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Emicida: “Minha leitura do país não vale porra nenhuma se eu não souber conversar com alguém desesperado”

Rapper conversa com o EL PAÍS sobre o novo disco, ‘AmarElo’, e o show de estreia no Theatro Municipal de São Paulo, na semana que vem

Júlia Rodrigues

Foram quase cinco anos de hiato para que Emicida pudesse decidir, enfim, o que deveria ser dito ao longo das onze faixas que compõem AmarElo, seu 3º álbum de estúdio. As cartas ao mundo escritas pelo rapper de 34 anos derivam de um equilíbrio acurado, na linha tênue entre a esperança e a denúncia. “Imagina um palco com uma série de informações espalhadas em focos de luz. Poderia colocar esse foco de luz no medo, no desespero, na violência, mas decidi colocar na esperança. Mas, quando se olha de perto, é possível perceber que o medo está ali”, explica ao EL PAÍS, na sede da gravadora Laboratório Fantasma, em São Paulo.

A esperança, pondera Emicida, não pode ser feita de devaneios sobre uma vida irreal. A existência projetada nos versos do compositor mostram que o nascer do sol e o latir dos cães se fundem em uma manhã que pode ser gloriosa, mas a vida do negro nas ruas de São Paulo "tem lá seus dias de Vietnã". Mortes, como da jovem Ágatha Félix, de 8 anos, em setembro, e dos quatro adolescentes no Costa Barros, no Rio de Janeiro, vítimas de 111 tiros, em novembro de 2015, deixam evidente que, no Brasil, "existe pele alva e pele alvo", como ele canta.

"Minha preocupação fundamental é construir paz e serenidade sem ser ingênuo, sem se desconectar da realidade, o que soaria até como deboche no tempo que estamos vivendo", afirma. Um mundo em decomposição, mas que não deixa de brilhar, é o que o cantor vai levar ao Theatro Municipal de São Paulo no show de estreia do disco em 27 de novembro. "Não tive oportunidade de entrar naquele lugar a maior parte da minha vida, então, o que nós vamos fazer no dia 27 é dizer para as pessoas que têm origem parecida com a nossa que aquele lugar é nosso também."

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Pergunta. O álbum começa com uma faixa introdutória totalmente em silêncio. Qual a ideia?

Resposta. Estamos em um tempo de muito barulho, que não é só da poluição sonora, mas também da poluição visual, da enxurrada de informação na Internet. Isso tudo nos deixa com uma espécie de doença, sempre querendo mais informação, mesmo não dando mais conta. Qual o problema desse mergulho? Cada vez menos estamos nos escutando. Gostaria de sugerir que a gente se escutasse de novo e o silêncio faz parte desse pedido. Nos primeiros 30 segundos de um disco, há muita ansiedade com a rima, a batida. O John Cage [escritor e músico] tinha um espetáculo que ele entrava, sentava no piano, abria a tampa, todo mundo na expectativa e ele não apertava uma tecla. Parece, por ser músico, que isso é uma estratégia suicida. É como ser escritor e vender folha em branco. Mas, na verdade, quero dizer que existe uma relação que precisa se estabelecer, e, pra vingar, ela precisa de escuta, ou não vamos conseguir nada.

P. Um dos primeiros versos de Principia diz que "É um luxo ter calma/ A vida escalda/ Tento ler almas para além da pressão". O que você tem visto de onde está?

R. Sabe de onde sai essa rima? Não gosto da palavra tolerância, mas da palavra respeito. Tolerar é permitir a existência, mas desde que você saiba onde é o seu lugar e que você não está certo, o certo sou eu. Chegamos em um lugar tão deprimente que nós estamos nos contentando com o fato de sermos tolerados, não respeitados.

Minha reflexão acerca da tolerância, sobre a calma, ganhou peso no ano passado, quando conversava sobre política, às vésperas da eleição, e meus parceiros pobres, pretos, sofridos e desempregados falando que, no meio do caos, achavam que a solução viria ao votar 17 [Jair Bolsonaro]. Conversávamos sem um tom arrogante, era uma coisa genuína para tentar entender e aprender com eles, e eles comigo. Conseguimos construir um lugar nesse diálogo, e não estou falando de virar voto, mas de uma conversa sadia entre seres humanos. Percebi que se minha reação ao ouvir uma coisa que discordasse fosse de virar o professor e dizer que ele estava 100% equivocado, desconsiderando toda experiência da vida dele e o mar de desinformação no qual nós estávamos, eu teria sido muito arrogante e não teria conseguido conversar com esse cara.

