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Anitta, a superestrela imprevisível: “Não ter filtro sempre me trouxe problemas”

Tem nome de heroína de novela. Não sabe o que é vergonha. Cantou com Madonna. E tem personalidade para farejar hits na era das plataformas. Agora, a brasileira se prepara para deixar o mundo aos seus pés

A cantora Anitta.
A cantora Anitta.

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Se uma equipe de marketing tivesse que inventar uma embaixadora para o Brasil do século XXI, não teria conseguido criar ninguém melhor que Anitta. Larissa de Macedo Machado (Rio de Janeiro, 28 anos) escolheu esse nome artístico em homenagem ao seriado Presença de Anita (2001) – porque, segundo já disse, a personagem encarnada por Mel Lisboa podia ser o que quisesse, mas acabou descobrindo que sua própria vida seria uma campeã de audiência. Nascida em um bairro simples da zona norte do Rio e criada entre o coro da igreja e as versões de funks que punha no YouTube, cresceu dentro de academias de ginástica, aulas de dança e clínicas de cirurgia plástica. Hoje, é a mais popular cantora do Brasil (Caetano Veloso e Gal Costa são instituições, claro, mas estamos falando da geração que se alimenta da internet), e seus duetos com J Balvin, Cardi B, Rita Ora, Madonna e Maluma arrasam nas plataformas. É provocadora, desbocada e sexual, um furacão imprevisível.

Também há demônios em sua história. Na Netflix (onde, na falta de uma série documental sobre sua vida, há duas) revelou ter sido vítima de um estupro na adolescência. Anitta é puro Rio: nela convivem a favela e os hotéis de luxo, a alegria e a violência. A última cena da série, também inconfundivelmente Anitta, teve lugar em plena gravação do seu último disco.

“Quando estava gravando Girl from Rio no estúdio li num site de notícias do Brasil que eu tinha um irmão. Meu pai tinha engravidado uma mulher antes de conhecer a minha mãe, algo que nem ele sabia. Um de meus produtores, o Stargate, me disse: ‘Bota isso na música, é genial!’.” Ela botou: “Acabo de saber que tenho outro irmão”, canta ela na canção.

“Não vivi aquilo como algo negativo”, esclarece. “Essa história é muito louca e engraçada. Já tenho o nome dele tatuado, assim como do meu outro irmão, que conheci a vida toda. E agora tenho uma sobrinha, filha dele. A minha mãe também adora o meu irmão novo. Afinal de contas, meu pai também não estava casado na época. Não conta como infidelidade.”

Girl from Rio é o disco que Anitta lança em breve, e no seu primeiro single, com o mesmo título, se atreve a fazer uma versão de um clássico brasileiro. Garota de Ipanema, mas sem falar exatamente de Ipanema. “Onde eu nasci, as garotas bonitas não parecem modelos”, canta. Ela fala desse outro Rio, que ela conhece e não aparece nos guias de viagem. “No clipe do Girl from Rio tem uma praia, mas uma praia artificial, que o Governo construiu para quem não tem acesso às outras praias”. Conhecido como Piscinão de Ramos, esse invento consiste em um lago do tamanho de três campos de futebol, que recebe banhistas de bairros mais humildes da Zona Norte carioca. Uma praia que os estrangeiros não visitam, e que sugere que Anitta pretende se tornar representante desse outro Brasil. É isso mesmo? “Assim espero”, responde. Seu primeiro grande show, em 2012, aconteceu ali mesmo e marcou para sempre sua imagem: uma artista pop que se inspirava em Britney Spears e Beyoncé, mas que se dirigia a garotas com vidas e corpos muito diferentes. Garotas como ela.

Pergunta. Você teve a coragem de fazer uma versão de um totem da música brasileira, Garota de Ipanema.

Resposta. Mas é uma nova versão pop, com a sonoridade de hoje em dia. Não é bossa nova.

P. Algo chamativo no seu anterior disco, Kisses, era que tinha uma canção para todos os públicos. Até minha mãe ouvia!

R. Ela gostava da do Caetano Veloso, com certeza! Essa canção é muito bonita. Minha intenção, não agora, mas para o futuro, é fazer um álbum inteiro desse jeito. Adoro a minha voz quando canto esse tipo de música. Aquele disco tem mais identidade, não mistura tanta coisa. Girl from Rio foi feito para tentar que os ritmos brasileiros comecem a ser reconhecidos globalmente.

