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Todos os memes do presidente

Nos despedimos Barack Obama com muitos dos memes que o presidente protagonizou (e soube aproveitar)

Obama memes
Obama no cartaz "Hope".

Barack Obama ganhou as eleições em 2008 e seus dois mandatos coincidiram com a presença cada vez maior das redes sociais. Durante esses oito anos, os memes deixaram de circular apenas em fóruns como 4chan e Reddit para espalhar-se pelo Twitter e pelo Facebook, chegando aos celulares de quase todo mundo. Em outras palavras, é normal que Obama tenha protagonizado muitíssimos memes ao longo de todo esse tempo. O que merece destaque é sua habilidade em manejar a linguagem dessas peças de comunicação humorísticas.

A jornalista Delia Rodríguez chama-o de “rei da memecracia” em seu livro Memecracia: Los Virales que Nos Gobiernan (“Memecracia: os virais que nos governam”, em tradução literal). Não só pela maneira como aproveitou as ferramentas virais em suas campanhas políticas, mas também por como soube apropriar-se das mensagens que nem ele nem sua equipe criaram. Por exemplo, o primeiro grande meme sobre Obama, o cartaz Hope, foi criado por um artista independente e não por sua equipe. Também se deixou entrevistar pelos usuários do Tumblr, do Reddit e por YouTubers, além de convidar estrelas da falecida Vine à Casa Branca.

Obama é consciente da importância da linguagem memética para transmitir sua mensagem. Em uma entrevista concedida à Vanity Fair, o presidente lembrava que “existe outro mundo midiático na internet e no Instagram, nos memes e talks shows, e na comédia, que também me vai bem”. Esse “outro mundo” lhe permitiu chegar a pessoas às quais nem sempre chegava com os discursos mais tradicionais. De fato, um dos méritos de Obama nesse sentido foi, como diz Rodríguez, o de semear “seus próprios memes. Obama dança, dá manchetes, faz gestos, chora, tira fotos para isso”.

Como um encerramento (viral) de seu mandato, recolhemos aqui alguns dos memes de maior destaque protagonizados por ele, voluntariamente ou não.

Hope, o cartaz pop de sua primeira campanha

O cartaz de Obama com a palavra Hope, esperança, foi uma das primeiras imagens icônicas do presidente dos Estados Unidos. Foi criado pelo artista urbano Shepard Fairey para as eleições de 2008 a partir de uma foto da Associated Press e à margem da campanha oficial. Em janeiro de 2008, Fairey colocou à venda 350 cartazes a 45 dólares cada um em seu site. Os lucros iriam para a campanha do então candidato democrata. Foram vendidos em 15 minutos.

O cartaz não escapou das paródias, que começaram a aparecer em abril daquele ano e que incluíram o Coringa, os trols da internet e Luke Skywalker. Em 2016 até Trump ganhou um, com a palavra grope (“apalpar”, em referência a suas declarações sexistas).

“Thanks, Obama”, o adendo conservador que se tornou um meme

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Já em 2009 apareceram os primeiros críticos. Uma das expressões favoritas de seus adversários era “thanks, Obama!” (obrigado, Obama), com a que se tentava criticar de forma sarcástica as primeiras medidas de seu Governo. Abusou-se tanto da expressão que, em 2011, muitos já zombavam dela em mensagens sobre torradas queimadas ou, no Reddit, com gifs e fotografias de fails de anúncios de televenda.

O próprio Obama faria referência a esse meme anos mais tarde: em um vídeo para o Buzzfeed (veja abaixo), o presidente se lamenta de que uma bolacha não cabe no copo de leite. “Obrigado, Obama”, diz, suspirando. Não foi a única vez: em março de 2015 foi ao programa de Jimmy Kimmel, na rede ABC, e leu tuítes desagradáveis sobre si mesmo (uma seção habitual desse espaço). Um deles era sobre o aumento do preço da cerveja e terminava com um “obrigado, Obama”. Depois de ler a mensagem, o presidente olhava para a câmera magoado, ao som da música Everybody Hurts, do REM.

The Situation Room, a foto tirada durante a captura de Bin Laden

A cena que aparece nessa fotografia de maio de 2011 é muito séria. Além de Obama, estão Hillary Clinton, secretária de Estado, Joe Biden, vice-presidente, e membros do exército. A foto, tirada pelo fotógrafo oficial da Casa Branca, Pete de Souza, refletia um dos momentos em que se informava ao presidente sobre a missão que acabaria com a vida de Osama Bin Laden.

E naquele mesmo mês a mesma foto também protagonizaria memes e montagens. O site Mashable questionava se não era “cedo demais” para a cena virar meme, em uma montagem que mostrava Obama segurando um controle de videogame. A revista The Atlantic publicava uma galeria em que se viam mais exemplos: todos os presentes apareciam com a cara de Obama ou se infiltrava entre eles um velocirraptor ou um Keanu Reeves triste.