Eu estava calmo, ele desesperado, por isso a calma é um luxo. Mas por que eu estava calmo? Porque a minha barriga estava cheia, durmo em uma cama quente, tenho Internet rápida, acordo quando bem entendo, trabalho o tempo que desejo e naquilo que amo. Isso não é a realidade da maioria. A realidade da maioria é ser empurrada para a margem e tentar se agarrar em qualquer coisa que pareça sólida, porque a vida dela e da sua família depende dessa coisa na qual ela vai se agarrar.

"Você foi honesto, trabalhou, se dedicou, fez tudo certo… O avô da menina Ágatha está  gritando isso, a humilhação de você quase conseguir"

Estar nesse meu lugar de reflexão é um luxo. Preciso ter consciência que meu trabalho me conecta com referências, livros, filmes e pessoas que ampliam o meu repertório para fazer uma leitura macro da realidade do país. Mas essa leitura incrível não vai valer porra nenhuma se eu não souber conversar respeitosamente com alguém desesperado.

P. Do que é feito esse equilíbrio? Há um verso de Eminência Parda que fala sobre "reequilibrar o Yin-Yang".

R. Estar alinhado com a sua essência significa fazer parte do ciclo da natureza. Sabe quando a Kill Bill vai treinar com o Pai Mei [Kill Bill: Vol. 2] ou quando o Daniel San está com o Mestre Miyagi [Karatê Kid]? Eminência Parda é um outro lugar, porque é um outro tipo de experiência, baseada na grandeza de pessoas que foram ensinadas durante a vida inteira que ela não tem nenhuma grandiosidade. Quando o Jé Santiago abre o refrão falando que "escapou da morte"… Ninguém escapa da morte, entende? Você precisa ser muito foda para sobreviver, e o moleque canta isso dizendo que agora ele sabe para onde vai, porque tentaram matar ele. Ele venceu o invencível.

Eminência Parda é a faixa de todo o repertório que está mais próxima de outras coisas que fiz na minha carreira. Por mais que as linhas sejam grandiosas, a atmosfera dela não é a que eu mais quero compartilhar agora. Para ela existir dentro do AmarElo requer um exercício, porque nós construímos uma espécie de confiança através da serenidade, do amor, da fé, por isso brinco com o treinamento kung-fu. Você começa a ouvir o álbum como se fosse um recém-nascido em Principia, e aí há uma abertura para aprender, ouvir e receber informações. Eminência Parda mostra que nós somos descendentes de pessoas grandiosas e que fomos roubados, e não podemos mais permitir que a pobreza de espírito triunfe a ponto de eu me sentir um nada. Isso é reequilibrar o yin-yang.

Júlia Rodrigues (Divulgação.)

P. Essa música cita o Racionais, que está completando 30 anos de carreira. Você está atualizando o que eles cantam utilizando um repertório diferente?

R. Há uma questão geracional, e a comunicação precisa ser reinterpretada, por mais que mazelas existam em vários campos. Estamos falando de outra geração, que bebeu em outras fontes, que viveu outras coisas. O Brasil de 1988 não existe mais, ele é uma base, referência para pensarmos o hoje. Nasci em 1985 e o país passou por vários capítulos que mudaram sua história, sobre consumo, cultura, jeito de se informar. A forma de se conectar com a molecada precisa fazer justiça a isso. O que eu acho mais incrível do Racionais é que eles conseguem fazer releituras de uma maneira raríssima no Rap, por isso temos tão pouco grupos antigos em evidência. Quando as pessoas acertam, elas abraçam aquilo como se isso fosse ser eternizado, e ele até pode ser eternizado como referência, mas é preciso continuar produzindo para seguir existindo artisticamente, e o Racionais faz isso. Enquanto produzia o AmarElo conversei com o Mano Brown sobre o fato de não querer ficar forçando uma juventude. Não quero parecer que tenho 13 anos, isso não soaria grandioso perto do que já fiz. Soaria irresponsável.

P. A música Ordem Natural das Coisas começa falando do raiar do dia, mas termina a primeira estrofe com a mãe dizendo ao seu filho para não esquecer o documento, porque "São Paulo tem seus dias de Vietnã". Como equilibrar a beleza do sol e o recado acerca da sobrevivência?

R. Quando começo a criar as histórias desse disco minha preocupação fundamental é construir paz e a serenidade sem ser ingênuo, sem se desconectar da realidade, o que soaria até como deboche no tempo que estamos vivendo. Quero manter meus pés no chão, mas o coração das pessoas precisa ser acalentado. Como fazer isso? Recorro à visão de mundo dos nego véio. Wilson das Neves, Jair Rodrigues, minha mãe, minhas avós. Aí começo a colocar as camadas na música. A beleza do amanhecer, a vida que continua, e por maior que seja a maldade, como dizem os africanos, "a noite mais escura sempre vai ser interrompida por um sol". Há um contexto frustrante por causa da maldade e do desperdício de vidas, mas a inspiração sempre chega ao amanhecer. A frase da mãe que fala para o filho levar o documento é outra camada. Tudo o que a militância mais jovem aprendeu a chamar de genocídio da população negra, cruzar isso com estatísticas que corroboram com a nossa visão e mostram o racismo estrutural no Brasil, com ênfase na perseguição às pessoas pobres e pretas, está dentro dessa frase que as nossas mães diziam pra gente sem fazer discurso. Essa frase é um jeito sereno de mostrar a preocupação delas e, por dizer isso cada vez que colocamos o pé fora de casa, elas nos fizeram entender que a situação não é igual. Quando você tem 16 anos e pergunta para o seu amigo loiro de olho verde se ele também passa por isso, a resposta é não.