P. Mas você canta em inglês, não em português.

R. O Brasil está presente nas canções, mas todas são em inglês. A intenção é levar primeiro o ritmo, mas da maneira mais fácil, com um idioma global. Assim é mais possível que as pessoas se interessem por algo. E depois faremos algo que tenha mais de português. Tudo tem que ser passo a passo, sem pressa. Já é muita novidade: uma artista nova fora do Brasil, sonoridade nova, e ainda por cima idioma novo?

P. Não tem medo de ser criticada por ser uma embaixadora da cultura brasileira que está cantando em inglês?

R. No Brasil às vezes dizem isto, eu sei, mas só quem não sabe exatamente o que estou tentando fazer com a minha carreira. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de espírito crítico, de curiosidade e de cultura entenderá exatamente o que estou fazendo. Se estou atrás de algo popular, temos que falar o idioma global para que as pessoas se identifiquem comigo. E aí comecem a procurar outras coisas. Pouco a pouco. Quem entende de música enxerga que este é o caminho.

P. Vendo de fora, o Brasil parece ser um lugar com muitos contrastes. Isso está no seu caráter? Você é um produto genuinamente brasileiro?

R. Sim. O Brasil é assim. Há muitas diferenças. Mas, por exemplo, no carnaval todo mundo se junta, vai pra rua. Todos temos características muito semelhantes, sem importar nossa posição social. Acho que sim, que sou a representação desta mistura porque venho de uma família humilde, mas adoro estudar e tenho muitíssima curiosidade. Eu me adapto a qualquer tipo de ambiente.

Para conquistar o mundo, Anitta conta com uma equipe de produtores de primeira linha, mas sobretudo com uma personalidade magnética e um senso de humor cáustico e sem filtros, o que faz dela uma das celebridades mais surpreendentes da atualidade. Gaba-se das suas cirurgias plásticas: “Minha cara é a do [monstro de] Frankenstein, tudo de mentira! Virei especialista em Photoshop, retoquei minha cara e quando tive grana cheguei numa médica, mostrei a foto e falei: ‘Faz isso na vida real’”, contou numa ocasião.

A cantora Anitta ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana. / JOHN PARRA / GETTY IMAGES
A cantora Anitta ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Música Urbana. / JOHN PARRA / GETTY IMAGES John Parra / Getty Images

P. Ver você falando na televisão é uma experiência indescritível. Você é uma das entrevistadas mais desbocadas e imprevisíveis do pop atual.

R. Isto me traz problemas! Sempre dá problema quando você não tem filtro. Mas, atenção, que eu tenho filtro: meu filtro é o respeito, os limites dos outros. Mas comigo? Buf... Quando você não tem filtro com você mesma é que as coisas se complicam. As pessoas sempre vão te julgar se você for muito sincera. E eu não acho que seja boa fazendo um papel. Não sou boa mentindo. Sou uma explosão. Se nessas entrevistas eu tiver que ser mais assim [finge cara de boa moça]… não funcionaria. Sou explosiva, digo o que me dá vontade. Minha personalidade é mais parecida com uma metralhadora. Eu gosto de dar entrevistas. É parte do meu trabalho. Se você quiser algo, tem que dizer ao mundo, se quiser que te ouçam, tem que dar algo em troca. Se quiser as pessoas conheçam e divulguem seu trabalho, tem que dedicar um pouco do seu tempo e do seu carinho a ser uma pessoa agradável. Afinal de contas, se não tiver ninguém falando de você e contando o que você faz…

P. Outra impressão, me corrija se eu estiver errado, é que quando você dá entrevistas a veículos anglo-saxões fica mais retraída do que quando fala para a Espanha ou a veículos latino-americanos. Há uma barreira idiomática para essa loucura da qual você fala?

