ir à livraria local e folhear os livros de parto para encontrar fotos. Então, foi isso que eu fiz... mas não havia como fazer uma capa com isso. Não consegui encontrar nenhuma foto boa. Todas eram explícitas demais para o uso”, explicou Fisher. Depois de descartar a ideia de mostrar um parto, não lhes restou alternativa a não ser recorrer a um bebê submerso.

“Então, Kurt pensou em acrescentar um anzol para tornar a cena mais impactante. Passamos a tarde sentados imaginando todas as coisas divertidas que poderíamos colocar nela. Por exemplo, um pedaço de carne, como um grande bife cru. Ou um CD ou algo que servisse para simbolizar a música. Fomos comer e pensamos: ‘Que tal um burrito?’ E também: ‘O que você acha de pôr um cachorro-quente?’ Ficamos assim por horas. Não me lembro quem teve a ideia da nota de um dólar, mas todos nós achamos que era muito boa.”

Com a premissa já clara, só faltava encontrar um braço executor. O escolhido foi o fotógrafo Kirk Weddle. “Na época, eu estava tentando ganhar projeção como o cara da fotografia subaquática”, disse ele ao The Guardian em 2019, “mas, quando me pediram para fazer a capa do Nevermind, eu não tinha ideia se poderia fazer isso. Tirar fotos de um bebê era uma novidade para mim. Não queria que ele acabasse se afogando por minha culpa!” Felizmente, não houve nenhuma desgraça a lamentar. Sobretudo porque o anzol e a nota foram inseridos em um laboratório dias depois.

Por aquela sessão de apenas cinco minutos, realizada no centro aquático de Pasadena, ele recebeu 1.000 dólares (cerca de 5.300 reais pelo câmbio atual). O valor cobria tudo: desde o equipamento necessário até a contratação de um mergulhador para possíveis resgates. “Eu sabia que tinha uma boa foto. É o que acontece com os fotógrafos da velha escola: como profissional, você precisa saber que tem a foto adequada antes de mostrá-la. Mas não tinha certeza se a gravadora aceitaria. Então, por precaução, decidi ir a uma escola de natação para crianças e colocar meia dúzia de bebês na água. Havia uma menina de 10 meses que achei que poderia funcionar, então tirei uma foto dela no perfil. Mas a gravadora adorou o original do Spencer”, explicou Weddle.

“Acabaram me escolhendo. E acho que foi por causa do meu pênis: muitos dos outros bebês eram meninas. Estou feliz que não tenha sido para algo como um álbum dos Backstreet Boys”, brincou Spencer sobre isso na entrevista que deu em 2015, em que também acrescentou: “Meus pais sabiam quem era o Nirvana, mas não estavam muito interessados na cena grunge. Meu pai, Rick [que trabalhava em Hollywood como artista de efeitos especiais], na época cursava uma escola de arte e seus amigos sempre lhe pediam ajuda em seus projetos. Foi assim que seu amigo Kirk lhe disse: ‘Você quer ganhar algum dinheiro hoje e jogar seu filho na piscina?’. Meus pais me levaram lá, parece que sopraram na minha cara para estimular meu reflexo de imersão [que faz o bebê fechar a glote na água], fui colocado na água, tiraram fotos minhas e me tiraram de lá. Isso foi tudo. Receberam 200 dólares (cerca de 1.070 reais) e depois foram comer tacos”.

Kurt Cobain em um show MTV Unplugged nos estúdios da Sony em Nova York, 1993.
Kurt Cobain em um show MTV Unplugged nos estúdios da Sony em Nova York, 1993. Frank Micelotta Archive / Getty Images

No início, aquele que era conhecido como o Nirvana Baby, se orgulhava de sua façanha aquática. Até tatuou o logotipo do Nevermind no peito. Depois de abandonar a escola um ano antes de terminar o ensino médio, seus pais o incentivaram a entrar em uma escola militar. Não durou muito, pois a essa altura já sabia que queria se dedicar ao mundo da arte. Teve a primeira oportunidade graças a Shepard Fairey, o designer gráfico por trás do cartaz Hope (esperança), que Barack Obama usou durante sua campanha presidencial. Passou cinco anos com ele. Hoje continua residindo em Los Angeles e se dedica profissionalmente à arte urbana.

Claro, como em qualquer boa história, aqui também há um lado menos amável. Ao contrário de quando era adolescente, com o tempo Spencer mudou seu discurso sobre a participação na famosa capa. Enquanto em 2011 encarava de um modo divertido que muitas pessoas rissem do tamanho de seu membro —”minha namorada sabe a verdade sobre isso”, dizia—, em 2016 falou à revista Time exatamente o contrário: “Quando vou a um jogo de beisebol costumo pensar: ‘Cara, todos no estádio provavelmente me viram nu quando era bebê. Sinto que passaram por cima dos meus direitos como pessoa”. Também não gostou do fato de que nenhum dos dois integrantes sobreviventes da banda, Dave Grohl e Krist Novoselic, tenha entrado em contato com ele.

Outro aspecto que ajuda a entender esse ressentimento é que, além dos 200 dólares que Kirk Weddle pagou aos Eldens, eles não receberam desde 1991 nenhum centavo pelos direitos de uma imagem já lendária. Na realidade, quando Spencer fez um ano de idade, o selo do Nirvana se limitou a lhes enviar um álbum de platina e um ursinho de pelúcia. “Todos que participaram do álbum têm toneladas e toneladas de dinheiro. Eu me sinto como se fosse o último do grunge. Moro na casa da minha mãe e dirijo um Honda Civic. É difícil não ficar bravo quando você sabe da quantidade de dinheiro que estava em jogo”, explicou ele à Time. Há cinco anos surgiu a possibilidade de entrar com uma ação judicial contra a Geffen Records, mas acabou desistindo ao avaliar que seria uma batalha perdida.

Capa de 'Meat is murder', do The Smiths, com o soldado Michael Wynn no Vietnã. Segundo ele, ninguém lhe disse que iria aparecer na capa de um disco.
Capa de 'Meat is murder', do The Smiths, com o soldado Michael Wynn no Vietnã. Segundo ele, ninguém lhe disse que iria aparecer na capa de um disco. Emile de Antonio / The Smiths

O caso de Elden não é único no mundo da música, repleto de capas, especialmente estreias, que não se esperava que venderiam muito, mas acabaram se tornando lendárias. O primeiro disco do Roxy Music, com o mesmo nome do grupo e lançado em 1972, tem uma das capas mais conhecidas do rock, com a modelo Kari-Ann Muller posando como uma pin-up dos anos 1950. Ela recebeu 20 libras esterlinas (cerca de 150 reais, pelo câmbio atual) por aquela foto.

No caso do famoso Meat is murder (1985), do The Smiths, o disco contém uma imagem quádrupla de um soldado em cujo capacete se lê o título do disco. Chamava-se Michael Wynn, era natural de Ohio, tinha então 20 anos e a imagem foi captada pelo fotógrafo e diretor Emile de Antonio para o seu documentário sobre o Vietnã In the year of the pig (no ano do porco), de 1968. Wynn, como Spencer Elder, não está muito feliz.

Em um site oficial de veteranos de guerra, ele escreveu em 2019: “Nunca me contataram para dizer que iriam usar aquela fotografia. E não gostei muito que os Smiths mudassem as palavras. Eu descobri tudo isso porque minha irmã viu o disco quando fazia compras. “Na foto original, em seu capacete não estava escrito “Carne é assassinato”, mas: “Faça a guerra, não o amor”.

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