Agora, o fato de nascermos neste contexto roubou o brilho das nossas mães? Não. Conheço mães que tiveram seus filhos arrancados dos braços pelo Estado, assassinados, e elas lutam no Mães de Maio, em outros movimentos, para que esse genocídio acabe. E, ainda assim, quando sento e converso com elas sobre seus filhos, a dor da saudade corta o coração, mas o brilho do olho acende, porque a vida deles continua incandescente, e quando elas se referem a eles, é como se eles estivessem vivos. Esse é o poder da vida, por mais que ela se apague.

P. Pequenas Alegrias da Vida Adulta é um pouco sobre isso também?

R. Sim, há uma reflexão sobre simplicidade. A questão do AmarElo como um todo é a seguinte: imagina que você tem um palco com uma série de informações espalhadas em focos de luz. Poderia colocar esse foco de luz no medo, no desespero, na violência, mas decidi colocar na esperança. Mas quando se olha de perto, é possível perceber que o medo está ali. Quando a mulher dá um beijo na testa do marido dela e diz "Deus te acompanhe, pretin, volta pra nóis", quem fala pra você voltar? Quem tem certeza que você vai voltar seguro não pede esse tipo de coisa. A música é endereçada para um lugar, e quem está fora dessa situação consegue perceber isso, e dói nela, mas também é possível se alegrar, porque a vida vence. Gostamos de dizer que a única certeza da vida é a morte, mas pra ter essa constatação, precisamos estar vivos, então a vida também é uma certeza. O que precisamos fazer é equilibrar as coisas que vão nortear nossa construção.

P. Logo no começo da Ismália você diz que "do gol que nós mais precisávamos, na trave". Que gol é esse?

R. É uma reflexão sobre desperdício. Há um economista, o Hélio Santos, um negrão fodido, que tem uma teoria sobre o desperdício econômico causado pelo genocídio da população negra. Quantos PhDs, MBAs, colocamos no caixão por simplesmente não conseguir cuidar de negros e negras enquanto sociedade. Ele mostra como poderíamos estar em outro lugar se a potência de cada um desses moleques fosse aproveitado.

"A realidade da maioria é ser empurrada para a margem e tentar se agarrar em qualquer coisa que pareça sólida"

A fé de quem está na torcida, quando você sai do meio-campo, dribla o time inteiro, chega na área, vai fazer o gol na final, e aí a bola bate na trave. Essa música é uma reflexão sobre o "quase". O Brasil olha para a sua população preta e pobre e não trata essas pessoas como ser humano. Elas estão condenadas ao quase. Sabe uma representação disso? Basta olhar a entrevista do avô da menina Ágatha, de oito anos, assassinada no Rio de Janeiro. Você foi honesto, trabalhou, se dedicou, fez tudo certo… ele está gritando isso. A humilhação de você quase conseguir. O quase é a maldição do Brasil. A diferença ínfima que faltava para o sujeito pegar o diploma no dia mais feliz da vida dele, mas aí há uma abordagem da polícia a caminho da formatura e ele é obrigado a deitar na calçada, e acaba sujando sua melhor roupa. Aí ele chega na festa com o olho cheio de lágrima, sujo, e esse dia se torna uma tragédia. Esse é o gol que a gente perde todos os dias.

P. Como é levar a cultura hip-hop para dentro do Theatro Municipal, no show de estreia?

R. Acho revolucionário que a gente consiga ser um grupo de rap da nossa geração e marcar o lançamento do disco de um estilo que pouco tempo atrás nem música era considerada, no palco da sala mais importante do país, onde passaram grandes nomes da nossa cultura. Pessoas que não tinham essa visão higienista do fazer artístico, só foram sequestradas por uma lógica que, no final das contas, acaba matando a arte, porque se o povo tivesse mais perto da música erudita, da biblioteca, do teatro, esse país era outro. Não tive oportunidade de entrar naquele lugar a maior parte da minha vida, então, o que nós vamos fazer no dia 27 é dizer para as pessoas que têm origem parecida com a nossa que aquele lugar é nosso também, e que a gente precisa estar ali, porque arte é ocupar.

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