Três meses após vetar Coronavac de Doria, Governo Bolsonaro anuncia compra do imunizante e acelera corrida da vacinação

Ministério da Saúde compra 100 milhões de dose do instituto paulista, desenvolvido com laboratório chinês, e promete começar a aplicá-la dia 20. Palácio dos Bandeirantes não esclarece se compra muda cronograma de São Paulo

O ministro Eduardo Pazuello durante cerimônia no Planalto.
O ministro Eduardo Pazuello durante cerimônia no Planalto.ADRIANO MACHADO (Reuters)

No dia em que o Brasil ultrapassou a marca de 200.000 mortes em decorrência da covid-19, o presidente Jair Bolsonaro intensificou uma disputa com o seu ex-aliado e agora adversário político, o governador paulista João Doria (PSDB), na corrida por quem vacinará primeiro a população contra o novo coronavírus. O Ministério da Saúde anunciou que pretende iniciar a vacinação de grupos prioritários do Brasil a partir do próximo dia 20, quando o plano paulista fala em vacinar a partir do dia 25. Por outro lado, cedeu. Após uma intensa campanha do presidente contra a Coronavac, a vacina desenvolvida por um laboratório chinês em parceira com o Governo paulista, o Ministério da Saúde informou que assinou um contrato com o Instituto Butantan, que está à frente do imunizante no Brasil, para adquirir todas as 100 milhões de doses que o órgão produzir.

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Se concretizada a promessa, a gestão Bolsonaro iniciaria a vacinação cinco dias antes do previsto inicialmente por Doria em São Paulo, que nesta quinta-feira, anunciou, ainda que sem detalhes, que a Coronavac apresentou 78% de eficácia em um estudo com mais de 12.000 voluntários. Trâmites burocráticos, como a apresentação de um pedido de uso do imunizante e sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além da incerteza sobre a data exata da chegada de 2 milhões de doses adquiridas pelo Ministério da Saúde junto a um laboratório sediado na Índia, vinculado à empresa AstraZeneca, podem postergar os planos da gestão Bolsonaro para 10 de fevereiro ou para as primeiras semanas de março.

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O contrato para adquirir toda a produção do Butantan só foi possível por conta de uma medida provisória publicada na quarta-feira em que permite que sejam firmados acordos antes mesmo da aprovação da vacina pela Anvisa. O anúncio pegou de surpresa até políticos vinculados à gestão Doria. “Parece uma corrida em que estamos sendo sabotados. Engatamos a quarta marcha, pronto para ganhar mais velocidade, quando o Governo engata a primeira e leva todo nosso estoque de vacinas. Fomos pegos de surpresa”, disse à reportagem um político com acesso ao governador.

Doria, que era publicitário antes de ser político, resolveu se vangloriar do acordo. “O que nós mais desejamos é que a vacina do Butantan atenda todo o Brasil”, disse em nota e vídeo distribuído por sua assessoria de imprensa. Ele é um dos potenciais candidatos à sucessão presidencial de 2022. Ex-aliado de Bolsonaro, tenta agregar partidos de centro-direita para substituir o atual ocupante do gabinete principal do Palácio do Planalto.

Em outubro, quando veio à tona que o Ministério da Saúde havia assinado um protocolo de intenções para aquisição da vacina do Butantan, o presidente Bolsonaro rapidamente desautorizou a compra. Disse ele em uma rede social: “A vacina chinesa de João Doria, qualquer vacina antes de ser disponibilizada à população, deve ser comprovada cientificamente pelo Ministério da Saúde e certificada pela Anvisa. O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Minha decisão é a de não adquirir a referida vacina.” Ainda fez com que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, participasse com ele de uma transmissão ao vivo dizendo que o presidente era quem mandava.

Nesta quinta-feira, Bolsonaro fez uma nova live, em seus perfis, mas não explicou a razão de mudar de opinião sobre a vacina produzida pelo Butantan. Apenas reforçou sua contrariedade sobre a obrigatoriedade da vacina. Disse que as vacinas usadas atualmente são em caráter experimental. E que, por esse motivo, não poderiam ser obrigatórias. “Não fazendo campanha contra a vacina, nem a favor. Isso é uma questão de conscientização”, afirmou na transmissão.

Conforme o ministro da Saúde anunciou em entrevista coletiva, o planejamento é que ao longo de 2021 o Governo disponibilize cerca de 345 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Seriam 210 milhões produzidas pela Fiocruz/AstraZeneca, 100 milhões da Butantan/Sinovac, 42 milhões por meio do consórcio internacional Covax Facility e mais 2 milhões importadas de um laboratório da AstraZeneca. A ideia inicial é que, assim que forem aprovadas pela Anvisa, sejam usadas 8 milhões de vacinas. Os primeiros a serem vacinados seriam profissionais que atuam na linha de frente da saúde e grupos de risco, como idosos com mais de 80 anos e pessoas com comorbidades.

Segundo Pazuello, a distribuição da vacina será equânime e proporcional a todos os Estados. Procurado, o Instituto Butantan confirmou a assinatura do acordo, disse que ele reforça uma parceria de mais de 30 anos que tem com o Governo e que a distribuição do imunizante beneficiará todos os Estados, inclusive São Paulo. O Governo paulista não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre eventuais mudanças no cronograma de vacinação.

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