R. Acho que é porque as pessoas ainda não conhecem bem minha personalidade no exterior, então quando me fazem perguntas sempre me colocam num certo papel. Acho que por estarem mais acostumados a esses artistas daqui [refere-se aos Estados Unidos] que não falam tanto, que não querem dizer nada sobre sua intimidade. Não falam de coisas próximas, como fazemos os latinos. Não acho que eu mude, o que muda é como me tratam. Podem me perguntar o que for que eu vou responder!

P. Lembro da sua entrevista a David Broncano no La resistencia

R. [Interrompendo] Não! Sempre me lembram dessa entrevista! Lembro que eu estava uma vez em Marbella, eu acho, e chamei um tatuador e ele, quando chegou, ficou me olhando e disse: ‘Você é a garota do La Resistencia!’. Isto demonstra que o jeito como eu sou depende muito de quem está me entrevistando. Se forem engraçados, serei engraçada. Se forem sérios, serei séria. Aqui nos Estados Unidos, ou na Inglaterra, noto que são mais sérios e eu tento ser mais séria.

P. Uma curiosidade: aquilo que você contou a Broncano, que não é preciso repetir (só daremos uma pista: era muito escatológico), você contou em alguma entrevista em outro lugar?

R. Se você está falando do cocô, eu falo de tudo! De cocô, de trepar. Do que me pedirem. Eu falo muito palavrão.

P. Qual é o seu palavrão favorito? Em português é porra. Porra... it’s like… [pensa]. Bom, o significado literal da expressão é como esperma, mas você pode usar para expressar que algo te machucou ou incomodou. Como quando na Espanha vocês dizem coño.

P. E em espanhol?

R. Em espanhol gosto de cabrón, porque pode ser bom ou mau, segundo como se use. Em inglês eu gosto de fuck!.

P. Você garante que não mudou nada, mas algo deve ter mudado na sua personalidade ao virar uma celebridade internacional que canta com J Balvin e Madonna.

R. Não, porque tenho a minha família comigo. Temos uma relação muito próxima e eles continuam me tratando como sempre me trataram. Não deixam que eu bote na cabeça a ideia de que sou famosa. Eu não gosto de tratar as pessoas de maneira diferente.

P. Frequentemente na Europa somos mais críticos com as letras de hits da América Latina, que tachamos de machistas ou muito sexuais (ocorreu, por exemplo, com Cuatro babys, de Maluma). Você acha que o sexo e a carnalidade são vividos de uma maneira diferente na Europa que na América Latina?

R. Pelo contrário, acho que na América Latina são muito mais machistas. Eu gosto de cantar sobre a sexualidade porque isto para mim significa liberdade. Não é que eu seja exatamente essa pessoa sobre a qual eu canto, embora às vezes eu tenha uma personalidade muito parecida com ela. Acho importante ter a opção de ser assim se você quiser. Podermos escolher quem queremos ser sem que fiquem nos julgando.

P. Como foi trabalhar com Madonna no seu último disco?

R. Trabalhar com ela foi como ir a uma escola de responsabilidade, concentração, educação… Ela chega com anotações sobre cada canção, gordas feito um livro: “Este som quero que vá por aqui, para este tenho aquela outra referência”… Temos amigos comuns e eles falaram a ela sobre mim. Madonna começou a procurar coisas sobre o meu trabalho e foi assim que ela me chamou. A experiência foi incrível, ela cantou funk, cantou em português, pediu que eu lhe ensinasse as palavras em português... E eu [sufoca um grito]... como vou corrigir a Madonna? “Se eu errar você me avisa”, ela dizia. E como eu ia dizer pra Madonna: “Você errou”? Pois acabei dizendo.

P. Para terminar, há uma frase no seu documentário da Netflix muito chamativa e poética: “Algum dia serei velha e rica, caralho”. Claro que velha você ainda não é, mas já conseguiu ficar rica?

R. Há muito tempo entendi que a grana é infinita. Não para mim, o que quero dizer é que os números são infinitos, e se você viver procurando cada vez mais dinheiro, sempre continuará procurando, insatisfeito com o que tem. Hoje em dia não me importo muito com isso. Também nem sei quanto eu tenho.

P. Vou entender como um sim.

R. Sim, mas se não tivesse grana viveria despreocupadamente do mesmo jeito. Já não valorizo mais estas coisas.

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