“Not bad”, o meme que Obama devolveu ao Reddit

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Também em maio de 2011, Barack e Michelle Obama visitaram a Rainha da Inglaterra no Palácio de Buckingham. Uma foto da Reuters mostrava os Obama fazendo cara de “nada mau”, segundo o fórum do Reddit, onde se publicou uma tira cômica em que se via o gesto reproduzido com a estética dos chamados rage comics, desenhos muito simples em preto e branco e com modelos muito reconhecíveis.

E agora, um parêntese: no Reddit são realizados com frequência os chamados AMA, iniciais de ask me anything (pergunte-me qualquer coisa). Obama se dispôs a responder um desses questionários online e tirou o site do ar por alguns minutos. No final de sua participação escreveu: “Se querem saber o que acho de toda esta experiência no Reddit… NOT BAD!”.

Já o vimos fazer isso antes, no caso do “obrigado, Obama”: um dos pontos fortes do presidente também foi a maneira como aproveitou os memes sobre os quais ele, em princípio, não tinha nenhum controle. Fez isso “sem ser obviamente estratégico”, como lembra Ryan M. Milner em The World Made Meme: “A participação memética se tornou mais uma ferramenta de publicidade do repertório de Obama”, escreve.

Upvoting Obama, a foto do presidente com uma cerveja

No dia de São Patrício (o santo padroeiro da Irlanda, comemorado em 17 de março) de 2012, Obama tomou uma cerveja em um pub irlandês de Washington. Uma foto da Reuters mostrava o presidente com um copo de Guinness e o polegar para cima. Mais uma vez, o Reddit popularizou o meme em um de seus tópicos. De fato, o “upvoting” faz referência aos “votos a favor” que permitem avaliar as publicações nesse fórum. De acordo com a enciclopédia de memes Know Your Meme [Conheça seu meme, em tradução literal], um ano mais tarde a foto tinha sido usada mais de 6.000 vezes no gerador de memes Quickmeme.

O mago Obama

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Em agosto de 2012 e durante sua campanha de reeleição, Obama fez um discurso em Iowa. A fotógrafa Carolyn Kaster, da Associated Press, retratou-o em um instante tão decisivo que parecia que um dos focos do cenário era uma bola de fogo que o presidente estava conjurando com suas mãos. A New York Magazine dedicou uma nota a essa foto, com o título “O presidente Obama é um feiticeiro”. Não demorou a entrar para o acervo do MemeGenerator.

Obama is not impressed, uma foto sob medida para as redes sociais

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Durante os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, a ginasta McKayla Maroney ficou famosa por causa de sua expressão facial no pódio, que refletia sua decepção após ganhar uma medalha de prata quando aspirava ao ouro. A foto foi compartilhada como o meme “McKayla is not impressed” (McKayla não está impressionada). Até foi colocada no situation room, o meme da captura de Bin Laden.

Obama recebeu a atleta na Casa Branca e os dois posaram para uma foto (também de Pete Souza) fazendo a famosa cara. A partir daí só faltava um passo para criar o meme “Obama is not impressed”: o Photoshop. Como escreve Ryan M. Milner, a foto parecia “feita sob medida para as redes sociais”, provavelmente essa era a intenção.

“Desculpe, foi engano”, a foto favorita de muitos no Reddit

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Em outubro de 2012, a agência Associated Press publicou uma foto de Obama com um celular durante uma campanha de arrecadação de fundos em Orlando (Flórida). Segundo um jornalista da rede ABC, a foto foi tirada quando o presidente percebeu que tinha discado o número errado: “Alô, é Ann? Alô, é Ann? Ah, desculpe, foi engano”.

A imagem chegou ao Reddit pouco depois, em um tópico intitulado “Esta é minha nova foto predileta do presidente Obama”. Muitos dos 2.400 comentários publicados em um único dia incluíam montagens.

O tuíte de “mais quatro anos”

Depois de ganhar as eleições de 2012, Obama publicou em sua conta no Twitter uma foto na qual aparecia abraçando sua esposa. O texto: “Four more years” (“Mais quatro anos”). Segundo apurou o EL PAÍS, a postagem foi a mais retuitada da história até aquele momento. Foi compartilhada 327.453 vezes em apenas três minutos. Seu recorde só foi batido em 2014, quando Elle DeGeneres compartilhou sua famosa “selfie do Oscar”.

