Dimas Covas detalhará na CPI documento do Butantan que expõe a demora de Bolsonaro em comprar vacina Coronavac

Planalto demorou ao menos três meses para dar sinal verde ao principal imunizante usado atualmente no país. Oposição quer demonstrar que presidente insiste em tese de imunidade de rebanho, enquanto que governistas tentarão apresentar interesse político de um subordinado de João Doria

O médico Dimas Covas, em julho de 2020.
O médico Dimas Covas, em julho de 2020.AMANDA PEROBELLI (Reuters)

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O presidente do Instituto Butantan, o médico Dimas Covas, deverá expor na CPI da Pandemia no Senado, nesta quinta-feira, que o Governo Jair Bolsonaro demorou o quanto pôde para adquirir as vacinas Coronavac, fabricadas pelo órgão público de São Paulo em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. O teor de seu depoimento está delineado em um documento já em posse da CPI em que Covas explica o vaivém de Bolsonaro para a compra do imunizante contra o coronavírus. Entre o primeiro anúncio de venda, vetado pelo presidente, e a assinatura efetiva do contrato passaram-se quase três meses.

“Em relação às 46 milhões de doses oferecidas ao Ministério da Saúde, após diversas reuniões e discussões, o então senhor ministro [Eduardo Pazuello] anunciou a aquisição do mencionado volume de vacinas do Butantan em outubro do ano de 2020. No dia seguinte ao anúncio, conforme manifestado por vossa excelência em seu prezado ofício, o senhor presidente da República foi a público negar que tal aquisição seria feita. Isso tudo em outubro de 2020”, disse Covas em resposta a um requerimento do senador Ângelo Coronel (PSD-BA).

A cronologia do caso é a seguinte: em 20 de outubro do ano passado, o então ministro Pazuello anunciou em reunião com governadores que havia autorização para o ministério comprar a Coronavac. No dia 21, após ver reações negativas de seus militantes nas redes sociais, Bolsonaro rejeitou o acordo. “Não compraremos a vacina da China”, escreveu o mandatário no Facebook. No mesmo dia, em um evento público em Iperó (SP), ele reafirmou: “O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade”. No dia 22, Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo na internet com Pazuello, quando ele o visitou no hotel de Trânsito do Exército, onde se recuperava de covid-19 e ouviu seu ministro dizer que o presidente estava dando uma ordem, que seria cumprida. “É simples assim: um manda e o outro obedece”, afirmou Pazuello. Enfim, este episódio reforçou a interferência negativa de Bolsonaro na gestão da crise do coronavírus.

No documento entregue à CPI, o representante do Butantan reforçou a demora para a assinatura do acordo. “Após diversas gestões, somente no dia 7 de janeiro de 2021 é que o contrato das 46 milhões de doses foi firmado entre o Ministério da Saúde e o Butantan.” No documento enviado à comissão, no dia 13 de maio, o médico ainda reforçou que desde junho de 2020 o Instituto Butantan negociava a venda dos imunizantes ao Governo Federal.

Nesta quarta-feira, a CPI aprovou que o Butantan terá de fornecer “todos os protocolos de intenção de aquisição da vacina Coronavac pelo Ministério da Saúde e todos os contratos, especificando datas em que foram realizadas as reuniões/tratativas/contatos”. Ou seja, o objetivo, mais uma vez, é expor a demora do Governo Bolsonaro em adquirir vacinas e qual foi o impacto dessa inércia na tentativa de se obter a imunidade de rebanho por meio do contágio massivo da população brasileira.

Por outro lado, os governistas tentarão colar nele a imagem de que teria interesse político em desgastar a imagem do presidente. A razão é que o instituto que Covas dirige é vinculado ao Governo de São Paulo, sob gestão do ex-bolsonarista e pré-candidato à Presidência da República, João Doria (PSDB).

Até o momento, 52% das 90,7 milhões de doses distribuídas pelo país são da Coronavac. O restante se divide entre a Oxford/AstraZeneca (45,4%) e Pfizer (2,5). Os dados são do Ministério da Saúde. Ao todo, o Butantan tem dois contratos assinados com a União, que resultaram na venda de 100 milhões de doses da Coronavac. O instituto ainda está em fase de testes de sua vacina própria, a Butanvac, e de um soro para combater a covid-19.

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Dimas Covas será o segundo representante de produtores de vacinas a ser ouvido na CPI. Antes dele, foi o presidente da Pfizer para América Latina, Carlos Murillo, foi interrogado pelos senadores. Na ocasião, ele ressaltou que o Governo ficou mais de dois meses sem responder às ofertas feitas pela farmacêutica e que o próprio Bolsonaro havia sido alertado sobre a demora. Em duas das propostas, havia a possibilidade de entregar ao menos 500.000 vacinas ao Brasil ainda em dezembro de 2020.

Depois de tanta demora, o Brasil assinou dois contratos com a Pfizer. Um em março de 2021 ―ou seja, 234 dias após a primeira oferta da farmacêutica, e outro em maio. Ao total, a Pfizer entregará 200 milhões de doses de seu imunizante ao longo de 2021. Se os primeiros contratos fossem assinados em agosto passado, quando ocorreram as primeiras propostas, o país receberia 18,5 milhões de doses até junho deste ano. O atual acordo prevê a entrega de 13,5 milhões de imunizantes no primeiro semestre. O depoimento de Dimas Covas está previsto para começar às 9h desta quinta-feira.

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