Amor de uma moça nada comportada

Eu não sei nada sobre sexo, porque eu sempre estou casada

Zsa Zsa Gabor no aeroporto de Londres em 1955.
Zsa Zsa Gabor no aeroporto de Londres em 1955.

Pergunta: Quanto maridos você teve?

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Resposta: Além dos meus?

Assim foi e assim viveu a atriz húngara Zsa Zsa Gabor, morta há uma semana, aos 99. Tanto rebuliço e polêmica neste ano-pinguela de 2016 que esquecemos de nos despedir desta mulher extraordinária com as honras que ela merece.

Zsa Zsa não alisava os homens. Nem em palavras e muito menos em atos. Adorava dar uma bofetada em policiais de trânsito que insistiam em multá-la. Adorável criatura de filmes como “Moulin Rouge”, “Lili” e “A marca da maldade”.

Pequena coleção de pérolas desta moça nada comportada:

“Nunca detestei um homem ao ponto de devolver-lhe seus diamantes.”

“Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa.”

“Divorciar-se apenas porque você já não ama o seu marido é quase tão idiota quanto se ter casado com ele apenas porque o amava.”

“A única profundidade que os homens admiram em uma mulher é a do seu decote.”

“A garota deve se casar por amor, e continuar casada até encontrá-lo.”

“Eu quero um homem que seja carinhoso e compreensivo. É pedir muito de um milionário?”

“Eu não sei nada sobre sexo, porque eu sempre estou casada.”

Crônica para Zsa Zsa

Inspirado na minha amada, escrevi, há duas décadas, estas mal-traçadas linhas, cuja releitura exige uma certa ironia à moda Zsa Zsa, please:

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.

Como elas pedem gostoso.

Como elas são boas nisso.

Resistir, quem há de?

Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico. É o jeito de pedir, o ritmo da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.

Pede que eu dou.

Pede todas as jóias da Tiffany's, minha bonequinha de luxo!

Estou pedindo: pede!

Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.

Pede a bolsa modinha em Paris, pede a Daslu ou a Daspu, pede que compro nem que seja no camelô, na 25 de Março, nas galerias dos coreanos, compro da Orenilda, minha prima sacoleira de São Miguel Paulista.

O que importa é o requinte e o atendimento da demanda.

Não me pede nada simples, faz favor, please.

Já que vai pedir, que peça alto. Você merece, uma mulher como essa não tem preço.

Um concerto de Iggy Pop bem longe daqui?

Te levo.

Amor sincero?

Fácil, fácil.

Fidelidade?

Acabo de criar o seu exclusivo cartão de milhagem.

Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.

Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, 12 vezes sem juros, no pré-datado, no cheque sem fundos.

Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim no braço..., são lindamente barulhentos.

Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.

Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.

Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”

Um jantar no D.O.M. ou no Fasano?

É pouco para o meu bico.

Flores de helicóptero?

Como na filosofia do pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!

Pede, benzinho, pede tudo.

Que eu largue a boemia, pare de beber e me regenere???

Pede, minha nega, que o amor tudo pode.

Mesmo as que têm mais poder de posse não escapam. Com estas, as mais poderosas, tem ainda mais graça. Elas pedem só por esporte ou fetiche, o que não lhes comprometem a pose e muito menos a independência futebol clube.

Não é questão de poder ou dinheiro.

O que importa é o pedido em si, o romantismo que há guardado no ato.

Os melhores cremes do planeta dos potinhos mágicos? Vamos comprar juntos.

Eu lhe peço: me pede.

Não pede mimos baratos, pede atenção, por exemplo, essa mercadoria tão cara ao mundo das moças. Pede que corrija os erros do meu português ruim, que eu deixe de alternar a segunda e terceira pessoa, que falta de classe -- na boa, pede, nem que eu chame o Pasquale para ficar de “vela” corretiva entre nós dois...

Pede, amorzinho, pede gostoso, sou o senhor das tuas demandas.

Boas farras natalinas a todos. Coma, gente, coma. Como é linda uma comilança de uma mulher destemida e sem culpa.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “A pátria em sandálias da humildade” (editora Realejo), entre outros livros.