O tuíte de Obama hoje está próximo do 1 milhão de compartilhamentos e é uma nova foto incrível de Pete de Souza. O arquivo no Flickr com 6.000 dos mais de 2 milhões de fotos em oito anos é uma lição de comunicação política. Já mencionamos algumas que se tornaram memes. Mas ali não há só fotos institucionais. Elas também nos mostram o outro lado da Casa Branca e também do presidente: por exemplo, quando Obama brinca com um menino fantasiado de Homem-Aranha. Souza já confirmou, pelo Twitter, que não vai continuar trabalhando como fotógrafo na Casa Branca.

Sobre essas fotos, especialmente as mais informais, Delia Rodríguez recorda que a “imprensa mundial as elogia e transmite sem se dar conta de que não deixam de ser imagens oferecidas por uma assessoria de imprensa e, por isso, são orientadas a um objetivo concreto”. Seu conteúdo é tão fácil de compartilhar (e de modificar em montagens) que frequentemente nos esquecemos disso.

Obama está lendo seus e-mails, a crítica à NSA

É claro que nem tudo o que Obama fez nestes oito anos foi necessariamente positivo. Por exemplo, foi muito criticado pelo programa PRISM da NSA, aprovado em 2007, mas mantido durante seu governo. O programa permitia à agência de inteligência coletar comunicações na internet em massa. E essa foi a origem do “Obama is checking your e-mail”, uma conta de Tumblr aberta em junho de 2013, na qual eram publicadas fotografias do presidente diante do computador, olhando o celular ou ao lado de alguma pessoa trabalhando. O objetivo: zombar desse direito de espiar os cidadãos. E também alertar sobre a questão: é verdade que Obama está lendo nossas mensagens, ainda que não seja de forma tão literal.

O vídeo viral do Buzzfeed

Em fevereiro de 2015, Barack Obama protagonizou um vídeo viral no Buzzfeed. Intitulado Things Everybody Does But Doesn’t Talk About (“Coisas que todo o mundo faz mas ninguém admite), não era uma entrevista nem uma reportagem. Obama faz caras engraçadas, tira fotos com um pau de selfie e, como já comentamos, diz o famoso “obrigado, Obama”. Também aproveita para promover sua reforma na saúde, uma iniciativa que sofreu altos e baixos. O vídeo foi visto 23 milhões de vezes em 24 horas, e em 2017 já supera 60 milhões de reproduções.

A estratégia foi semelhante àquela usada em uma entrevista (humorística) dada ao ator Zach Galifianakis para o site Funny Or Die. Obama respondeu a perguntas sobre a Ikea do Norte (sic) e soltou piadas sobre a terceira parte de Se Beber, Não Case. Mas no fim acabou falando, mais uma vez, da reforma na saúde.

Como recordou Mari Luz Peinado no artigo publicado no EL PAÍS sobre o vídeo no Buzzfeed e a estratégia do presidente na internet, Obama e sua equipe souberam reconhecer a importância dos nativos digitais e de suas novas vozes, como também demonstra a entrevista concedida a três YouTubers norte-americanos. E também soube usar sua própria linguagem.

Obama e Merkel, sorrisos e memes

A reunião do G-7 no castelo alemão de Elmau, em junho de 2015, foi encerrada com uma foto que foi parar na capa de muitos jornais, incluindo o EL PAÍS, e que roubou a cena do acordo para reduzir emissões poluentes e controlar os efeitos do aquecimento global, obtido na cúpula. A imagem se tornou uma tela para memes na Europa e nos Estados Unidos, como informamos no EL PAÍS Brasil.

Esta imagem do fotógrafo Michael Kappeler registrava um momento de descontração. Na mesma foto, com o plano ampliado, se vê o resto dos líderes do G-7, que se preparavam para um retrato em grupo. Sua apropriação humorística veio a calhar, sobretudo porque Obama foi o único que usou o momento para realmente se descontrair. O cenário e o gesto de Merkel ajudaram, mas o que causou espanto na foto, quase incongruente, foi ver um político se comportando de forma natural e, como dizia o vídeo no Buzzfeed, fazendo coisas que todos nós fazemos.

Seus mic drops

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Durante seu último discurso no jantar dos correspondentes, um evento organizado pela Casa Branca para jornalistas todos os anos e que é conhecido por seu tom bem-humorado, Obama fez um mic drop bem no final, depois de se despedir dizendo “Obama out”. O mic drop é um gesto importado da cultura hip hop dos anos oitenta, que os rappers faziam soltando um microfone de verdade no fim dos shows e das improvisações, e depois de alguém derrubar uma afirmação que era considerada irrefutável.

O gesto de Obama não demorou a chegar ao formato gif, novamente pelo choque de se ver um presidente dos Estados Unidos realizando-o. Mas não vinha do nada: o Barack Obama fictício de Saturday Night Live e o dos sketches de Key and Peele já tinha feito o mesmo, como recordou o The Guardian.

Tampouco foi a última vez que Obama recorreu ao gesto: ele o fez no programa de Jimmy Fallon e apareceu também no vídeo promocional do Invictus Games gravado pelo casal presidencial, ainda que nesse caso o mic drop tenha sido feito por um veterano de guerra. O gesto foi imitado, também em vídeo, pelo príncipe Harry, do Reino Unido, e pelo primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau. Obama o repetiu em sua volta ao programa de Jimmy Kimmel, após insinuar que Donald Trump não ganharia as eleições. Nem sempre se acerta...

Conversando com DiCaprio

Em setembro de 2016, a conta da Casa Branca no Twitter publicou uma foto na qual se via o presidente conversando com o ator Leonardo DiCaprio, em tese, sobre as mudanças climáticas. Dizemos “em tese” porque na rede social logo foram publicados diálogos alternativos, muitos deles fazendo referência ao urso do filme O Regresso, lançado pouco antes. Assim dizia o primeiro tuíte ao imaginar essa conversa, publicado pelo tuiteiro @darth: “Era um filme, Leo, supere isso e abraça o ursinho. É muito macio”.

OBAMA: Olha, Leio, há razões muito específicas pelas que não poderia me interpretar em um biopic. LEIO: [Já está estudando sua linguagem corporal].

Barack: Tinha espaço suficiente nessa porta. Jack não tinha por que morrer. Leio: Sobre o médio ambiente… Barack: Rose era uma egoísta.

O bromance com Joe Biden

A relação entre Obama e seu vice-presidente, Joe Biden, foi caracterizada pela imprensa norte-americana como um bromance, termo que mistura “bro” (“irmão”) e romance, com o qual se fala de maneira bem-humorada na ternura da amizade entre dois homens. Os dois também foram chamados de BROTUS, junção de “bro” com POTUS, a sigla para “President of the United States”.

A dupla também brincou com a ideia: basta lembrar o tuíte de Biden no qual falava do presidente como “um irmão, um melhor amigo para sempre”, termos usados especialmente por adolescentes. Assim como a pulseira da amizade com os nomes Joe e Barack que saiu na foto do tuíte. Também houve postagens mais adultas sobre o assunto, como esta da Casa Branca, na qual Obama se refere a Biden também como um irmão.

A essa amizade foram dedicadas várias galerias de fotos e inúmeros memes, que provavelmente culminaram em novembro passado, quando muitos imaginaram conversas nas quais Biden se negava a aceitar a vitória de Trump.

“Deixa de copiar-me”

Obama: "Joe, por que segue sujeitando minha mão?" /Biden: "Quero assustar a Mike Pence". /Obama: "Mas por que?" /Biden: "Você segue o jogo".

Biden: "Pintei todos os espelhos de laranja". /Obama: "Que?" /Biden: "Não poderá ser visto a si mesmo". /Obama: "Joe…" /Biden: "Achará que é um vampiro".

Com os políticos espanhóis

Na Espanha também foram produzidos memes sobre Obama. Em julho de 2016, o presidente norte-americano se encontrou com o primeiro-ministro Mariano Rajoy e teve uma série de reuniões rápidas em Madrid com líderes da oposição espanhola. As fotografias dos encontros bastaram para que muitos tuiteiros imaginassem conversas entre eles, como mostramos no EL PAÍS.

Michelle Obama e #bringbackourgirls

Mas não estamos nos despedindo apenas do presidente. Também vai embora, claro, a primeira-dama, Michelle Obama. Sua atuação durante estes oito anos foi muito elogiada nos últimos meses, mas sua intervenção mais destacada nas redes sociais talvez tenha sido seu apoio a #bringbackourgirls, uma campanha iniciada em maio de 2014 para pedir a libertação de mais de 200 meninas sequestradas na Nigéria pelo Boko Haram.

A hashtag apareceu em 3 milhões de tuítes em apenas duas semanas. A mensagem na qual Michelle segurava um cartaz com os dizeres superou os 50.000 retuítes em apenas sete dias, e, para dizer a verdade, também foi usada para muitas paródias. Mas sua participação foi decisiva: graças a ela, mais personalidades públicas aderiram a ponto de muitos acreditarem que Michelle Obama foi quem iniciou a campanha.

Essa iniciativa foi muito debatida na época: é verdade que graças a sua participação, ficou claro o repúdio ao sequestro e as vítimas ganharam visibilidade. Sem Michelle, é possível que a campanha não tivesse saído da Nigéria e não teria se tornado, no mínimo, um instrumento de pressão. Mas segundo muitos, também foi mais um exemplo do ativismo de sofá, que permanece nos gestos sem gerar resultados reais. Dois anos depois, as meninas continuam sem aparecer.

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